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segunda-feira, julho 4

duas mãos


para cada mão, há uma mão
e duas mãos ficam sozinhas

as duas mãos são minhas
mas minhas as mãos não são

a mão acaricia a minha mão
minha mão acaricia a mão

as mãos tocam
as mãos são tocadas

o toque, sinto-o por inteiro

são minhas mãos
são minhas próprias mãos

o toque das mãos é inexistente
as mãos não se tocam
são mãos carentes

seria a mão que toca suficiente?
e a mão que é tocada, como se sente?

as mãos se tocam.
"são minhas mãos"
mas nenhuma delas me pertence
#V

quinta-feira, setembro 11

Tiramisù!

São momentos raros, mas são momentos desesperadores, estes em que sentimos a própria fraqueza nos sufocar. Os músculos não se movem, e o ar custa a entrar. Ficamos imóveis, incapazes de enxugar as lágrimas que escorrem, amargas, pelo rosto. Nos sentimos tão frágeis e indefesos, que a ideia de obter qualquer solução ao problema parece ridícula.
Precisamos de ajuda. Mas que tipo de ajuda?
Meu quarto está bagunçado. Deixei a roupa do balé jogada por cima da cama, onde já estavam a caixa dos meus mocassins novos, as calças jeans que usei mais cedo, os comprovantes de matrícula do curso de Inglês e a papelada das vacinas que andei tomando. Só me dei conta agora de que as visitas viram as minhas calcinhas penduradas pelo banheiro, e sei que, dentro de dois dias, não caberá mais nada na escrivaninha. Quando a bagunça realmente me atrapalhar, vou prestar atenção nela e começar a desfazê-la. Vou tirar um dia para organizar o meu quarto, embora saiba que levarei apenas uma ou duas semanas para me deparar mais uma vez com a desordem. É curioso que só consigamos resolver nossos problemas quando alcançam um grande grau de complexidade, e, do mesmo modo, parece que precisamos chegar ao fundo do poço para conseguir nos reerguer.
Muitos se orgulham por serem "lobos solitários". Dizem, com um sorriso no rosto, que não precisam de conforto, porque podem consolar a si mesmos. Sendo eles seres humanos, animais naturalmente codependentes, não poderiam estar mais enganados. É importante que choremos tudo o que temos para chorar, ainda que fiquemos desidratados e com dor de cabeça. Podemos chorar sozinhos - e choramos. Mas jamais seremos capazes de avaliar e compreender uma situação na qual estamos tão imersos, não sem companhia.
Quando admitimos a nossa vulnerabilidade para alguém, sentimos o rosto queimar de dentro para fora; nossos olhos umedecem, nos chega um pouco de vertigem e podemos sentir os batimentos cardíacos em nossas orelhas. Parecem sintomas familiares? "A vergonha é, por natureza, reconhecimento. Reconheço que sou como o outro me vê... Assim, a vergonha é vergonha de si mesmo diante do outro: essas duas estruturas são inseparáveis. Porém, ao mesmo tempo, preciso do outro para perceber plenamente todas as estruturas do meu ser" disse Carl Schneider.
Precisamos do outro.
O outro não é qualquer outro, devemos selecioná-lo com cautela. Quando um católico procura um padre para confessar os seus pecados, está fazendo do padre o seu ouvinte, e espera que, expondo-se a ele, obtenha respostas para os próprios erros. Se você opta por um psicanalista, também espera que ele o ajude a se descobrir como indivíduo... Mas esqueça a experiência, o profissionalismo e a sabedoria: somos jovens. Somos teimosos. Somos amigos.
Quando estamos encolhidos sob nossas cobertas, sem sequer conseguir falar direito, esticamos nossos braços, alcançamos o telefone e pedimos socorro para aquele único amigo que nos viu chorar. Esperamos que ele entenda nossa voz engasgada, e nos encolhemos ainda mais sobre a cama - bem antes de suspirarmos, alongarmos nossos membros e relaxar. A voz do outro soa ao telefone, e uma certa paz se desenvolve dentro de nós. As palavras erradas e desajeitadas do amigo nos sossegam porque, de repente, nos damos conta de que não estamos sós. E não há nada melhor que descobrir que não estamos sozinhos nesse mundo gigantesco de tecnologia e preocupação.
Sobre o tiramisù, bem, não tenho certeza de como aconteceu, mas penso que tenha sido um dia difícil para um certo alguém. Imagino que tenha chegado exausto àquele pequeno restaurante e sorrido à primeira garfada daquela sobremesa estranha. "Questo tirami sù" deve ter dito, e quis dizer, em italiano, "isto me faz feliz". Acredito em sua real felicidade naquele exato momento, mas há doçura que nos agrade além do paladar.
Mais que qualquer sobremesa do mundo, a amizade é essa coisa gostosa que alivia o coração.

Beijocolates,
#V

quarta-feira, fevereiro 19

Poesia

- Escreveu um poema para ele?
- Não. Só escrevi; o poema fez-se por si mesmo.
- Lhe agradou?
- Sequer imagino, se sim, se não... Não tomou conhecimento dos versos.
- Ora, a troco de quê?
- Ele não será o último a ignorar palavras; nem foi o primeiro, também.
- Então fez outros poemas?
- Não. Só escrevi; a poesia explorou suas próprias formas.
- Poemas têm forma?
- Poesia, você quis dizer?
- Há divergência?
- Alguém certa vez me explicou que poesia é o acelerar do pulso ou do punho, a emoção pura, simples, quase translúcida. Poema é texto. Poesia é vida.
- Vida?
- Que mais poético há, se não a vida?
- Poesia é beleza? Não há beleza no amontoado de parágrafos tecidos que tenho à frente. Veja só esses poemas todos. Seus remetentes não têm ideia de sua existência. Jamais a terão!
- Não se trata de poema, mas de poesia, e a poesia foi verdadeira em cada traço curvo de letra unida a letra.
- Planeja guardar sua poesia em segredo.
- Me insulta! De forma alguma, poesia não deve ser secreta. Deve espalhar-se apressadamente, a fim de tocar cada coração a seu alcance.
- O que fará com todas essas palavras?
- Levarei comigo.
- Em pasta? Nada servirá a tantos papéis!
- Ora, por que pensa em papéis? Pretendo carregar poesia em meus traços, em meus gestos, em meu ser. Quero ser poesia.
- Sendo poesia, entregará aos destinatários estas frases compostas?
- De forma alguma...
- Para eles escreveu, a eles nega a escrita?
- É tolo. Não percebe?
- O quê?
- Escrevi para mim mesma, para mais ninguém. Essa poesia é só minha, e de mais ninguém.
- Pensei que fosse espalhá-la em sorrisos!
- E vou! E todos terão um pedaço de mim dentro de si. Um pedaço só meu, de mais ninguém, confiado aos cuidados do hospedeiro.
- Como cuidar de parte que não dele próprio?!
- Não sabe? Com poesia...

Beijocolates,
#V

terça-feira, janeiro 14

Teste 099

Há mais nesta paisagem do que seus olhos podem ver - posso enxergar isso neles próprios, nos seus olhos. O brilho que exibem, sorrindo, para as ondas de mar que quebram à frente ilumina-me, também. A hora é chegada e você aparenta a tranquilidade em si.
Os cabelos desgrenhados pela maresia não lhe causam grande alerta - o que causaria? Seus lábios esticam-se, curvos, como uma parábola de vértice negativo.
"Já pensou em amar alguém assim?"
O silêncio perturbado faz meus ouvidos ecoarem. Me distraio com a areia molhada que envolve meus pés, porque me surpreendeu lhe admirando.
"Como assim?"
Os dentes levemente espaçados surgiram em tom de riso, esboçando as covinhas que lhe causavam mais incômodo do que deveriam. Mas você pareceu não se importar.
Deve ter encontrado confusão em minha face e, em simetria, enrugou a testa: "Não se preocupe."
Não soube distinguir a voz; vinha de todos os lugares. O sol que emanava de nossa pele me fez perceber o que você queria dizer.
O calor nos fazia evaporar, mas era bom. Sentia que sumia dentro de você, e me sentia bem, por inteiro. Você se sentia assim também.
Percebi quando gargalhamos e não nos importamos com as marquinhas em nossas bochechas - ficamos ainda mais feliz(es) por isso.
Os passos que marcavam a orla eram de nossos pés descalços, caminhávamos em perfeita harmonia. Erguemos nossos braços às nuvens que escondiam-se pela noite que devorava o crepúsculo, respirando o mesmo ar.
"Já pensou em amar alguém assim?"
Pensamos, dissemos e repetimos. Rimos de nós mesmos.
Meus braços envolveram o seu corpo bem como o meu corpo envolveu seus braços.
A água salgada nos alcançou, gelada. Sentimos, em unidade, os pelos eriçarem-se por todo o comprimento do corpo.
Eu queria poder nos admirar naquele instante, mas você sabia que estava radiante - e eu sabia, também.
Porque éramos um só.
Já pensou em amar alguém assim? E assim amar a si mesmo?

"Amar a si mesmo é o início de um amor para toda a vida." - Oscar Wilde

Beijocolates,
#V

segunda-feira, novembro 11

Teste 097

Seu cheiro me faz mal. Porque me faz lembrar da amizade que se esgotou entre nós. Deixamos o rio correr em uma cascata à qual não nos atiraremos - não sei se tem medo de altura.
Você sentiu? Ouviu? Viu acontecer? Concordo: foi rápido demais. Como pude segurar com tanta cautela algo invisível que esvaiu-se repentinamente de meus dedos e zelo?
Deixou de existir. Percebi em seu olhar fixo e alarmado, quando afastou-se bruscamente. Tentei buscar você. Era tarde demais.
Sonhos estranhos. Desconhecidos. Trocamos olhares e palavras educadas eventualmente, mas por quê? Sempre soube que era mal educado...
O perfume impregnado em minhas roupas me torturam. Quero que saia de mim - por que não sai? Parecia decidido a ausentar-se. Sequer olhou para trás ao ir embora. Nem mesmo uma centelha de arrependimento fez brilhar seus olhos hostis. Lamento. Lamento profundamente por não mais fundamentar conforto em seu, nosso abraço - rijo, forçado. Quem é o culpado?
Não sei.
De onde vem o aroma? Por que não o encontro para usá-lo em lembrança masoquista? Não o encontro nem o perco. Permaneço estagnada no que é morno e desagradável. No incerto. E, por essas incertezas, não sei o que fazer. Não sei que rumo tomar. Não mais serei rei, rirei, chorar - irei?
Não sei, não sei...

"Te tenho amor, te tenho horror, te faço amor..." - Raul Seixas

Beijocolates,

#V

sexta-feira, agosto 30

Teste 093

"Às vezes você conhece uma pessoa maravilhosa, mas apenas por um rápido instante. Talvez em férias, num trem ou até numa fila de ônibus. E essa pessoa toca sua vida por um instante mas de uma maneira especial. E, em vez de lamentar o fato de ela não poder ficar com você por mais tempo ou por você não ter a oportunidade de conhecê-la melhor, não é mais sensato ficar satisfeito por ter chegado a conhecê-la um dia?" - Marian Keyes

A DITADURA DA RAZÃO

Um calor que se estende por todo o corpo - o rosto parece estar em chamas. Hesitamos e nos pomos a ponderar: faço? não faço? e sequer ousamos dar um primeiro ou segundo passo.
Não entendo por que temos tanto medo dos outros.
É um tanto difícil enxergar que somos todos iguais. Quero dizer: eu penso, discuto, temo, imagino, sonho e tenho meus motivos para tudo isso, mas só conheço o superficial do que é alheio a meus dilemas pessoais. O rosto visto sem uso de espelho é vago - as atitudes, os modos de ser, são pouco conhecidos por nós. Funcionamos de modo particular, e entendemos nosso próprio mecanismo, mas o outro? O outro nos é desconhecido. Cada um tem seus sonhos e razões, medos e dilemas - e precisa de compreensão. Uma era de individualismo exacerbado talvez nos cegue um pouco a isso tudo - o que é uma pena, pois, enquanto seres sociais e mutantes, precisamos do contato com o outro, principalmente com aqueles que não pensam como nós. Nos apegamos muito ao comodismo, aos mesmos amigos de sempre, às pessoas que não ofendem nossos princípios - mas o que demais há nisso? É muito fácil ouvir e curtir as mesmas músicas que nosso círculo, mas crescemos tão mais ao provar do desconhecido e prejulgado!
Temos muito receio em falar com estranhos, e por estranho me refiro àquela pessoa que está sozinha, com o olhar perdido, provavelmente tão desconfortável quanto nós estaríamos em sua situação. É um qualquer, como qualquer um de nós - e não nos arriscamos por quê?
Humanos não mordem, geralmente.
Ei, racionalismo, dá um tempo! Se a gente perder tempo por medo, o momento passa e, quando a coragem vem, já é tarde demais. Deixa... acontecer.

IMPULSÃO À FELICIDADE

É muito mais divertido agir imprudentemente, sem calcular o que falar, sem esperar o nervosismo passar.
Qualquer assunto é assunto - jamais haverá "nada" a ser dito, pois mesmo o nada pode ser discutido. As pessoas são seres pensantes e incríveis. Experimente falar com aquela com quem sempre quis conversar e entenderá o que estou falando: o primeiro contato é excitante, o momento de descoberta. Todos têm um potencial verdadeiramente extraordinário.
Engaje em uma conversa que dure dois minutos ou duas horas e já estará mais rico em espírito. Sempre nos surpreendemos com o encontro de mundos particulares -  e como não? Entre tantos indivíduos que passam por nossas vidas com a riqueza de um "bom dia", haverão também aqueles que farão culminar um aceno breve em relação firme, seja ela de qual gênero for.
Se abra ao impulso, ao desejo primário de se comunicar verbalmente, e verá quão bom, libertador e construtivo poderá ser algo que começou com um simples "olá". A imprudência, em medida certa, nos encaminha ao que nos é, factualmente, agradável.
7,2 bilhões de pessoas ocupam o planeta Terra; são 7,2 bilhões de mundos a serem explorados. É provável que nunca consigamos investigar um a um, mas por que não tentar? 

Beijocolates,
#V

quinta-feira, março 7

Teste 077

Depois de ter passado por uma aula inteira de Química desinteressante, estava pilhada. E comecei a refletir sobre quão injusto é o tempo, em algumas medidas...
TEMPOTEMPOTEMPO

Crescemos ouvindo sobre a "aborrecência", o momento em que os mais dóceis tornam-se capazes de explodir automóveis, etc., mas nunca pensamos que seria tão difícil. A crise de identidade é sutilmente posta em nossas vidas; sem autonomia adulta, sem dependência infantil, ficamos todos presos e surtados no "meio" do processo. E o que somos nós, afinal? Se nos achávamos gostosas quando cursávamos o nono ano, hoje rimos contrafeitas das pernas finas e calombadas que, graciosamente, estão ficando no passado. Mas se hoje nos achamos o máximo por ter as respostas mais inteligentes, é provável que, em alguns meses, comecemos a imaginar se éramos tão inteligentes assim: é natural; é humano e evolutivo - mas desagradável.
Se já não basta a maturidade oscilante e o organismo em adaptação, a sociedade terá algo mais a lhe propor: um vestibular. O termo está definido em um dicionário de bolso como "exame de admissão às escolas superiores", apenas, mas quem já prestou ou vai prestar sabe que não acaba por isso mesmo. A partir do momento em que colocamos os nossos pés em uma sala de Ensino Médio, deixamos de ser seres humanos e passamos a ser vestibulandos. Uma missão nos é dada: sermos aprovados - embora não seja assim tão fácil.
Diferente dos animais irracionais, os humanos conseguem investir tempo e esforço para obter uma recompensa a longo prazo - mas ninguém disse que seria moleza. Acontece que apenas 5% de nosso cérebro comanda o alterego, nossa racionalidade, enquanto todo o resto quer logo, para já, tudo o que nos fizer feliz (isso justifica alguns casais vaivéns por aí), e, em termos de imediatismo, o vestibular perde feio - o que mais tedioso a uma mente criativa que passar um ano em estudos longos a ocupar dois terços de cada dia? Combater preguiça, imaginação e a nova temporada da sua série favorita parece quase impossível... é justamente aqui onde entra o universo pendente, pois, se você achou que estatística, mol e silogismo não eram bons motivadores, é chegada a hora da pressão.
Seja por querer ou por costume, alguém sempre pergunta "como vão os estudos?" ou "passou?" (esta pode vir antes mesmo de a segunda série começar). Essas pequenas pontadas, ingênuas, fazem um despreparado entrar em parafuso: além de ter de estar morto para o mundo durante um ano, enfiado entre cadeiras desconfortáveis em uma salinha gelada, devorando volumes científicos, precisa conseguir uma boa aprovação em uma boa faculdade de um bom curso. A questão do curso começa desde cedo: Publicidade, Enfermagem, Administração, Psicologia, Nutrição, Jornalismo, Química Industrial... você pode fazer o que você quiser, desde que queira Direito, Medicina ou Engenharia.
E você pensa que, apesar dos livros que você deve ler, apesar das espinhas horrendas no rosto, apesar das festas às quais você vai ou é proibido de ir, apesar das tardes de ensaio, apesar das dezenas de matérias isoladas, apesar dos corações partidos, apesar dos sorvetes derretidos, apesar das notas baixas, apesar dos marca-textos acabados, apesar das borrachas desaparecidas, apesar das dores nas costas, apesar de ter que fazer bem a prova da sua vida, apesar dos encontros, apesar das amizades rompidas, nós conseguimos dar conta, superar o mal tempo e enfrentar a fase adulta. O que eu posso dizer? Concordo com você, ou pelo menos deveria - não me resta muita opção se eu resolvo discordar. É que o tempo avança, quer a gente acompanhe ou não. Por ora, abrimos mão de uma boa sesta e dos filmes imorais que estão em cartaz, tentando driblar os obstáculos dessa porralouquice toda.

"O tempo, às vezes, é alheio à nossa vontade, mas só o que é bom dura tempo o bastante pra se tornar inesquecível" - Chorão


Beijocolates,

#V
P.S.:Breve comentário sobre a morte de Alexandre Magno - como costume, apesar de ser contra a ideologia do falecido, as vendas dos produtos de Charlie Brown JR. vão disparar; o pequeno trecho ao fim desta postagem não vem de ibope acrescido, mas de um gosto em particular. Escutem "Vícios e Virtudes", acompanhem a letra, façam um minuto de silêncio e orem, segundo sua própria crença, por alguém que deixa este mundo para trás.
P.P.S.: Como prova do meu não-fanatismo-instantâneo, admito-lhes que não sabia quem era Hugo Chaves até o óbito - ignorante, sim, mas sincera.

segunda-feira, julho 16

Teste 058

Dançar é contagiante.
Fui a uma apresentação de tango na Argentina, uma vez, e fiquei tão encantada com o contato, a química e a sincronia que agitava os dois corpos como complemento de um só que mal pude imaginar como os parceiros não se apaixonavam um pelo outro. Nos filmes e nos livros, é sempre assim que acontece, em um baile de máscaras ou à fantasia, o que me irrita bastante. Como em todos os filmes da Cinderela e suas mil e uma releituras, uma máscara parece o suficiente para que aquela garota, que o "príncipe", muitas vezes, já conhecia, torne-se absolutamente irreconhecível. É incrível - incrível, inacreditável, ininteligível - como a voz, os olhos, o cheiro, o cabelo, as feições, TUDO é anulado por uma simples máscara - pior ainda é aquele filme da Lucy Hale, em que ela cobre a boca com um lencinho de odalisca e o cara fica louco (LOUCO!) sem saber quem é aquela nobre dama misteriosa - fala sério! Apesar da irrealidade dos contos de fadas ainda estar presente em todas as novas historias, o fado de o "príncipe encantado" não ser mais um príncipe já é um grande começo. De qualquer modo, sabemos todos que nada desses contos veio a nós sem os dez mil filtros que a Disney impôs no meio do caminho. Uma vez alguém me disse que, se a Branca de Neve vivia com 7 homens, independente se são anões ou não, é quase óbvio que ela não pagava a estadia apenas com torradas e geléia - o que me chocou bastante, mas, se a Chapeuzinho era uma história de estupro e canibalismo e a Alice só viajava até o País das Maravilhas depois de muitos alucinógenos, não tenho por que discordar da prostituição da Branca de Neve. Algo que sempre me incomodou, na verdade, foi o fato de a Cinderela (ela mais uma vez) nunca ter procurado a justiça, alegando os maus-tratos e todo o abuso que sofria da madrasta - sem falar que, naquela época, uma mulher divorciada ou solteira com filhas já crescidas jamais tornaria a casar-se com um homem como o pai da Cinderela - porque ela teria toda a herança e um bom lar adotivo, além de colocar a vaca na cadeia.
Estou escrevendo sobre isso porque vivo ouvindo essas coisas do tipo "as princesas decepcionam as crianças" - o sonho da alma gêmea não parte apenas das meninas -, mas não vejo muito como. O lance do príncipe encantado é bem fácil de resolver, na verdade, o de ser príncipe vem da realeza, dos bons costumes, da boa educação, da nobreza da alma, digamos assim, e a historia de ser encantado não podia ser mais óbvia: quando nos apaixonamos, não nos encantamos? Esse encanto amoroso e romântico que nos acomete e nos deixa loucos, na verdade, é isso. Pois bem, então o protagonista da sua história de amor é um galanteador apaixonado; certo! Agora, a protagonista: nem sempre uma princesa, mas sempre com os traços delicados e graciosos de uma dama, isso que todos os pais e todas as mães lutam para que suas filhas sejam: BEM EDUCADAS. Claro que você tinha que ter dotes, como costurar, fazer torradas, ser aventureira ou o que quer que seja, mas isso nos dias atuais acontece se você quiser e for a fim. Então a heroína é uma menina carinhosa. A pala da bruxa, madrasta e todo o drama das irmãs do mal acabou atribuindo às nossas coitadas madrastas e adjacentes, mas está ligada, na verdade, ao que nos rodeia: às fofocas, aos julgamentos, às pessoas que não poem força no relacionamento e mesmo em nós, por assim dizer; o vilão é composto de todo um grupo de pessoas que lhe faz de bode expiatório. Maaas, como a vida é boa e valhe a pena, haverá sempre uma varinha de condão para nos resgatar das garras do mal: são aqueles que nos dão força e nos estimulam a ir à luta, embora, na maioria das vezes, digamos "que nada" e choremos convulsivamente, esperando alguma magia acontecer - e não irá, porque nós não acreditamos nela.
Portanto, temos os igredientes para montar um lindo romance: um galanteador apaixonado, uma menina carinhosa, algumas pessoas falsas e amigos e familiares cheios de sorriso e esperança. O problema é que, depois de sabermos ou não disso tudo, sentamos e esperamos algo fenomenal acontecer. Pois acredite quando disserem que o amor pode estar do seu lado, na fila do banco ou do supermercado, mas não ande como um esquizofrênico procurando o que devia vir com naturalidade. A paixão razoável que você sente podia ser um grande começo; escreva sua historia! De repente quem te chamou pra dançar ou te ajudou a se levantar quando você passou mal e desmaiou na fila do aulão do cursinho é o protagonista ou a protagonista desse lindo conto de fadas, e sabe o que mais? Essa coisa de carpe diem é séria, mesmo. Dê o seu melhor a cada segundo e se arrisque o máximo que puder porque - e eu garanto, porque já provei - os petiscos são deliciosos!

"Coisas boas vêm com o tempo. As melhores vêm de repente." - Gabriel Feijó, meu primo.

Beijocolates,
#V

quarta-feira, julho 4

Teste 056

É verdade que eu acabo de voltar da Chapada Diamantina e, ao invés de tentar escrever sobre emoções, descobertas, Deus e paisagens, venho a vós preparar um milkshake de chocolate sobre o que mais agrada sua língua: a fala.

Você fala sem pensar, sem saber, sem gostar, você simplesmente fala, independente se pré-meditou aquilo ou não. No fim das contas, as palavras que jorraram por sua boca foram exatas, diretas e corretas, e não as trocaríamos por nada nesse mundo - ou talvez trocássemos.
As frases que brotam sem sutileza alguma ou ricas em suavidade desaguam em um mar de complexidades que nenhum acadêmico poderia integrar em um currículo: gestos, tons de voz, caras e bocas... É engraçado como lemos e computamos cada sorriso - e como podemos discerní-lo de todos os outros - sem sequer sabermos que estamos fazendo isso.
O interesse e a simpatia entre duas pessoas se dá, como já foi dito pelo meu professor de Física (e eu nem queria lembrar do colégio agora), por gestos espelhados - veja só eu e minha mãe: eu começo a contar uma história de quase morte e ela já está com o rosto agoniado e semelhante ao meu.
Quando você e alguém de quem você gosta muito - hmmm... - estão conversando, é normal que gesticulem de modo a aproximar-se ou que o contato visual seja duradouro, além dos movimentos serem dados como em uma sincronia que, se fosse ensaiada, não seria tão perfeita.
É engraçado pensar que mesmo o toque e a intensidade dele diferem cada contato - há mil modos de abraçar alguém, e podemos, com um pouco de esforço, entendê-los. É como sorrir! Um sorriso apaixonado e cauteloso não é diferente de um sorriso intencional e objetivo? Bem, eu acho. Quando sorriem falsa e forçosamente, não machuca? Mas quando sorriem verdadeiramente, o coração da gente até esquenta um tantinho...
Sem contentar-se, o ser humano inventa códigos, teatros, linguagens, poesia, música, Literatura; e expressa-se como uma dança ou um jogo, ambos os corpos conectados e completos, movendo-se e comunicando-se de um jeito próprio e belo.
Racionalizar a comunicação só faz utilizá-la mais e mais: telefonemas, sonhos, mensagens, olhares - ah, os olhares... -, mas o que quero dizer é que... não quero dizer. Apenas olhe para mim e sinta tudo o que está no estreito espaço entre nós.

"Hoje eu preciso ouvir qualquer palavra tua, qualquer frase exagerada que me faça sentir alegria em estar vivo" - Jota Quest

Beijocolates,
#V

domingo, março 18

Teste 038

As pessoas lhe garantem que lhe apoiarão em qualquer decisão que por você seja tomada e, logo após a confissão de que seu curso futuro é Letras, mil julgamentos, caretas e tons irônicos soam por sua vida, por seu mais sintético mundo.
A cada dia mudo a escolha de minha profissão. Me empertigo. Tenho 16 anos e já devo decidir-me pelo que farei por toda a minha vida... É algo um tanto quanto pertubador, não?
Quis Nutrição, e me disseram que eu iria morrer de fome.
Quis Publicidade, e me disseram que eu não seria empregada.
Quis Psicologia, e me disseram que eu seria frustrada.
Quis Pedagogia, e me disseram que eu descobriria o erro de minha escolha, mais tarde.
Quis Jornalismo, e me disseram que eu tornaria-me estressada.
Quis Medicina, e me deram apoio, embora eu tenha descoberto que jamais seria feliz na área.
Quis Geologia por 3 segundos, e tentam me convencer de seguir o impulso.
Nunca quis Direito, e me apóiam ate os dias de hoje.
Nunca quis Engenharia, e me garantem que vou gostar, fazer sucesso.
Hoje quero Letras ou História, e tenho de ouvir minha própria mãe com um tom sarcástico e duvidoso na voz, dizendo 'de tantos cursos, ser professora...' Gosto da idéia de ser professora. Por mais estressante e mal pago que possa ser, o orgulho de passar informações necessárias e a ânsia em explicar, falar, gesticular, me soa tão atrante que quase me faz vibrar em alegria. Mas sei que, a partir do momento em que alguém souber, este alguém me julgará.
Quero dizer a vocês que não se importem se querem fazer Cinema, Administração, Ciências Contábeis, Economia, Medicina, Arqueologia, Hotelaria, Geografia. Quero dizer que não se importem com as criticas que sempre surgirão. Quero dizer que não liguem para os comentários maldosos. Quero dizer que jamais morrerão de fome, se vocês realmente querem fazer o que estão dispostos a fazer. Porque de nada adianta passar de primeira no ITA e não gostar de ser um engenheiro. De nada vale um médico que não sente prazer em atender. Porque quando damos ouvidos a quem nos cerca, acabamos por não escutar a nós mesmos. Isso é serio!
Saiba e aprenda; você é quem importa! Saiba ser egoísta, são suas decisões, seus problemas, seu trabalho, sua carreira, suas metas, seus desejos, sua felicidade, sua frustração, sua VIDA que está em jogo! Não é como se seu pai formado em Farmácia fosse tentar realizar-se em você.
É hora de seguir seu caminho, olhar para o próprio umbigo, e refletir sobre si mesmo.
Acinal, para todos os demais que não você...

"Pode ser de qualquer cor, desde que seja preto" - Harrison Ford

Beijocas sabor Yoggi de chialgumacoisa e top it de farelos cookies,
#V

sexta-feira, fevereiro 3

Teste 027

Nessas férias, não fiz muita coisa senão sair com minha família. Tenho certeza que não "curti com as amigas" mais que 4 vezes no mês que passou. Não que eu esteja reclamando, mas, depois de me preocupar bastante, de ligar desesperadamente e morrer de saudades por 10 dias, eu simplesmente -isso, é isso, mesmo - cansei. As pessoas não vêm atrás de mim, então não vou atrás delas, certo? Que seja, é indiferente. Sim, tudo ficou indiferente - amigos, eu digo. Minha vida se resumiu a família e cachorra. Não quero que todos fiquem grudados em mim como se fossem meus cachorrinhos - Lilica é literalmente uma cadela e nem ela fica mais que 1 hora comigo - , mas um abraço bem dado até que faz falta.
Sabe, eu fico pensando... E minha mãe, pra arrematar tudo, radicaliza todos os meus pensamentos: "pode acreditar que você não lembrará de sequer uma pessoa que fez o colegial com você." Em parte, eu acredito, principalmente quando ela me faz rir dizendo que a única menina que guardou o nome foi Aalgumacoisa, a mais chata da turma. Mas, pelo outro lado discordo: HA, eu tenho um diário, mãe, consultarei se preciso.
O ponto é que realmente é triste ficar reconsiderando as pessoas. Definir quem é mais ou menos importante é insuportável, além de ridículo e mesquinho. Porém voltar à realidade é como por o rosto no freezer depois de um banho quente - pelando, que eu digo, senão o choque não rola e pá (atenção, crianças: não tentem fazer isso em casa) -, e o choque é tão grande que até me deixa um pouco... desnorteada. Desconsiderar pessoas do convívio durante trinta e três dias e ter que depender delas em um minuto seguinte é algo preocupante, ao menos para meu humilde ser.
Putz, colégio grande é um porre! Gente se esmagando nos corredores, aquele tumulto pelo reencontro, a falsidade no primeiro e único abraço do ano letivo, os grupos, as panelinhas, as fofocas, ARGH! Cadê meu mundinho? Cadê minha casinha, minha mãe, meus filmes, minha televisão e um bom livro?
A indiferença ficou, e peço sinceras desculpas se magoei alguém - não era minha intenção. O terceiro dia de aula chegou na sexta-feira e estou virando, aos poucos, um zumbi. Não durmo direito, não acordo direito, não como direito, não penso direito; só tenho um único instinto: matar. Não que eu queira sugar o cérebro de ninguém por canudinho, é que, apenas... estou raivosa. Estressada. Mimada. Mal humorada.
Me ajudem a consertar isso e, acreditem: vocês podem me fazer sorrir.
"O que mais eu poderia ser? Todas as desculpas" - Kurt Cobain

Beijocolates,
#V

quarta-feira, janeiro 4

Teste 012

Hoje é o dia 04 de janeiro de 2012, são 11h47, eu estou com dor nos dentes, meu melhor amigo me pediu em namoro, levei bronca de minha mãe e acabo de chegar da Boa Vista depois de uma viagem perdida só para descobrir que o ensaio foi adiado para as 17h00. O dia está bonito, minha mãe chegará a qualquer momento e eu ainda não faço ideia de onde estará a minha carteira com meus documentos.
Bem, que se dane, eu tô de férias!
#V

domingo, dezembro 25

Teste 007

Bem, eu acho que devia fazer um post mais especial para um número tão bem conhecido, mas não consigo pensar em nada muito produtivo, então vou falar de traição. E que se aguentem quem não tem dor de cotovelo. Se bem que eu também não tenho. Não exatamente. Enfim...
 
Traição dói porque nos faz pensar que somos imensamente bobos. Porque nunca esperaríamos que alguém que amamos nos virasse as costas. Já imaginou sua namorada na cama com seu melhor amigo? Já imaginou sua melhor amiga pegando o cara por quem você foi apaixonada a sua vida inteira? Claro que não. Sabe por quê? Porque você confia naquela pessoa.
É ridículo? Talvez seja.
O amor se permite ser lindo e ridículo, mas é tão bobo e inocente que apaixona a todos.
A dor de uma traição? Uma amizade rompida, lágrimas derramadas, talvez algo mais violento - tem gente que mata por isso -, o fim de um namoro, a perda da confiança, o receio, o pânico, a transexualidade... Tantos efeitos!
Nossa, até Jesus Cristo foi traído! Uma cidade inteira que presenciou milagres e ouviu suas palavras, condenando-O, rindo d'Ele. Por que conosco seria diferente?
Pessoas são como caixinhas de surpresas: imprevisíveis. Cada uma em seu mundinho particular, afirmando que se importam com os outros enquanto tropeçam no calçamento por ter-se distraído com o eixo de seu próprio umbigo.
Prazer: eis o procurado. Não importa em quantos se pise. O que importa é que seus objetivos sejam alcançados.
Bem... Feliz Natal.
Lembrem-se que o Natal não é o desgosto que você sente por não ter ganho o iPod 4 que queria, mas sim a celebração do nascimento de alguém que morreu na Cruz por você.
É isso aí.
Não sejam cornos mansos, por mais que isso seja o que sempre somos e sempre seremos.
Beijocolates de Chocottone,
#V