Mostrando postagens com marcador #V. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador #V. Mostrar todas as postagens

sábado, fevereiro 18

quero te mimar profundamente


esse foi um tempo de muitas vivências
muitos encontros
na cidade

a princípio não sabia se conseguiria existir ali
y existi alis
plenamente

escrevo isso escutando o conde só brega, conde só pedrada
agora, os pássaros...
tempo passando
cachorro latindo
carros incessantes
a cidade mais parada
movimentação se sente em ondas, como o vento que corre, me bagunça
me atravessa?
mais ou menos...
sou mais ou menos poroso para a brisa que me percorre

tem sempre algum ruído
parei a música para sentir o silêncio
e aos poucos me dei conta de quão silencioso pode ser o ruído e quão ruidoso pode ser o silêncio
ou vice-versa

não estou confiante de que minhas palavras façam sentido ou interessem 
a quem quer que seja

mas a mim interessa muitíssimo que eu as escreva

"escrever com os olhos"

quero sorrir
te olhando nos olhos

te olhar é gostoso
tu olha e sustenta

me sinto hipnotizade pela tua existência

"escrever cartas de amor"

eu amo você e
amar você 
me enche de amor
para amar o mundo

amar é gostoso
escorre............

quis sentir o fogo nas bochechas
que sobe cada vez que você olha para mim
e sustenta olhar profundo, aberto

termino esse texto sentindo 
as bochechas ardendo e
o coração a pular no peito

>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>vique

quinta-feira, março 4

a humilhação pode operar milagres

essa é uma primeira postagem depois de muito tempo das últimas postagens porque me deu vontade e já tinha dado vontade antes mas eu deixei passar e acabou passando

fiquei com medo que passasse de novo então vim postar qualquer coisa

não sei

não sei o que escrever


mas sinto saudade de fazer isso - não escrever somente, não escrever em qualquer lugar, mas escrever aqui: é disso que eu sinto saudade

afinal o que é uma postagem num blog?

um pensamento próprio, confuso, elaborado, opinião que transborda dos insuficientes 280 caracteres

esse é o espaço para minha loucura se manifestar livremente, ou numa tentativa de organizá-la em pensamentos, argumentos sólidos na pretensão de convencer quem lê de que estou mesmo louca, mas não tanto assim

"é que essa loucura faz sentido", essa loucura se faz sentindo

mas esse não é um texto argumentativo ou poético ou bonito

eu poderia falar sobre a pilha de livros começados que organizei na estante do meu quarto, as coisas estão mudando, sei que estão...

hoje vivi um grande rompante terapêutico, coisa potente, energizante, que só se encontra cavando bem fundo o fundo do poço

meses caóticos, improdutividade seletiva, desespero, pena, lágrimas e uma mensagem que foi eu batendo o olho, pressão caindo: pronto. fudeu. e não era isso que eu queria, correndo na beira da piscina?

escorreguei tem tempo, só não dei conta que estava caindo

me olhou incrédula, de cima pra baixo: "caiu?"

pior que eu nem tinha reparado que tava ali estatelada - tinha tanto tempo, o corpo chega doía da imobilidade

vergonha de quem é estabanada, cabeça erguida de quem tá acostumada com a passação: "caí, mermo. queria nem pedir ajuda, mas to sentindo que me fudi"

a humilhação pode operar milagres, disso não tenho (mais) dúvidas

a cara arde, timidez não é nada comparada aos tapas da realidade

ofereci todas as faces da minha bunda à cadeira, minhas costas se pudessem choravam, mas não podem então gritam

zunzunzum do corpo que aquieto já com banho

dia foi puxado, emocionante, lindo também

li, escrevi, li, escrevi, tirei uns trinta minutinhos pra passar mal desejando romance colegial que eu nunca vivi, passeei com a cachorra lolla pelo bairro e voltei aqui

e li o que tinha escrito, escrevi com o que tinha lido, baguncei foi tudo!

mas é sobre isso, né?

#vique

p.s.: pois então??? que coisa interessante... eu queria muito terminar com um beijocolate de ensino médio, mas não vai dar!! que coisa estranha que a pessoa que deu origem ao #v é foragida de minha vida, inventei persona outra de lá pra cá, coisa gostosa recomeçar... kikiiiiu bora lá

segunda-feira, abril 17

Carta para o cara escroto que me tornou uma pessoa simpática

Essa é uma das várias cartas endereçadas a pessoas que provavelmente nunca as lerão. Que tipo de pessoa é você, explosivo ou implosivo? Sempre fui boa em levar desaforo pra casa, criando diálogos hipotéticos para fazer-lhes companhia. Mas a casa está cheia. Então vamos tentar transformar esse despejo todo em arte.

Caro H,
Tudo bem se eu te chamar de H? É que eu nunca descobri o seu nome...
Bem, olá. Eu não sei se você lembra de mim, apesar de eu lembrar de você. Não se sinta tão especial, é que eu costumo pilhar numas coisas que vão pra pilha de memórias esquecidas dos demais envolvidos. Por via das dúvidas, vou esclarecer: eu tava num ônibus vazio com só mais uma pessoa, que eu não conhecia, quando você chegou. Voltando da escola com aquela farda zoada, lembrou? Digo, eu estava com a farda. Você, não. Você era um universitário. Podia ir direto da universidade pro cinema, se quisesse, e as pessoas não se incomodariam com o que você estava vestindo. Sua bolsa carteiro também estava ótima, embora não tanto para as suas costas.
Você sentou do meu lado, sendo que o ônibus era só lugar desocupado. Mas eu não achei chato. Achei bem show radical daora, na verdade. Achei incrível que um cara mais velho e claramente mais descolado que eu tivesse escolhido sentar DO MEU LADO, CARALHO, sendo que, tá ligado?!
Na época, eu estava começando a pensar sobre todo o tempo que perdemos - eu, você, a humanidade inteira - entediados, esperando que o ônibus chegue à nossa parada, ou que o médico finalmente nos atenda depois de três longas horas de espera. E eu ficava transtornada com o fato de as pessoas entediadas ficarem caladas esperando sua via sacra pessoal acabar, sendo que poderiam aproveitar esse tempo para dizer "oi" pra quem quer que estivesse ao seu lado. E o tempo de espera excruciante se tornaria tempo bem aproveitado com uma boa conversa! (Não existia WhatsApp nessa época.)
(Na minha cabeça, conhecer alguém novo sempre seria excitante e divertido, sempre seria proveitoso, sempre seria bom. É uma ideia bem inocente sobre as pessoas, porque, agora, sei que há muitas pessoas malvadas no mundo, que poderiam levar um "oi" não apenas a uma conversa extremamente desagradável, mas até a um cenário violento.) 
(Talvez você pense que eu sou paranoica por pensar nessas coisas agora, mas é muito difícil não pensar nelas sendo mulher em um país que acredita que mulheres que dizem "oi" a estranhos e acabam estupradas e/ou mortas - o que não é exatamente RARO - estavam, sem dúvida, PEDINDO PARA SEREM ESTUPRADAS) 
"O que tudo isso tem a ver comigo?", você deve estar se perguntando, H. Acontece que toda essa filosofia me levou a acreditar que eu não devia perder a chance de dizer "oi" para uma pessoa que deliberadamente sentou-se ao meu lado em um ônibus vazio e que, por isso, provavelmente, não teria uma resposta negativa à minha tentativa de conversa.
Só que dizer "oi" pra uma pessoa desconhecida em um ônibus tão vazio quanto o meu estômago não era tão fácil quanto eu pensei que fosse. Suei horrores, me tremi, fiquei tonta, mas soltei um "ah, você estuda alemão?" quando você tirou a apostila da sua bolsa.
Nossa, você guardou a apostila na hora e começou a falar. Eu nem sei mais do que você falou. Algo sobre seu curso? Engenharia, etc? Foda-se? A única coisa que me importava era que a conversa estava fluindo, e você parecia empolgado, e eu estava delirando de felicidade porque consegui lutar contra a inércia e sair do meu tédio pra trocar umas ideias com você.
Aí você me perguntou pra que curso eu ia prestar o vestibular. E não gostou da minha resposta.
Você, H, que me conhecia há menos de meia hora, de repente sabia que Psicologia não era o curso certo pra mim. Parecia muito preocupado com a minha renda, porque se demorou muito argumentando que a prática profissional nunca me enriqueceria. Disse que não tinha o que fazer com uma graduação em Psicologia. E disse que eu devia prestar vestibular pra medicina, pra me especializar em Psiquiatria, porque eu ia fazer a mesma coisa que faria se fosse formada em Psicologia, só que ganhando muito mais.
Não quis estragar o momento. Engoli e fui seguindo, até minha parada chegar. Eu desci do ônibus toda contente, sem nem perguntar seu nome, nem apertar a sua mão. Saí saltitante e satisfeita e fiquei obcecada por esse negócio de falar com pessoas desconhecidas. Tentei te encontrar pelos ônibus, mas não aconteceu. Ou talvez eu não tenha dado bola pra você. (Sinceramente, H, bem feito.) Eu comecei a falar com todo mundo. Comecei a escolher do lado de quem eu ia sentar exatamente pra conversar com aquela pessoa. Encontrei pessoas fantásticas. Gente que estudava, que trabalhava, que visitava a cidade. Conheci um dos meus melhores amigos no ônibus, e até nutri umas paqueras erradas aqui e ali. Você abriu um mundo novo pra mim. Porque deu corda ao meu papo. Muito obrigada, H, por tudo isso. Você foi uma peça fundamental para toda uma revolução em minha vida. De tímida e reservada a conversadora compulsiva. O que seria de mim sem você?
Provavelmente quem eu sou hoje, mas com uns dias de atraso.
Olha, eu não sei nem por onde começar, H. Passei todos esses anos te achando babaca porque quis ditar o meu futuro, sendo que A) Quem é você na fila do pão? B) O que você sabe sobre Psicologia, Psiquiatria e a prática profissional dessas áreas? C) Quem é você na fila do fucking pão?
Eu espero que você já saiba, mas, francamente, acho que não sabe: Não só de clínica vive a Psicologia. Doido, né? Com uma formação de Psicologia, que você disse que não dava pra fazer muita coisa, dá pra recrutar gente, dá pra elaborar estratégia de marketing, dá pra fazer teste de personalidade, dá pra facilitar oficina, dá pra melhorar motivação em equipe de futebol, dá pra ajudar professor a aprimorar metodologia de ensino, dá pra atender vítima de agressão, dá pra pensar campanha de conscientização, dá pra fazer programa educacional... Dá até pra sentar na poltrona e pedir pra outra pessoa falar mais sobre a relação os pais!
Só não dá pra medicar. Pra isso, tem que cursar Medicina, mesmo. Tem que passar pelos anos de graduação, depois de especialização, residência... aí, sim. Aí dá pra ser chamado de psiquiatra. E dá pra dizer "poxa, ainda bem que eu ouvi aquele cara do ônibus e gastei 10 anos pra sentar no meu birô e perguntar 'qual as novas?' pra alguém que pode precisar de acompanhamento. IMAGINE se eu só tivesse feito Psicologia, mesmo, e estivesse em poder de fazer isso há anos? QUE DOIDEIRA."
H, eu quero ser professora. Amo meu curso. Quero seguir carreira acadêmica. Nunca quis clinicar. Nem passar por tudo o que eu teria que passar se psicologia clínica e psiquiatria fossem assim tão iguais, mas com salários diferentes. Você não foi a primeira nem a última pessoa que me mandou "deixar dessa leseira" e me dedicar pra uma carreira médica. Na verdade, até hoje, já um pouco além da metade do curso, ainda ouço quem diga esse tipo de coisa. Mas você, H? Qual é a sua, mano? Desqualificar o futuro profissional de alguém que você acabou de conhecer... Vai te foder! Melhor contemplar a vista da minha janelinha, mesmo, e aproveitar pra agradecer - OBRIGADA, DEUS - de estar em um ônibus vazio em pleno horário de almoço. (Porra, estar SENTADA nesse ônibus já era suficiente pra rezar um terço.)
Bem, esse foi o motivo pelo qual você foi um babaca para mim durante todos esses anos. Nos últimos meses, porém, comecei a pensar, H, que complicado você escolher sentar ao lado de uma adolescente menor de idade (dados claramente perceptíveis, pois: farda) sem pedir licença, sem se preocupar se ela ia achar ruim, quando no ônibus inteiro só havia ela, você e mais uma pessoa, sentada longe pra caralho, além de motorista e cobrador. Você não me conhecia. Não tinha nada que falar comigo. Nem que ficar perto de mim, com seu braço roçando no meu. Posso não ter me incomodado então, mas sei que muitas mulheres se incomodariam com a situação. E dou total razão a elas. Talvez você não entenda muito bem, porque não precisa se preocupar com as coisas que nós precisamos nos preocupar. Mas aqui a compaixão entra com todo o seu poder: você tem que tentar se compadecer das pessoas que não estão confortáveis com sua abordagem e melhorar isso aí. Isso não serve só pra você. Serve pro cara que se acomodou entre eu e a janela, de forma que, se eu olhasse na direção dele, esbarraria meu nariz no dele. Serve pro cara que ficou me olhando a viagem inteira, descaradamente, e me deixou nervosa. Caralho, serve pra tanta gente. Pra tantos homens, sendo franca. Deixem a gente em paz, porra!
Agora, cansei.
Obrigada, e não volte,
#V

quarta-feira, julho 27

ve-la


é quando a luz cessa, quando a noite a faz sentir sozinha, que me procura
na escuridão.
as mãos que me buscam tocam paredes e móveis, cegas, até encontrarem meu corpo.
seus dedos me tocam, me sentem, me esquentam... me deixam momentaneamente, e o ruído produzido por um risco é gostoso aos ouvidos.
o calor me toca e me envolve, deliciando-me - está dentro e fora de mim.
seus lindos olhos são visíveis a todos mais uma vez - seus lindos olhos.
mas estamos apenas as duas ali. sou privilegiada por isso.
aqueço-a, me sinto querida, mas ela já não está ali. o toque se foi.
a chama que arde em mim não mais é das carícias, mas do que ela fez comigo enquanto me acariciava.
meu próprio fogo me consome, literalmente, me destruindo aos poucos
dói. a dor excruciante me toma por inteiro.
minha paixão me derrete, me machuca e me diminui - a troco de quê estou morrendo em mais uma noite escura?
algo muda no ambiente, mas a dor não me deixa entender o que é.
ela move-se vagarosamente pelo cômodo, cada vez mais perto de mim. estou a poucos centímetros de seu rosto agora, mas não posso tocá-la.
ela abre um sorriso delicado e delicioso, e meu fogo expande-se, iluminando suas bochechas.
esqueço a dor em sua companhia, e me derreto ainda mais rapidamente.
vou morrer! vou morrer de amor!
sua boca toma outro formato lentamente, preparando-se para um beijo.
minha chama é agora inquieta, diante dessa imagem. a quero mais perto, mais perto!
mas não é um beijo. é um sopro.
ainda atordoada, já morna e sem vida, me descubro inútil no cômodo iluminado.
suas mãos, agora ágeis e precisas, removem-me de meu altar recém-conquistado, me quebrando no ato.
estou menor e machucada quando sou posta de volta na gaveta. já fria, desolada e esquecida.
mas só penso nela. e mal posso esperar para ser lembrada outra vez.

#V

segunda-feira, julho 4

duas mãos


para cada mão, há uma mão
e duas mãos ficam sozinhas

as duas mãos são minhas
mas minhas as mãos não são

a mão acaricia a minha mão
minha mão acaricia a mão

as mãos tocam
as mãos são tocadas

o toque, sinto-o por inteiro

são minhas mãos
são minhas próprias mãos

o toque das mãos é inexistente
as mãos não se tocam
são mãos carentes

seria a mão que toca suficiente?
e a mão que é tocada, como se sente?

as mãos se tocam.
"são minhas mãos"
mas nenhuma delas me pertence
#V

quarta-feira, junho 8

70

Erivanderson, nascido pra brilhar, me desafiou a listar 70 fatos sobre mim, e eu pensei que não ia conseguir. Surpreendentemente, porém, consegui, e nem foi tão difícil assim. Então, a quem interessar possa, aí vão 70 fatos que acho importantes por algum motivo.
1. minha cor favorita é cor-de-rosa
2. já pintei o cabelo de roxo, rosa e azul
3. gosto de puxar papo com desconhecidos, mas analiso-os bem antes de me atrever a dizer "oi"
4. faço amizade facilmente com porteiros, zeladores, secretárias e vigilantes
5. me esqueço dos meus problemas subindo no telhado do meu prédio, ilegalmente
6. subo no telhado do meu prédio sempre acompanhada, para ser seduzida pelo horizonte
7. tenho muito medo de deixar de ser eu
8. tento aproveitar todos os momentos
9. choro quando me dou conta de que não estou aproveitando minha vida plenamente
10. amo dançar, e danço mal, mesmo, mas danço até as pernas ficarem bambas
11. para sair do sedentarismo, comecei a fazer balé clássico
12. me orgulho de meus avanços no balé, embora não sejam tão incríveis
13. já fiz ginástica rítmica
14. quando criança, me sentia adulta
15. quando cansei de usar franja, fui até o banheiro com uma tesoura e cortei fora
16. todos ficaram loucos quando fiz isso, porque eu podia ter me cortado, e eu só pensava: "até parece que eu sou uma criancinha!" eu tinha 5 anos
17. arranquei todos os meus próprios dentes de leite, menos um
18. minha primeira queda foi aos 2 anos de idade, quebrei dois dentes
19. em meu pior pesadelo, estrelava zé vampir, da turma do penadinho
20. criança, fazia a camisolinha de seda de saia e fingia dançar dança do ventre
21. já fiz um curso de dança do ventre
22. já fiz um curso de teatro
23. já fui muito tímida, e ainda sou, mas aprendi a ser maluca
24. fiz parte da edição do jornal da minha escola
25. prestei vestibular para 4 cursos diferentes - engenharia eletroeletrônica, história, psicologia e design gráfico -, porque não sabia, mesmo, o que queria fazer da minha vida
26. passei em todos os vestibulares que fiz
27. recusei uma bolsa integral em uma faculdade particular sem saber o resultado da universidade pública
28. sou péssima em entrevistas de trabalho
29. a meus olhos, sou péssima em apresentações, embora seja frequentemente elogiada
30. sou extremamente perfeccionista e autocrítica e, embora isso resulte em bons trabalhos, resulta também numa gastrite crônica, ansiedade e noites insones
31. gente desleixada me dá uma agonia na alma
32. odeio atrasos, principalmente se nada foi dito a respeito
33. odeio quando desmarcam comigo bem em cima da hora, e já estou pronta há tempos
34. tenho rituais de limpeza para receber pessoas em casa
35. fico angustiada com a bagunça alheia
36. cultivo e protejo minha bagunça, com unhas e dentes
37. não amo sushi
38. não amo açaí
39. minha comida favorita é feijão, e vai bem com arroz, com cuscuz, com banana, com o que mais vier
40. pipoca de panela é minha especialidade culinária
41. quero estar certa sempre
42. nem sempre estou certa, mas defendo minhas ideias até o fim
43. morro de vergonha quando sou pega espalhando algum dado errado
44. já escrevi um livro, mas nunca tive coragem de publicar
45. morro de medo e de preguiça de lutar pelos meus sonhos
46. gosto de sair de casa andando, sem rumo, até os pés cansarem
47. gosto de fazer visitas surpresa
48. adoro receber visitas
49. a minha programação favorita é juntar uns amigos meio nada a ver pra conversar e comer pizza
50. meus desenhos são propositadamente toscos, pra ninguém vir e colocar defeito
51. durante uma época de minha vida, costumava ler dois livros por semana
52. desde que entrei na universidade, li vários primeiros capítulos de livro
53. desde que entrei na universidade, acho que li menos que 10 livros por inteiro
54. me apaixono facilmente por qualquer pessoa ou coisa
55. quase morri de amor uma vez por semana, nos últimos 20 anos, por pessoas diferentes
56. estabeleço um primeiro contato com facilidade, mas não sei manter amizades
57. fujo de semi-conhecidos e conhecidos de quem não gosto tanto assim
58. perco o interesse tão facilmente quanto o desenvolvo
59. já fui apaixonadinha por pelo menos 3 professores meus
60. curso psicologia, mas não quero ouvir seus problemas de graça nem os de mais ninguém sendo paga
61. o meu sonho profissional é ser professora
62. nunca brinquei de boneca sendo a mãe das bonecas, eram sempre minhas irmãs
65. nunca fingi que minhas barbies fossem kens para namorarem, sempre as assumi como mulheres que relacionavam-se com mulheres
66. brinquei de boneca até os 15 anos de idade, e aproveito os meus sobrinhos para ainda brincar, de vez em quando
67. já viajei pra caramba, pra dentro e pra fora do país, mas ainda quero mais, bem mais...
68. sou teoricamente fluente em alguns idiomas, mas não me arrisco a falar por divertimento
69. beijar na boca é definitivamente um hobby, embora eu ame tanto paquerar

70. troco facilmente horas de sono por atividades banais, como a confecção de uma lista de 70 fatos sobre mim

E é isso aí. Até a próxima. Beijocolates,
#V

terça-feira, fevereiro 3

[EL]-es

Ela guardou
Ele deu

Ela prendeu
Ele soltou

Ela teve medos
Ele teve sonhos

E agora, o quê?

Há sorrisos em ambos os rostos
Sorrisos diferentes

Ela parece ter mais olhos
Ele parece ter mais dentes

Curioso, curioso

E o amor que aflorou num
Desabrocha em outro

Outro, mesmo
Não mais aquele

E tudo ficará bem
Não tenha dúvidas quanto a isso

Ainda que um não faça o bem
Que o outro fazia a um

Porque essa coisa de amar
Revigora e permanece
Quentinha no coração

E ainda que lhe digam "não"
A ele, seu coração
Não se preocupe, que a vontade sincera só cresce

Pois o amor não reconhece
Essa historia de "diminuir"

Beijocolates,
#V

segunda-feira, janeiro 19

Cor-de-dois

Dizem que o nome da cor não é igual ao da fruta - tem que fazer referência à fruta quando não é dela que a gente tá falando. É "cor-de-laranja", se a Laranja não estiver presente. Nada mais nesse mundo - nada além dos bagos suculentos e cheios de vitamina C -, teria o direito de tomar aquela tonalidade para si ou alegar que é mais sua que de qualquer outrem.
Pois bem. Naquela noite, a Lua foi ousada o suficiente.
Ninguém esperaria uma postura como essa vinda de um astro tão terno e conhecido, pois não era rotineiro tê-lo como ladrão - talvez roubasse do Sol um pouco mais que a quantia ofertada de brilho em ocasiões especiais, mas uma cor?
Apesar das evidências, porém, não sei se posso classificar o sequestro como um crime, porque a voz da contrariedade não se fez ouvir.
O mar respirava calmamente, tomando e devolvendo ondas; fazendo a água molhar a areia fina e já úmida da praia. Ele refletia a maravilha que acontecia sobre si, em meio ao breu noturno, e tudo mais refletia o delito fantástico: o mar, as nuvens, as estrelas, o sorriso dos dois e o calcário sob seus pés. Envoltos em um abraço, sentiam a cor invadi-los, vibrante e harmoniosa, enquanto espalhava-se por aquele céu nublado de dezembro.
A Lua estava baixa e volumosa. Calada, contemplava os olhares que a admiravam compassivamente. Ela tinha uma remota consciência da própria beleza, mas estava extasiada com cada abraço iluminado por uma cor própria... a cor-de-dois.

Beijocolates,
#V

segunda-feira, novembro 24

(Seus) Olhos

Os olhos me dizem mais, bem mais que qualquer boca poderia me dizer.
Os olhos me olham, envolvidos, embriagados, e a embriaguez é boa, porque me embriaga, também.
Estes olhos que amo fazem do olhar algo demasiadamente verdadeiro.
Os olhos são compenetrados, carinhosos e transbordantes.
Admiro muito esses olhos, até por me admirarem tanto.
Sinto, por esses olhos, mais do que pode ser expresso por palavras, então converto as funções de minha boca, e ela já não fala, mas beija.
O beijo é sincero, porque a boca é sincera e os olhos são sinceros.
Nunca antes fui capaz de ver tanta sinceridade em um par de olhos.
Nesses olhos, vejo meus próprios olhos, mas da forma que os olhos os veem.
E sorrio com os olhos.
Com os seus olhos.
É engraçado como podemos morrer com um olhar.
Me sinto morrendo aos poucos, mas morrendo de felicidade.
É algo curioso: sinto-me prestes a explodir.
Explodir em gioia.
Sinto explodir em um sorriso, mas não me contento com tão pouco.
Deixo vazar dos meus olhos sobre seus olhos, e me preencho com tudo.
Tudo o que posso sentir em seu olhar.

"Meu amor, juro por Deus que a luz dos olhos meus já não pode esperar; quero a luz dos olhos meus na luz dos olhos teus, sem mais la-ra-ra-ra..." - Vinícius de Moraes

Beijocolates,
#V

sábado, novembro 1

Madrugada

E, na madrugada, acontece.


A cidade dorme, não se ouve nada. Todos fazem silêncio em seu sono profundo, tudo o que se ouve é o quase sempre abafado som do vento fazendo caminho entre árvores e janelas.
O barulho se restringe à minha cabeça. Dentro dela, tudo são gritos. É ensurdecedor, mas só eu posso ficar surda com a gritaria. É a minha poluição sonora particular.
Me deixa inquieta.
Não consigo dormir.
Nem calar meus pensamentos.
Estou ansiosa pela fervorosidade dos murmúrios que tomam o meu corpo inteiro. Algo deve ser feito a respeito disso, ninguém pode ficar nervoso assim, consigo mesmo.
O imediatismo também me mantém acordada. Eu queria me levantar da cama, apanhar as chaves do carro e só parar de dirigir quando estivesse em frente à sua casa. Então, sentiria minha alma abandonar meu corpo, amedrontada por incertezas, e tocaria a campainha.
Eu adoraria pôr um fim nesse barulho. O mais rápido que pudesse. Quero que a gritaria cesse, porque me impede de falar. Me faz ficar ausente de mim mesma, e ninguém gosta de conversar com alguém ausente de si mesmo.
Eu preciso conversar com ele. Ouvir sua voz.
Sua voz fará parar todo esse tormento dentro de mim. E, se não for suficiente, quem sabe a aurora me traga um pouco de paz...


"A noite é muito longa e eu dou plantão dos meus problemas que eu quero esquecer" - Kid Abelha


beijocolates,
#V

sábado, outubro 18

Ei, garoto

Venha, converse um pouco comigo
Em que está pensando?
O que quer fazer?

Venha, admire o horizonte por algum tempo
Percebe as maravilhas que se estendem aos olhos?

Venha, respire...
Absorva todo o ar que couber em seus pulmões
Consegue sentir?
Seu coração pulsando, e o sangue passando pelas veias, pelas artérias, por todo o corpo, irrigando-o com vida - consegue sentir?

Venha, me dê a mão
É cedo para tomar decisões, mas há um mundo fantástico a ser desbravado...

Vamos, sorria...
Sua beleza transborda no seu sorriso
E me contempla com uma doçura viva
Sem sequer perceber

Ei, garoto, converse comigo
Em que está pensando?
O que quer fazer?

Beijocolates,
#V

domingo, outubro 12

Mentirinhas

Dizemos, com frequência que somos confiáveis - jamais mentiríamos, somos amantes da verdade! Mas e quanto às sagradas mentiras de cada dia? Essas mentiras rotineiras, das quais nem nos damos conta... Mentimos, e somos vítimas de mentiras - mentiras brancas, brandas, sem importância, tão bem guardadas dentro de cada um de nós, que nos custa perceber, enfim, que não é verdade.
GOSTO DE VOCÊ * SÓ NÃO FAZ O MEU ESTILO * FOI ÓTIMO * ESTOU BEM * ADOREI * VOCÊ ESTÁ CERTO * CLARO QUE NÃO * NÃO HÁ ARGUMENTOS CONTRA * É UMA IDEIA EXCELENTE * HAHAHA * ESTÁ MARAVILHOSO * NADA ME FARIA MAIS FELIZ * NÃO ERA PRA SER * EU SEMPRE SOUBE * ENTENDI * TAMBÉM NÃO GOSTO DELE * NÃO HÁ COM O QUE SE PREOCUPAR...
Dizem que somos fortes - somos, mesmo? Quando fingimos indiferença a algo que nos machuca, abstraímos as lágrimas prestes a transbordar de nossos olhos e sorrimos para o que vier pela frente, estamos sendo fortes ou exímios mentirosos?
Chorar é sinal de fraqueza?
Dizem que somos inteligentes - somos, mesmo? Quando passamos a noite em claro, revisando nervos, forames e sulcos, sem conseguir entender bem o que está impresso em esquemas bidimensionais, mas, ainda assim, memorizando cada termo científico, estamos exercitando nossa habilidade cognitiva de assimilar um novo conhecimento ou apenas fazendo de conta, por algumas horas, que entendemos do assunto?
Dizem que somos belos, mas sobre que critério devo ser feio ou bonito? Qual o padrão errado que me faz esconder meu próprio corpo, por vergonha de suas supostas imperfeições?
Dizem que somos divertidos, que somos felizes, que contagiamos todos com o nosso bom humor - e que direito temos nós de impor a alegria a alguém? Temos, ainda, o direito de recorrer àquela "fraqueza" e chorar copiosamente, até que toda a infelicidade largue minhas células e eu alcance a paz?
Por que preciso estar sempre sorrindo?
Mentimos todos os dias. Com gestos, palavras e movimentos falaciosos. Tensionamos o abdome, erguemos o queixo, sorrimos e esperamos que alguém se importe.
Por que é tão importante que alguém se importe?

"Todos usamos máscaras, e o tempo vem quando não conseguimos removê-las sem remover nossa pele junto." – Andre Berthiaume

Beijocolates,
#V

quinta-feira, outubro 2

Voto Útil

Em quem você quer votar?
Em quem você vai votar?
São duas perguntas distintas, com respostas, infelizmente, distintas para a maioria brasileira - pela pouca fé. É interessante como tudo funciona em um paradoxo de medos e receios: quero votar em um candidato cuja popularidade está escassa, então opto por um dos que mais investiram em campanha política, que por isso ganhou fama, ainda que não concorde com suas propostas. Faço isso porque penso que ninguém mais vai votar nele, e por isso o meu voto será inútil. E tantos outros que votariam, por pensar da mesma forma, fazem vista grossa para escândalos dos "maiores" candidatos.

Em quem você não quer votar?
Em quem você não vai votar?
São duas perguntas distintas, com respostas, infelizmente, distintas para a maioria brasileira - pela pouca coragem. Porque eu tenho medo de votar em quem eu quero, procuro, entre aqueles cujos discursos soam copiosamente, em grande frequência, um "menos pior" que me garanta que aquele candidato que me faz nojo pelas falsas promessas não será eleito. Mas ainda estarei votando em quem eu não queria votar, porque pensei que quem me representa não era "forte" o suficiente - e por que estou votando, afinal?

Neste domingo, cumpriremos nossa obrigação nas urnas - cumpriremos? Teremos, nós, coragem de assumir nossos ideais e pressionar o conjunto de números que combina com aquilo pelo que brigávamos nas ruas?

Vote, mas não vote nulo, nem vote "por votar". Exprima sua opinião. Lute. Tente. Faça a sua parte e, se seus medos concretizarem-se em um futuro nem tão distante, continu fazendo. Exercer a cidadania é dever de todos nós - e não é dever bienal, só em dia de eleição.
É nosso dever lutar por nossos direitos todos os dias.

beijocolates,
#V

quinta-feira, setembro 18

Querer alguém

este texto foi confeccionado sob efeito de sono
É comum querer um bom romance. Em algum ponto de nossas vidas, já quisemos, desesperadamente, sentir o calor dos dedos de um certo alguém em nossas mão. Sonhamos com o toque hesitante, com os sorrisos provocadores, com os segredos, com o mundo próprio do casal, que parece surgir em torno de um beijo apaixonado. Sonhamos, e sonhamos alto. Vemos, claramente, todas as vantagens de uma boa e amada companhia em uma tarde tediosa de domingo. Mas, se uma historia de amor pode ser tão boa assim...

POR QUE NÃO NAMORAR?
Por proposta de um professor, a turma teve de dialogar sobre os relacionamentos amorosos passados. Fui inquerida sobre o meu namoro e, finalmente, após cinco anos, me dei conta da razão de termos acabado: eu não gostava das obrigações. Me perguntaram, então, o que mudou desde então. Pensei, pensei... e descobri que não mudou muita coisa: continuo detestando a ideia de ter que falar com alguém todos os dias e ter que atender ao telefone todas as vezes que esse certo alguém ligar. O comprometimento não lhes parece tedioso?
Há desejos e necessidades que devemos suprir de alguma forma. Momentos e olhares que devemos compartilhar com alguém. Então a nossa cultura inovadora e ousada nos apresenta uma solução: o sexo casual. A modo amplo, condeno o envolvimento compulsivo com estranhos, mas que mal faz aprofundar uma velha amizade?
A amizade colorida faz sucesso aos sussurros. É secreta. Ninguém anuncia que andou prensando o melhor amigo contra a parede -  e por quê? Porque não há compromisso. Podemos dar atenção aos nossos apelos sexuais e nem precisamos falar por horas ao telefone sobre como foi o nosso dia. Mas será essa a resposta para todos os nossos desejos? Por algum tempo, é capaz que os beijos livres nos supram em todos os aspectos, mas, em algum ponto de nossas vidas, perceberemos que há algo mais. Enquanto indivíduos, temos apelos que transcendem o plano físico. Precisamos sentir o perfume que não é nosso no travesseiro com o qual dormimos e sorrir, memorando algum sorriso atraente e distinto que o dono daquele cheiro nos abriu. Podemos chamar de carência, mas não me apegarei a ela.
Me dou conta, hoje, que não me canso de falar com os meus amigos. Falo com eles todos os dias e sou capaz de passar horas conversando bobagens, ainda que esteja com sono ou mal humorada. Não me parece esforço algum atendê-los, e me recordo facilmente deles se ouço determinadas músicas ou como determinadas coisas. São meus amigos, e sinto prazer em fazer tudo aquilo que me custa tanto a fazer com um namorado. O compromisso é diferente? Só porque não beijo esses amigos aos finais de semana, a rotina tediosa é, de repente, empolgante?
Conhecemos bem a amizade com benefícios. Mas e os benefícios com a amizade?
Penso que, se conseguisse converter uma grande amizade em um namoro, seria maravilhoso. Teríamos liberdade para falar e fazer qualquer coisa, sem receio algum, e seria tão divertido quanto o relacionamento aberto sobre o qual falei, exceto, é claro, pela questão da abertura. Mas quantos anos nos demanda solidificar uma amizade assim? E por quantos de nossos amigos sentimos a tal da atração?
Muitos são os defensores da friendzone. Afinal, isso sequer existe? A amizade pode impedir, de alguma forma, a atração entre duas pessoas?
Muitas perguntas sem resposta, muitas respostas sem pergunta e muitas incertezas sobre certezas, mas uma clara ilusão de certeza: por enquanto, estou muito bem sem ter que segurar a mão de ninguém.

"One more fucking love song, I'll be sick" - Maroon 5

beijocolates,
#V

domingo, setembro 7

Algo

Balanço, balança, peso, cadeira, sofá.
Balance, balance, respire, suspire, acompanhe.
Hesite, sorria, hesite, respire, suspire, deixe chegar...

Questione, mostre, experimente, recuse e sorria.

Observe.

Observe o olhar fixo, turvo, dilatado, e condenado.
Tome uma dose de ar.

Certeza, dúvida, mas seu olhar está vidrado.
Um sorriso comedido, torto, sacana e amado.


Pesa e puxa, faz-se sentir.
Prenda, relaxe e solte o ar.
Prenda, segure, não deixe ir.

Não deixa ir embora, que ainda é cedo!
Embora, nessas horas loucas da vida, nunca seja tarde ou cedo demais para amar.

#V

sábado, julho 26

Ao desconhecido daquela vez

Andei pensando bastante em você e resolvi escrever uma carta, mas lembrei que não sei qual o número do seu prédio, nem onde fica o seu quarto, e fiquei triste pela lembrança, porque tudo é diferente desde você, mas não tem você no meu antes nem no meu depois, só no meu "aquela vez". Eu precisava lhe agradecer muito seria e sinceramente, porque você entrou naquele Rui Barbosa vazio e escolheu sentar ao meu lado. Preciso confessar que, bem antes que você me visse, eu vi você, e já senti as bochechas queimarem, pedindo a Deus que, por favor, te colocasse no mesmo banco que eu, apesar de, depois de uma espiada rápida, eu ter descoberto que só havia mais quatro pessoas ocupando o ônibus (sem contar, é claro, com o motorista e o cobrador). As esperanças eram tão vagas que eu quase desmaiei com a adrenalina que correu por minhas veias quando você sentou coladinho em mim. "Obrigada, Deus, mas... e o que eu faço agora?" Eu nunca na minha vida tinha puxado papo com gente desconhecida. Não assim, daquele jeito. Desejava bom dia a todos que encontrasse pela frente e não negava muitos favores a quem me pedisse, mas conversar, assim, sem aviso prévio? Durante aquele ano, minhas canetas Bic só duraram duas semanas, cada uma. Fiquei encarando a tinta azul na minha calça do uniforme, esperando que os desenhos e as frases fossem o suficiente pra você me achar legal, mas não conseguia parar de me mexer, revirando os cadernos, mexendo na minha mochila, nos cabelos, olhando pelas janelas... Fiquei observando seus gestos e suas atitudes, ainda fingindo não olhar. Você parecia tão ocupado quanto eu, revirando todo o conteúdo da bolsa-carteiro, folheando livros, consultando o relógio sem parar. Tem uma coisa estranha que acontece com a gente quando a gente quer falar. Um calorzinho frio que sobe pelo corpo e deixa a gente meio tonta, nervosa, sem saber bem o que vai sair da boca, mas com a certeza da necessidade que a gente tem de abrir a boca e deixar sair. Eu já tinha respirado fundo duas ou três vezes quando você revelou uma apostila de Alemão, e tenho certeza que você queria que eu visse que você a estava portando em mãos, porque sabia que você sabia que eu estava olhando para você quando demorou mais tempo que o necessário analisando a capa. Depois, passou uns 40s lendo uma página de exercícios totalmente aleatória, até eu me animar e perguntar se você estudava o idioma. A apostila foi desprezada tão depressa que eu até fiquei um pouco sem graça, porque o rumo da conversa mudou abruptamente para cursos de graduação. Eu estava esperando que você me ensinasse algo além do Saukerl que eu tinha aprendido recentemente com "A menina que roubava livros", mas acabei embarcando em uma discussão terrível sobre o meu futuro, e eu não queria falar mais sobre ele, mas você me fez falar. E disse que eu deveria cursar Medicina, para depois me especializar em Psiquiatria, como tantas pessoas antes me disseram que eu deveria fazer. Eu quase fiquei triste por essa sua atitude, mas deixei você falar, porque era incrível falar tanto com alguém que eu tinha conhecido no ônibus. Foi tão incrível que eu quase perdi o meu ponto, mas o encontrei a tempo, sorri, disse que tinha sido um prazer, e fiz tudo tão nervosa, porque não sabia se devia lhe beijar, ou abraçar, ou apertar a sua mão. Você ficou me olhando, meio sem jeito, e o tempo começou a parecer bem pegajoso depois que eu já estava de costas para você e a porta não abria. Foi quando eu saí, empolgadíssima, que eu me dei conta que não sabia seu nome. Nem você sabia o meu. Que mancada... Só que, depois daquela vez, resolvi falar mais. Sentar ao lado das pessoas, perguntar o que elas faziam para serem felizes, rir um pouco, descobrir maravilhas... Eu quase sempre esqueço de perguntar nomes, mas, às vezes, a pessoa com quem decidi partilhar um breve momento cotidiano lembra da cordialidade, sorri pra mim e descobre quem é Victoria. Há algumas pessoas realmente fantásticas por aí - outras, nem tanto -, mas queeia lhe agradecer por todos os "olá"s divertidos que já recebi. Não sei seu nome, não conheço a sua rua, mas sei quem foi você daquela vez, aquela que não teve passado, nem futuro - por enquanto. Quem sabe a gente se esbarra por aí! beijocolates, #V

terça-feira, julho 15

"explique a falta de meninas na minha vida"

Bem, eu não lhe conheço e nem espero que aceite o meu convite para o jantar, mas você vem se torturando com algumas perguntas cujas respostas você já tem. Não usarei a palavra "culpa" com você, porque sei que é um termo errado, negativo e desnecessário, principalmente se empregado em uma primeira conversa, mas vou ter que lhe dizer uma coisa: você procura um porquê, e não posso mentir, afirmando que desvendar causas é ato prazeroso.
Não sei quais são as suas intenções com todas essas meninas que faltam à sua vida, mas não posso lhe culpar se não teve coragem para dizer à amiga da sua prima quão nublado estava o dia - mulheres são caixinhas de surpresas, afinal.
Você gosta de surpresas?
Soube que você tem uma amiga. Talvez você tenha mais. Talvez não. Se você estiver procurando uma nova amiga, posso lhe dizer que é fácil encontrá-la. É possível que ela esteja lendo um livro interessante quando acontecer, e você vai poder perguntar a ela se vale a pena gastar seus olhos com letras tão miúdas. Caso seja só uma enciclopédia chata de Economia, vocês poderão rir sem ter que fingir que lamentam você ter interrompido a leitura. Conversem, mantenham o contato e lá estará: mais uma amiga para a coleção.
Se amigas não são problema e você as tem em número significativo, mas questiona a inexistência de uma namorada, eu peço que tome cuidado. É muito bom ter amigos, é verdade.
Uma namorada exige um pouco mais de dedicação... Preciso que preste atenção e tome cuidado, para não cometer os mesmos erros que eu. É bom ter amigos, mas que tipo de amigo é você? Porque, se é o amigo confidente que passa horas ao telefone com alguma amiga cujo relacionamento está em crise, começo a me preocupar com as causas que você estava procurando...
Sabe? Eu não acredito nessa coisa de "friendzone", acredito em atração. Se alguém atrair sua atenção, não importa se vocês se tornam amigos mais tarde ou não, aquele alguém continua sendo atraente a seus olhos - a menos, é claro, que a amizade revele defeitos e modos que não lhe agradam por nada. Desenvolver no outro um interesse por você pode até ser complicado, mas ser o conselheiro amoroso da pessoa em questão não anula qualquer obstáculo.
Enquanto você lê esse texto, milhares de garotas espalhadas pelo planeta reclamam da falta de garotos em suas vidas. Você acha que eles realmente estão em falta? Se existem tantas meninas procurando meninos e tantos meninos procurando meninas, por que eles não conseguem se encontrar?
Olhe bem para mim: nos conhecemos? Posso parecer familiar, não já nos vimos antes?
Saia de casa. Passeie pelo parque, conte quantas garotas cruzam seu caminho e, quando entrar em casa, me dê o número. Dez? Mais? Com quantas você falou?
Não culpe as estrelas, não culpe os planos de Deus, não culpe o destino, não se culpe - não há culpa. Mas há responsabilidade. Não há sentido em lamentar-se da cegueira, quando é opção sua não enxergar. Experimente abrir um dos olhos e, se gostar do que vê, experimente abrir os dois. Deseje bom dia para a próxima garota em quem esbarrar, sorria para uma outra que espere tediosamente sua vez de ser atendida, pergunte que horas são à que está olhando distraída pela janela do ônibus e pergunte àquela do livro chato de Economia se ela quer tomar um sorvete. Por que não? Se permita ver, observe as cores, sinta o sol incomodar, imagine outras paisagens e, quando quiser a fechar os olhos, se permita repousá-los. Lhe peço, apenas, que não tenha medo de voltar a abri-los.

"Só sei que, mesmo quando o destino precisa se cumprir, ele não pode fazer isso sozinho." - Ironias do Amor

Beijocolates,
#V

domingo, junho 29

Você(s)

Eu não tenho um remetente específico, então resolvi falar com você. Você talvez não seja exatamente o culpado, mas deve ter culpa por alguma coisa, ou eu não estaria falando com você. Eu nem sei por onde começar, porque você, apesar de não ter feito nada, fez muitas coisas... Tem muita coisa engasgada, sabe? E acho que eu preciso colocar pra fora, porque nem sempre o que a gente põe na boca dá pra engolir.
Você devia parar de sair com ela, porque eu nem gosto dela nem gosto de você com ela, e, se eu souber que você está com ela, quando me disse que não estaria com ela, eu vou ficar realmente chateada, mais chateada do que eu já estou. Estou chateada porque você ficou chateado por ela ter ficado chateada e ter dito que você a estava usando, porque acho que eu fui usada também. E ser usada não é bem a minha praia.
Ser usada não é a praia de ninguém. Eu sei que não era a sua intenção (nunca é, afinal), mas, nessa brincadeira, você acabou magoando muita gente... Lembra da desengonçada? Fico me perguntando se ela superou o seu namoro ou se ainda chora escondida pelos parques... Certo, me desculpe. Prometi que iria lhe perdoar, e cá estou eu, falando de seus erros.
Mas você tinha mesmo que fazer aquele drama todo por mensagens indiretas?
Eu não sei o que você quer, e, na maior parte do tempo, isso é bem desagradável pra mim. Eu tento, juro que tento, mas não consigo fazer mais sem uma bola de cristal ou um tarô de qualidade. As conversas rebabadas que você mantém me deixam desesperada, sem saber ao certo o que fazer. Devo continuar, ou pedir que pare? Me perdoe por ter pedido para parar, mas tanta gente para sem declarar que parou, que eu parei de esperar a parada parar por si própria, entende? Como quando você me deixou falando sozinha depois de ter chorado saudades no meu ouvido. Isso não é justo: me fazer sentir culpada. Eu não posso ser a culpada, porque a culpa me destruiria.
Assim como ela lhe destruiu... Eu vi você chorando, e fingi que estava tudo bem, mas, quando voltei correndo para casa, comecei a chorar, também, porque eu sabia que suas lágrimas eram por mim. Se você não queria ter corrompido aquele segredo, deveria ter sido um pouco mais cauteloso. Também fiquei preocupada quando lhe vi chorar tantas vezes e tão frequentemente, mas não tive vontade de chorar, porque eu sabia que aquelas lágrimas não eram para mim. Talvez tudo fosse melhor se você deixasse que eu visse as suas lágrimas, e, se me fizesse entender a razão do choro, eu poderia enxugá-las, e você não seria mais julgado como é, nem ficaria tão chateado quando descobrisse que estava sendo julgado.
Eu adoraria abraçar você, mas tenho medo dos destinos que um abraço pode ter. Eu tenho medo de pensar demais sobre abraços, ou sobre beijos, mas nada me amedontra tanto quanto pensar sobre os seus abraços. Você não deveria ter estragado o meu momento mágico, e você estragou. Eu também estraguei, porque participei do momento errado, mas isso não justifica nada, porque você só estava triste por ela pensar que você a usa - e ela está certa -, mas não me deixou ver a sua vontade de chorar.
Seria mais fácil ter dito a verdade, não acha?
Estou preocupada com você, porque você quer casar com ela, mas ela não passa um dia sem chorar ou beber alguma coisa. Ela é uma pessoa complicada, não é culpa sua. A culpa só é sua se você admitir que a está usando. Então pare de usar. Deixe ela passar, se não gostar de você, e encontre a pessoa que gaste horas de sono pensando em você. Ame-se a si próprio, com todas as redundâncias possíveis, e sorria para a possibilidade de tê-la, ter essa garota especial, a do primeiro beijo, por perto.
Estou torcendo para a sua namorada não passar um xaveco na minha melhor amiga uma segunda vez.
Você não existe, mas seria engraçado se existisse. Porque, com tantos remendos alheios, acabaria transformando-se em um buraco negro. Ver pessoas transformarem-se em buracos negros não deve ser particularmente engraçado, principalmente se estivermos a pouca distância quando tudo for engolido. Agora, chega, preciso ir. Espero que você sonhe comigo, ou que eu não perturbe seu sono. Tendo a certeza de um pesadelo com você, desejo apenas que nossa noite seja doce, como eram aqueles abraços gelados de novembro...

"To ask you this much is just a matter of trust, not an affront: what do you want?" - Gotye

Beijocolates,
#V

sexta-feira, junho 13

Coisa

À medida que revelo a boa coisa, o bom da coisa se esvai.
Não sei se penso na coisa, para por energia na coisa, ou se finjo esquecer a coisa, para me surpreender se a coisa acontecer ou me mostrar indiferente ao fracasso da coisa.
Eu queria que a coisa fosse um sucesso, mas não estaria pronta se a coisa não o fosse.
Vivo pensando em não pensar na coisa, desde que a coisa aconteceu.
Será que você também pensa na coisa?
Uma certeza sobre a coisa: a coisa é a coisa e jamais poderá ser uma não-coisa.
Uma incerteza sobre a coisa: a coisa existe?
Revejo a coisa muitas vezes, mas cada vez é uma coisa diferente - às vezes a coisa é fantástica, às vezes a coisa é ordinária e irrelevante.
Eu só saberei se a coisa existe quando a coisa acontecer de novo, e eu não vou querer contar a ninguém, porque, à medida que revelo a boa coisa, o bom da coisa se esvai, e eu tenho medo que a coisa se esvaia junto.
A coisa primeiramente foi muito divertida, mas só será a verdadeira boa coisa se você também estiver pensando nela nesta sexta-feira.
Eu estou tentando não pensar na coisa, mas a coisa é mágica; a magia não se desapega da coisa e eu não me desapego da magia.
Não querer pensar na coisa é como não querer dormir afim de não sonhar. Só que não precisamos estar dormindo para sonhar, então a prevenção é inútil.
O tamanho da coisa é relativo à sua importância: para alguns, a coisa pode ser minúscula, mas, para mim, que vi a coisa inteira, é razoavelmente grande.
Você acha a coisa minúscula?
A relatividade da coisa só vai acabar quando eu souber o que você acha da coisa, e então você vai sorrir ou fazer uma careta, e eu vou saber o que você tem a dizer sobre a coisa.
Talvez demore para a coisa reprisar. e, enquanto a coisa não acontece, eu tento não pensar - afinal, já pensei demais na coisa: fiz um texto sobre ela.

"Coisas que a gente nem pensa, que são tão imensas, são a parte de nós dois." - Sal Da Vinci

beijocolates,

#V

quinta-feira, março 13

Praxe

Pensei que pudesse passar o resto de minha vida sem ele. Descobri, angustiada, que não posso esquecê-lo: o amei.

O amor é um tanto desgraçado: me fez feridas, me viu chorar e me chamou à atenção quando quase me distraí. Eu queria estar distraída. Mas o amor retificou sua existência dentro de mim, desmerecendo todas as minhas vontades.

Não se engane, remetendo meu amor à paixão que tem em mente: é amor-amor, o que eu sinto. Se não fosse amor, eu me teria distraído, mas não pude, você sabe, esta parte já lhe contei.

O amor é eterno e incondicional. A ele, não importa se o amante está machucado, seguirá firme, forte e voluptuoso. Também faz-se de cego para as imprudências cometidas pelo amado, perdoando-o a qualquer custo. O amor é, por isso, um tanto estúpido.

O amor é inevitável, incontrolável e irremediável: uma vez feito o amor, está feito. O amor nunca assistiu a "Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças", mas teria abominado a hipótese do filme. Ele não nos deixa esquecer de ninguém que nos tenha provocado ternura.

Eu já conversei muitas vezes com o amor, mas ainda não o entendo muito bem. Talvez, para poder entender o amor, eu precise estar pura de toda a minha vida e voltar a ser um bebê. Os bebês não sabem o que Sócrates pensava sobre o amor, e talvez por isso já amem como se deve amar e sejam, por essência, amor. Pena que não saibam falar - embora, se soubessem, talvez, já não fossem puramente amor.

Quis não me importar, mas descobri que me importo, sim, com o amado. O amado, por vezes, se mostrou tão estúpido e desgraçado quanto o amor, mas, assim como amo o amor, percebi que o amo também.

Há amados, como esse meu amado, que assemelham-se bastante àqueles lindos pesos de papel. Não fazem nada, não têm lugar definido, não são muito úteis, mas, ainda que não usemos pilhas de papéis, o mantemos por perto, ainda que perdidos dentro de alguma das caixas que só tornaremos a abrir daqui a alguns anos, e fazemos isso por amor.

Se amar fosse tão bom para quem ama, ser um amante em boca popular não seria motivo de julgamento.

Amar não é fácil: dói, e dói muito. A dor do amor, porém, também faz crescer o amor. A saudade, a nostalgia, a preocupação com o outro: amor. Amor que acresce a si e à alma.

O amor não é mau por inteiro, não me entenda mal. O amor é um sujeito complicado e conviver com ele, às vezes, pode ser bastante cansativo, é verdade. O amor dá mancadas, erra, e deixa tudo por isso mesmo.

O amor parece uma criança - e até porta-se como uma. Toda criança precisa de atenção e cuidado, toma o nosso tempo, nos deixa estressados, rala os joelhos, pede uma sobremesa, chora, fala e faz muito sem pensar em possíveis consequências e toma um grande espaço em nossa vida. Mas basta um único sorriso, e já esquecemos de cada penitência. E esquecemos porque cumprimos a primeira necessidade de uma criança: lhe demos amor.


"A partir desta data,
Aquela mágoa sem remédio
É considerada nula
E sobre ela, silêncio perpétuo."
- Paulo Leminsk


beijocolates,
#V