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terça-feira, julho 15

"explique a falta de meninas na minha vida"

Bem, eu não lhe conheço e nem espero que aceite o meu convite para o jantar, mas você vem se torturando com algumas perguntas cujas respostas você já tem. Não usarei a palavra "culpa" com você, porque sei que é um termo errado, negativo e desnecessário, principalmente se empregado em uma primeira conversa, mas vou ter que lhe dizer uma coisa: você procura um porquê, e não posso mentir, afirmando que desvendar causas é ato prazeroso.
Não sei quais são as suas intenções com todas essas meninas que faltam à sua vida, mas não posso lhe culpar se não teve coragem para dizer à amiga da sua prima quão nublado estava o dia - mulheres são caixinhas de surpresas, afinal.
Você gosta de surpresas?
Soube que você tem uma amiga. Talvez você tenha mais. Talvez não. Se você estiver procurando uma nova amiga, posso lhe dizer que é fácil encontrá-la. É possível que ela esteja lendo um livro interessante quando acontecer, e você vai poder perguntar a ela se vale a pena gastar seus olhos com letras tão miúdas. Caso seja só uma enciclopédia chata de Economia, vocês poderão rir sem ter que fingir que lamentam você ter interrompido a leitura. Conversem, mantenham o contato e lá estará: mais uma amiga para a coleção.
Se amigas não são problema e você as tem em número significativo, mas questiona a inexistência de uma namorada, eu peço que tome cuidado. É muito bom ter amigos, é verdade.
Uma namorada exige um pouco mais de dedicação... Preciso que preste atenção e tome cuidado, para não cometer os mesmos erros que eu. É bom ter amigos, mas que tipo de amigo é você? Porque, se é o amigo confidente que passa horas ao telefone com alguma amiga cujo relacionamento está em crise, começo a me preocupar com as causas que você estava procurando...
Sabe? Eu não acredito nessa coisa de "friendzone", acredito em atração. Se alguém atrair sua atenção, não importa se vocês se tornam amigos mais tarde ou não, aquele alguém continua sendo atraente a seus olhos - a menos, é claro, que a amizade revele defeitos e modos que não lhe agradam por nada. Desenvolver no outro um interesse por você pode até ser complicado, mas ser o conselheiro amoroso da pessoa em questão não anula qualquer obstáculo.
Enquanto você lê esse texto, milhares de garotas espalhadas pelo planeta reclamam da falta de garotos em suas vidas. Você acha que eles realmente estão em falta? Se existem tantas meninas procurando meninos e tantos meninos procurando meninas, por que eles não conseguem se encontrar?
Olhe bem para mim: nos conhecemos? Posso parecer familiar, não já nos vimos antes?
Saia de casa. Passeie pelo parque, conte quantas garotas cruzam seu caminho e, quando entrar em casa, me dê o número. Dez? Mais? Com quantas você falou?
Não culpe as estrelas, não culpe os planos de Deus, não culpe o destino, não se culpe - não há culpa. Mas há responsabilidade. Não há sentido em lamentar-se da cegueira, quando é opção sua não enxergar. Experimente abrir um dos olhos e, se gostar do que vê, experimente abrir os dois. Deseje bom dia para a próxima garota em quem esbarrar, sorria para uma outra que espere tediosamente sua vez de ser atendida, pergunte que horas são à que está olhando distraída pela janela do ônibus e pergunte àquela do livro chato de Economia se ela quer tomar um sorvete. Por que não? Se permita ver, observe as cores, sinta o sol incomodar, imagine outras paisagens e, quando quiser a fechar os olhos, se permita repousá-los. Lhe peço, apenas, que não tenha medo de voltar a abri-los.

"Só sei que, mesmo quando o destino precisa se cumprir, ele não pode fazer isso sozinho." - Ironias do Amor

Beijocolates,
#V

terça-feira, fevereiro 4

Três Pontos

Gostosa mergulhou os pés na piscina aquecida e surpreendeu-se com a memória distante que voltou a lhe perturbar: o calor de dois corpos na água gelada, o beijo intercalado pelo bater de dentes. Suspirou, pensativa, e voltou a atenção aos amigos dispostos pelo gramado.
O coração de Desengonçada vagava por uma cena similar, de natureza igualmente sigilosa. Pousou os olhos sobre Babaca e deixou-se abater por arrepios que eriçavam os pelos de sua nuca. Os risos extravagantes chamaram-na para a realidade, por mais que desejasse ainda vagar por seus segredos.
Um sorriso tímido formou-se no rosto de Gostosa, delineando a distração prazerosa que tomava seus devaneios. Encontrou um brilho conhecido nos olhos de Desengonçada, mas evitou encarar o ponto em que eles estavam fixados.
Babaca ergueu-se, sem sequer pedir licença, e afastou-se dramaticamente do pequeno grupo. Desengonçada remexeu-se, incomodada; "Deixe ir." Gostosa engoliu em seco, propositadamente indiferente, sem anular a confusão aparente de Desengonçada. Esperou pouquíssimos minutos antes de declarar procura e lamentou a companhia de Desengonçada.
Babaca era bastante esquisito - sempre foi e, provavelmente, sempre seria. De repente, tinha o saco cheio com toda aquela felicidade que não lhe pertencia. Observava o pouco movimento do breu noturno quando uma voz doce, falha e aguda o interrompeu: "Não seja um esquisitão!"
Não era o timbre correto, pois ele sequer titubeou sobre os pés. Permaneceu imóvel, encarando lamparinas distantes no céu - adorava contemplar estrelas. Só depois de muito esforço em vão, Desengonçada calou-se.
Gostosa aproximou-se vagarosamente, sem jamais balbuciar qualquer coisa. Lembrou-se de um determinado momento que seguiu uma confissão de sonhos comuns, e sentiu as mãos masculinas sobre as suas.
Um mal estar tomou o corpo de Desengonçada enquanto acompanhava a imobilidade dos dois. Por que Babaca não lhe dava uma chance, depois de tudo o que já haviam vivido juntos, depois de tudo aquilo?
"Vamos sair, está frio aqui" - o maxilar de Gostosa estava travado.
"Não quero sair, quero ficar com você."
Os pensamentos de Babaca estavam embaralhados. Ele sentiu Desengonçada ausentar-se sem pronunciar palavra e assim permanecia ainda. Não estava orgulhoso de suas ações passadas. Deixou os braços caírem ao lado do tronco ao fim do enlace de Gostosa, sem se incomodar muito com qualquer coisa. Enamorado dos vestígios de luz morta inertes dispostos ao léu pela infinitude do universo, admirava a pouca relevância de todos os problemas que os cercavam.
As maçãs faciais de Gostosa tornaram-se rubras ao recordar um desastroso beijo final - ah, se soubéssemos quão importantes eram os últimos feitos...
"Tudo bem?" Gostosa enfim rompeu o silêncio.
Desengonçada não entendia o que falavam, mas a abertura que Babaca dava à outra a escandalizava. Era a ela, e não a Gostosa, que ele devia revelar seus pesares. Moveu-se com cautela, temendo que a descobrissem, e esperou testemunhar o que viria.
Veio. Machucou mais do que Desengonçada previra. Recuou, escondendo lágrimas entre arbustos, e preparou-se para retornar ao gramado. "Ela o alcança sem esforço..."
Gostosa retribuiu o toque de lábios. O amara tão desesperadamente... e não mais. As bocas clamavam calmaria em meio à tempestade. "Não mais, não mais." A percepção daquele olhar a assaltava constantemente, a incomodava. Desmanchou o beijo; precisavam voltar.
Gargalhadas atraíram a atenção de Desengonçada ao casal que dirigia-se a ela e não pôde aguentar mais um segundo sequer. Levantou-se de imediato e esperou a umidade surgir em sua face.
O conforto não saudou Gostosa. Sentia o erro gritar dentro de si, mártir. Quão distantes estavam as estrelas de suas mãos? Por que não as podia tocar? Aquele que mais amava saiu de seu campo de visão, seguindo aquela que ele amava. Estavam todos preocupados com Desengonçada, e o bom humor de Babaca esvaíra-se - o que tinha feito, depois de tudo aquilo?
Gostosa mergulhou os pés na piscina aquecida e surpreendeu-se com a epifania sobre ela própria. Dedilhou a água e acarinhou seu ego, desprendendo-se do tempo de então. Viajava por súplicas de amor, traições reveladas e abraços reconfortantes. Imaginou como seria agradável ser abraçada e contentou-se pela inexistência de braços dispostos a tal. Em uma historia em que o amor da desengonçada pelo babaca não é correspondido, a culpa não é dele ou dos hábitos pouco atraentes dela, mas da gostosa que não deixa de mais facilmente conquistar o babaca.
Os soluços de lástima ecoavam em algum lugar. Gostosa só podia ouvir a própria respiração e sentir o afago de seus sonhos.

"Claro, ela tem tudo aquilo, mas é isso mesmo que você quer?" - Adele

Beijocolates,
#V

sexta-feira, agosto 30

Teste 093

"Às vezes você conhece uma pessoa maravilhosa, mas apenas por um rápido instante. Talvez em férias, num trem ou até numa fila de ônibus. E essa pessoa toca sua vida por um instante mas de uma maneira especial. E, em vez de lamentar o fato de ela não poder ficar com você por mais tempo ou por você não ter a oportunidade de conhecê-la melhor, não é mais sensato ficar satisfeito por ter chegado a conhecê-la um dia?" - Marian Keyes

A DITADURA DA RAZÃO

Um calor que se estende por todo o corpo - o rosto parece estar em chamas. Hesitamos e nos pomos a ponderar: faço? não faço? e sequer ousamos dar um primeiro ou segundo passo.
Não entendo por que temos tanto medo dos outros.
É um tanto difícil enxergar que somos todos iguais. Quero dizer: eu penso, discuto, temo, imagino, sonho e tenho meus motivos para tudo isso, mas só conheço o superficial do que é alheio a meus dilemas pessoais. O rosto visto sem uso de espelho é vago - as atitudes, os modos de ser, são pouco conhecidos por nós. Funcionamos de modo particular, e entendemos nosso próprio mecanismo, mas o outro? O outro nos é desconhecido. Cada um tem seus sonhos e razões, medos e dilemas - e precisa de compreensão. Uma era de individualismo exacerbado talvez nos cegue um pouco a isso tudo - o que é uma pena, pois, enquanto seres sociais e mutantes, precisamos do contato com o outro, principalmente com aqueles que não pensam como nós. Nos apegamos muito ao comodismo, aos mesmos amigos de sempre, às pessoas que não ofendem nossos princípios - mas o que demais há nisso? É muito fácil ouvir e curtir as mesmas músicas que nosso círculo, mas crescemos tão mais ao provar do desconhecido e prejulgado!
Temos muito receio em falar com estranhos, e por estranho me refiro àquela pessoa que está sozinha, com o olhar perdido, provavelmente tão desconfortável quanto nós estaríamos em sua situação. É um qualquer, como qualquer um de nós - e não nos arriscamos por quê?
Humanos não mordem, geralmente.
Ei, racionalismo, dá um tempo! Se a gente perder tempo por medo, o momento passa e, quando a coragem vem, já é tarde demais. Deixa... acontecer.

IMPULSÃO À FELICIDADE

É muito mais divertido agir imprudentemente, sem calcular o que falar, sem esperar o nervosismo passar.
Qualquer assunto é assunto - jamais haverá "nada" a ser dito, pois mesmo o nada pode ser discutido. As pessoas são seres pensantes e incríveis. Experimente falar com aquela com quem sempre quis conversar e entenderá o que estou falando: o primeiro contato é excitante, o momento de descoberta. Todos têm um potencial verdadeiramente extraordinário.
Engaje em uma conversa que dure dois minutos ou duas horas e já estará mais rico em espírito. Sempre nos surpreendemos com o encontro de mundos particulares -  e como não? Entre tantos indivíduos que passam por nossas vidas com a riqueza de um "bom dia", haverão também aqueles que farão culminar um aceno breve em relação firme, seja ela de qual gênero for.
Se abra ao impulso, ao desejo primário de se comunicar verbalmente, e verá quão bom, libertador e construtivo poderá ser algo que começou com um simples "olá". A imprudência, em medida certa, nos encaminha ao que nos é, factualmente, agradável.
7,2 bilhões de pessoas ocupam o planeta Terra; são 7,2 bilhões de mundos a serem explorados. É provável que nunca consigamos investigar um a um, mas por que não tentar? 

Beijocolates,
#V