Essa historia é de longa data, antiga, de uma época na qual confiávamos em estranhos bem intencionados e as críticas machistas à moral feminina se dissipava, mas ainda era sensível.
QUEBRE A EXCEÇÃO
(Pedro e Alice - nomes meramente ilustrativos)
O dia estava morno e agradável; a brisa, suave, arrastava consigo o queimor dos raios solares, brilhantes e cegos. Tudo exalava um aroma adocicado, como quando se retiram biscoitos do forno. Cães passeavam, junto a seus donos, satisfeitos com a caminhada, enquanto atletas praticavam cooper na pista paralela. O parque estava repleto de famílias sorridentes, estendendo toalhas sobre a grama verde, bem cuidada, para um bom piquinique.
"Vamos, Clara, você consegue!" Estimulou Alice, rindo da adolescente que se desdobrava para rebater a bola. Estavam jogando frescobol, gargalhando das habilidades precárias e comuns às duas, quando um homem aproximou-se, em uma moto, tímido.
"Com licença, você gostaria de dar uma volta comigo?" Perguntou, inocente, esperando por uma resposta - e que fosse de seu agrado. Alice virou-se para a outra, duvidosa, e voltou o olhar para o desconhecido à frente.
"Qual seu nome?" Indagou, curiosa, ao homem de vestes quadriculadas e óculos de armação grossa. Teria, no máximo, 36 anos, não muito mais que ela, e portava um sorriso encantador.
Ele estendeu a mão direita, a fim de cumprimentá-la, e fez uma reverência atípica, engraçada, ao responder: "Pedro é o nome pelo qual atendo." O ar irônico não lhe abandonava os olhos negros, nem um instante sequer.
"Alice é o nome dela" clamou Clara, fazendo a companheira corar pelo objetivismo, e encolheu os ombros quando percebeu a repreensão muda da morena alta, embora de menor estatura que a primeira. Pedro fitava-a, empertigado com o mistério que aparentemente cercava o rosto juvenil dela.
Alice, enfim, sentou no assento da motocicleta e agasalhou as mãos frágeis, macias, nos bolsos da jaqueta de seu recém-apresentado, que, por uma fração de segundo, esqueceu-se de como girar a chave na ignição.
O motor rugiu e o vento começou a bagunçar os cabelos caramelo de Alice, graciosos, como a tal. Rodaram pela grande cidade, sem trocar palavras em meio ao som dos carros passando ao lado, zunindo à resistência física do ar. Quando voltaram ao parque, Clara lia, sossegada, com as costas apoiada em um tronco de árvore. Ela ergueu os olhos na direção dos dois e sorriu, feliz, as madeixas escuras e encaracoladas derramando-se por suas costas.
"Nós podíamos tomar um café" ele sugeriu à mais velha. Alice analisou-o com o sorriso costumeiro e assentiu, ditando-lhe onde poderiam encontrar-se às cinco da tarde. Despediram-se e ela abraçou Clara, satisfeita.
Encontraram-se seis horas mais tarde, em uma cafeteria próxima à casa onde vivia Alice.
"Sua irmã me pareceu bastante simpática" comentava Pedro, bebericando a xícara fumegante de café torrado. Notando a inquietação de sua acompanhante, tomou uma expressão preocupada para si. "O que há, Alice?" Ela soltou o ar de forma pesada e inclinou-se um pouco mais à mesa, hesitante.
"Ouça, Pedro, não sei por que lhe contarei isso, mas peço que não me julgue, está bem?" Ele consentiu, esperando que continuasse. "Clara é minha filha, não minha irmã mais nova. Fui mãe antes da hora e me divorciei, mas..." O homem parecia abatido com a notícia, quase chocado. Endireitou-se na cadeira e remodelou o rosto, com ânimo.
"É uma ótima filha" ele corrigiu, e o sorriso em seus lábios fez sorrir também Alice, em paz memorável.
***
Se foi fácil? Não foi nada fácil. Naquela época, era impura a mulher divorciada, e as críticas da família de Pedro, além da pressão de todos mais, quase os fez desistir - quase. Lutaram como lutam idealistas: contra o mundo, mas conseguiram. Por carinho indubtável, Clara chama de pai o pai de seu irmão mais novo, Lucas, e de tal forma Pedro adentrou a família que não mais se imagina como seria sem ele. O casamento de Alice e Pedro dura até hoje, estão nas bodas de pérola e seguirão às de vinho, se a vida os deixar. O amor brota em novidade a cada dia, e a paixão que parecia frágil e condicional, hoje, a mim, é referencial de persistência.
Não desista nos primeiros obstáculos, vale a pena.
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domingo, outubro 14
Teste 067
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segunda-feira, setembro 10
Teste 065
TIMIDEZ DESFERIDA
(Beatriz e Gustavo - nomes meramente ilustrativos)Era a primeira vez que aquilo acontecia.
O grande grupo de universitários enfim dispunha de todos os integrantes solteiros; tinham que comemorar. A prima de Victor, um dos estudants de engenharia, finalmente superara o fim dramático de seu último namoro, e foi convidada à festa sem qualquer hesitação. As luzes agitavam-se, misturadas aos corpos dançantes espalhados no grande salão; a música era ensurdecedora. Quando Beatriz chegou à danceteria, estava decidida a, no máximo, trocar alguns beijos frios - "Ou nem mesmo isso", pensou ela, distraída. Encontrou Victor no bar e foi conduzida até o grupo de amigos, trocando sorrisos desajeitados que mencionavam o prazer que tinham em conhecerem-se.
Beatriz já havia dispensado uma dúzia de pretendentes quando um homem alto se aproximou, alegre, com uma pequena garrafa de cerveja em cada mão. Ele a chamou e ela o encarou, atordoada. Podia jurar que nunca o vira antes, mas ele lhe tratava como íntimo. Pediu para que segurasse ambas as garrafas por algum momento e alargou um sorriso bonito.
"Gustavo" anunciou, cortês. Beatriz observou-o atentamente, sentindo o suor gelado do vidro em suas mãos. "Não fomos devidamente apresentados, mas faço parte daquilo ali" meneou a cabeça em direção ao grupo tumultuado no qual Victor se encontrava. Ela revirou os olhos, entoando um discurso sobre não estar interessada, mas não foi capaz de dar continuidade; ele tapou-lhe a boca. Se o mundo fosse como nos desenhos animados, Beatriz estaria vermelha e com uma veia estourando na testa, mas estava apenas com uma expressão desagradável: não o suportava!
As horas passaram e Beatriz corou ao se dar conta de que se divertia. Victor lhe chamou em um código genérico e familiar, ela lançou um último olhar para o novo amigo e lá se foi: era hora de voltar para casa. Enquanto ela dormia tranquilamente em sua cama alcochoada, desconhecia a realidade de quem conhecera mais cedo. Exausto, empriagado, mas empertigado. Adormeceu no sofá, mesmo, com as roupas com as quais chegara, e os dois esperaram, inconscientemente, que a manhã chegasse.
Um bipe despertou Beatriz de seus sonhos confusos e ela tateou, desajeitadamente, a cômoda, à procura do celular. O visor indicava que o número era desconhecido. Franziu o cenho e atendeu, preguiçosa. "Quem é?" resmungou, trôpega.
"Beatriz, é Gustavo, lembra-se de mim?" Ela acordou por completo ao ouvir a voz rouca do outro lado da linha; sabia que não lhe tinha dado qualquer meio para que voltassem a se falar, mas... "Será que você poderia me encontrar na sorveteria? Te encontro lá em uma hora, exatamente" e desligou. Beatriz fitou o telefone, desconcertada, sem saber bem o que fazer em seguida. Simultaneamente, Gustavo passeava pela casa apressado, arrumando-se; estava uma pilha de nervos.
***
Beatriz e Gustavo namoraram por sete anos e jamais se cansaram. Os amigos de Gustavo até hoje riem por Beatriz tê-lo apaixonado na primeira oportunidade que tiveram de assumirem-se todos descompromissados. Beatriz descobriu que Gustavo era um homem bastante tímido e que algo como puxar uma conversa com uma estranha não lhe seria possível nem mesmo depois de porre pesado; o destino sempre acaba dando o seu jeito de fazer as coisas acontecerem. Casaram-se há quatro anos e estão juntos há onze, mas ela ainda insiste em recebê-lo decentemente todas as noites, devidamente perfumada e doce. Os anticoncepcionais já foram abolidos da vida do casal e estão nos preparativos finais para a chegada de um filho.
Estão radiantes com a companhia um do outro.
Beijocolates,
#V
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