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quinta-feira, março 4

a humilhação pode operar milagres

essa é uma primeira postagem depois de muito tempo das últimas postagens porque me deu vontade e já tinha dado vontade antes mas eu deixei passar e acabou passando

fiquei com medo que passasse de novo então vim postar qualquer coisa

não sei

não sei o que escrever


mas sinto saudade de fazer isso - não escrever somente, não escrever em qualquer lugar, mas escrever aqui: é disso que eu sinto saudade

afinal o que é uma postagem num blog?

um pensamento próprio, confuso, elaborado, opinião que transborda dos insuficientes 280 caracteres

esse é o espaço para minha loucura se manifestar livremente, ou numa tentativa de organizá-la em pensamentos, argumentos sólidos na pretensão de convencer quem lê de que estou mesmo louca, mas não tanto assim

"é que essa loucura faz sentido", essa loucura se faz sentindo

mas esse não é um texto argumentativo ou poético ou bonito

eu poderia falar sobre a pilha de livros começados que organizei na estante do meu quarto, as coisas estão mudando, sei que estão...

hoje vivi um grande rompante terapêutico, coisa potente, energizante, que só se encontra cavando bem fundo o fundo do poço

meses caóticos, improdutividade seletiva, desespero, pena, lágrimas e uma mensagem que foi eu batendo o olho, pressão caindo: pronto. fudeu. e não era isso que eu queria, correndo na beira da piscina?

escorreguei tem tempo, só não dei conta que estava caindo

me olhou incrédula, de cima pra baixo: "caiu?"

pior que eu nem tinha reparado que tava ali estatelada - tinha tanto tempo, o corpo chega doía da imobilidade

vergonha de quem é estabanada, cabeça erguida de quem tá acostumada com a passação: "caí, mermo. queria nem pedir ajuda, mas to sentindo que me fudi"

a humilhação pode operar milagres, disso não tenho (mais) dúvidas

a cara arde, timidez não é nada comparada aos tapas da realidade

ofereci todas as faces da minha bunda à cadeira, minhas costas se pudessem choravam, mas não podem então gritam

zunzunzum do corpo que aquieto já com banho

dia foi puxado, emocionante, lindo também

li, escrevi, li, escrevi, tirei uns trinta minutinhos pra passar mal desejando romance colegial que eu nunca vivi, passeei com a cachorra lolla pelo bairro e voltei aqui

e li o que tinha escrito, escrevi com o que tinha lido, baguncei foi tudo!

mas é sobre isso, né?

#vique

p.s.: pois então??? que coisa interessante... eu queria muito terminar com um beijocolate de ensino médio, mas não vai dar!! que coisa estranha que a pessoa que deu origem ao #v é foragida de minha vida, inventei persona outra de lá pra cá, coisa gostosa recomeçar... kikiiiiu bora lá

segunda-feira, julho 4

duas mãos


para cada mão, há uma mão
e duas mãos ficam sozinhas

as duas mãos são minhas
mas minhas as mãos não são

a mão acaricia a minha mão
minha mão acaricia a mão

as mãos tocam
as mãos são tocadas

o toque, sinto-o por inteiro

são minhas mãos
são minhas próprias mãos

o toque das mãos é inexistente
as mãos não se tocam
são mãos carentes

seria a mão que toca suficiente?
e a mão que é tocada, como se sente?

as mãos se tocam.
"são minhas mãos"
mas nenhuma delas me pertence
#V

quarta-feira, junho 8

70

Erivanderson, nascido pra brilhar, me desafiou a listar 70 fatos sobre mim, e eu pensei que não ia conseguir. Surpreendentemente, porém, consegui, e nem foi tão difícil assim. Então, a quem interessar possa, aí vão 70 fatos que acho importantes por algum motivo.
1. minha cor favorita é cor-de-rosa
2. já pintei o cabelo de roxo, rosa e azul
3. gosto de puxar papo com desconhecidos, mas analiso-os bem antes de me atrever a dizer "oi"
4. faço amizade facilmente com porteiros, zeladores, secretárias e vigilantes
5. me esqueço dos meus problemas subindo no telhado do meu prédio, ilegalmente
6. subo no telhado do meu prédio sempre acompanhada, para ser seduzida pelo horizonte
7. tenho muito medo de deixar de ser eu
8. tento aproveitar todos os momentos
9. choro quando me dou conta de que não estou aproveitando minha vida plenamente
10. amo dançar, e danço mal, mesmo, mas danço até as pernas ficarem bambas
11. para sair do sedentarismo, comecei a fazer balé clássico
12. me orgulho de meus avanços no balé, embora não sejam tão incríveis
13. já fiz ginástica rítmica
14. quando criança, me sentia adulta
15. quando cansei de usar franja, fui até o banheiro com uma tesoura e cortei fora
16. todos ficaram loucos quando fiz isso, porque eu podia ter me cortado, e eu só pensava: "até parece que eu sou uma criancinha!" eu tinha 5 anos
17. arranquei todos os meus próprios dentes de leite, menos um
18. minha primeira queda foi aos 2 anos de idade, quebrei dois dentes
19. em meu pior pesadelo, estrelava zé vampir, da turma do penadinho
20. criança, fazia a camisolinha de seda de saia e fingia dançar dança do ventre
21. já fiz um curso de dança do ventre
22. já fiz um curso de teatro
23. já fui muito tímida, e ainda sou, mas aprendi a ser maluca
24. fiz parte da edição do jornal da minha escola
25. prestei vestibular para 4 cursos diferentes - engenharia eletroeletrônica, história, psicologia e design gráfico -, porque não sabia, mesmo, o que queria fazer da minha vida
26. passei em todos os vestibulares que fiz
27. recusei uma bolsa integral em uma faculdade particular sem saber o resultado da universidade pública
28. sou péssima em entrevistas de trabalho
29. a meus olhos, sou péssima em apresentações, embora seja frequentemente elogiada
30. sou extremamente perfeccionista e autocrítica e, embora isso resulte em bons trabalhos, resulta também numa gastrite crônica, ansiedade e noites insones
31. gente desleixada me dá uma agonia na alma
32. odeio atrasos, principalmente se nada foi dito a respeito
33. odeio quando desmarcam comigo bem em cima da hora, e já estou pronta há tempos
34. tenho rituais de limpeza para receber pessoas em casa
35. fico angustiada com a bagunça alheia
36. cultivo e protejo minha bagunça, com unhas e dentes
37. não amo sushi
38. não amo açaí
39. minha comida favorita é feijão, e vai bem com arroz, com cuscuz, com banana, com o que mais vier
40. pipoca de panela é minha especialidade culinária
41. quero estar certa sempre
42. nem sempre estou certa, mas defendo minhas ideias até o fim
43. morro de vergonha quando sou pega espalhando algum dado errado
44. já escrevi um livro, mas nunca tive coragem de publicar
45. morro de medo e de preguiça de lutar pelos meus sonhos
46. gosto de sair de casa andando, sem rumo, até os pés cansarem
47. gosto de fazer visitas surpresa
48. adoro receber visitas
49. a minha programação favorita é juntar uns amigos meio nada a ver pra conversar e comer pizza
50. meus desenhos são propositadamente toscos, pra ninguém vir e colocar defeito
51. durante uma época de minha vida, costumava ler dois livros por semana
52. desde que entrei na universidade, li vários primeiros capítulos de livro
53. desde que entrei na universidade, acho que li menos que 10 livros por inteiro
54. me apaixono facilmente por qualquer pessoa ou coisa
55. quase morri de amor uma vez por semana, nos últimos 20 anos, por pessoas diferentes
56. estabeleço um primeiro contato com facilidade, mas não sei manter amizades
57. fujo de semi-conhecidos e conhecidos de quem não gosto tanto assim
58. perco o interesse tão facilmente quanto o desenvolvo
59. já fui apaixonadinha por pelo menos 3 professores meus
60. curso psicologia, mas não quero ouvir seus problemas de graça nem os de mais ninguém sendo paga
61. o meu sonho profissional é ser professora
62. nunca brinquei de boneca sendo a mãe das bonecas, eram sempre minhas irmãs
65. nunca fingi que minhas barbies fossem kens para namorarem, sempre as assumi como mulheres que relacionavam-se com mulheres
66. brinquei de boneca até os 15 anos de idade, e aproveito os meus sobrinhos para ainda brincar, de vez em quando
67. já viajei pra caramba, pra dentro e pra fora do país, mas ainda quero mais, bem mais...
68. sou teoricamente fluente em alguns idiomas, mas não me arrisco a falar por divertimento
69. beijar na boca é definitivamente um hobby, embora eu ame tanto paquerar

70. troco facilmente horas de sono por atividades banais, como a confecção de uma lista de 70 fatos sobre mim

E é isso aí. Até a próxima. Beijocolates,
#V

segunda-feira, março 30

Sem Vergonha

Todos já ouvimos os ensinamentos de Gonzaguinha, cantando junto à melodia: "viver e não ter a vergonha de ser feliz", não é verdade? E muitos de nós vibramos com essa música, já feliz por sabermos que podemos ser felizes sem qualquer peso de consciência moral. Podemos mesmo? Afinal, cada um é feliz a seu próprio modo e, se ser feliz é algo tão subjetivo, quando cantarolamos esse trecho, a que vergonha nos referimos?
VERGONHA DE QUÊ?
Esse sentimento que nos paralisa, de vez em quando, e nos faz corar, constrangidos, tem uma fonte interessante, o conceito de certo e errado. É engraçado como damos valor a esses conceitos, preocupados com o que os outros irão pensar de nossas "boas" maneiras. Mas, afinal, quem disse o que era bom e o que era ruim?
Geralmente, pensamos que tem de que se envergonhar quem não sabe manusear bem os talheres, ou quem gosta de sexo sem compromisso, ou quem não conseguiu ser aprovado na prova trimestral. É verdade, nos envergonhamos quando não atendemos aos apelos da sociedade padrão, moralista e hipócrita.
Mas são só os "errados" que sentem-se intimidados?
Observei um pouco a postura de meus amigos diante de alguns assuntos e descobri que não trata-se apenas de fazer coisas "feias". Descobri que um religioso pode ficar bem quietinho, com medo que julguem-no pela sua fé. Descobri que quem não gosta de Coca-Cola pode bebê-la chorando por dentro, sentindo a garganta arder, só para não contrariar a companhia. Descobri que quem gosta de indagar sobre o sentido da vida corre o risco de tornar-se mais um tolo, por inibir a prática, só para não afastar ninguém com um papo "chato".
O que há para se envergonhar em gostar de beijar na boca, não querer se embriagar, admirar Freud, entender aborto como assassinato, acreditar no amor, ir à igreja aos domingos e questionar verdades populares?
É vergonhoso não beijar na boca e olhar torto quem beija. Fazer careta para quem recusa uma dose de tequila, revirar os olhos ao ouvir um argumento contra o aborto, rir de uma declaração amorosa, ridicularizar um compromisso com a igreja, mandar alguém calar a boca quando começa a aprofundar o tema da conversa... Isso, sim, é algo de que vale a pena se envergonhar.
Todos somos diferentes uns dos outros, e jamais nos encaixaremos em qualquer padrão. Nem no "certo", nem no "errado", ou "preto", ou "branco", ou "sério" ou "risível". Nossas qualidades devem ser compreendidas, e respeitadas, mas não tomadas como "aprováveis" ou "reprováveis".
Há um motivo para cada um ter chegado onde chegou e da forma que chegou. Um vegetariano tem motivos para fugir de um filé com fritas, e um conservador tem motivos para não adotar a poligamia, mas esses motivos, que, em um tribunal, lhes serviria como argumentos de defesa, não podem, de modo algum, justificar um ataque.
É fácil reconhecer a vergonha no rosto de quem ultrapassa paradigmas sociais, mas ela domina todos nós. Porque dependemos do outro e do juízo que o outro faz de cada um de nós - se minha roupa está "legal", se meu cabelo está "okay", se minhas olheiras foram "bem cobertas por maquiagem", se meus tópicos de conversa são "interessantes"...
Não podemos esquecer, porém, que o "outro", na verdade, é só mais "um", como nós. Tem suas características próprias, seus desejos e seus receios, assim como todo o resto do mundo, e, embora nos faça caretas, é só isso que nos pode fazer. O mais quem faz é você, se ceder à pressão - e fique firme! Não esconda o seu rosto, nem a si mesmo. Não imponha seus valores aos outros, mas imponha-os a si mesmo. Vista seus ideais, seus hábitos, suas razões, com orgulho, e defenda o que está vestindo. Só não ridicularize quem escolheu uma outra coisa pra vestir - não seria justo, afinal, pedir que o entendam, quando não entende os outros.

Só eu sei onde meu sapato aperta e, se eu quiser trocar as minhas sandálias de salto-alto novinhas por um All-Star surrado, não tente me impedir.

Beijocolates,
#V

terça-feira, fevereiro 3

[EL]-es

Ela guardou
Ele deu

Ela prendeu
Ele soltou

Ela teve medos
Ele teve sonhos

E agora, o quê?

Há sorrisos em ambos os rostos
Sorrisos diferentes

Ela parece ter mais olhos
Ele parece ter mais dentes

Curioso, curioso

E o amor que aflorou num
Desabrocha em outro

Outro, mesmo
Não mais aquele

E tudo ficará bem
Não tenha dúvidas quanto a isso

Ainda que um não faça o bem
Que o outro fazia a um

Porque essa coisa de amar
Revigora e permanece
Quentinha no coração

E ainda que lhe digam "não"
A ele, seu coração
Não se preocupe, que a vontade sincera só cresce

Pois o amor não reconhece
Essa historia de "diminuir"

Beijocolates,
#V

segunda-feira, janeiro 19

Cor-de-dois

Dizem que o nome da cor não é igual ao da fruta - tem que fazer referência à fruta quando não é dela que a gente tá falando. É "cor-de-laranja", se a Laranja não estiver presente. Nada mais nesse mundo - nada além dos bagos suculentos e cheios de vitamina C -, teria o direito de tomar aquela tonalidade para si ou alegar que é mais sua que de qualquer outrem.
Pois bem. Naquela noite, a Lua foi ousada o suficiente.
Ninguém esperaria uma postura como essa vinda de um astro tão terno e conhecido, pois não era rotineiro tê-lo como ladrão - talvez roubasse do Sol um pouco mais que a quantia ofertada de brilho em ocasiões especiais, mas uma cor?
Apesar das evidências, porém, não sei se posso classificar o sequestro como um crime, porque a voz da contrariedade não se fez ouvir.
O mar respirava calmamente, tomando e devolvendo ondas; fazendo a água molhar a areia fina e já úmida da praia. Ele refletia a maravilha que acontecia sobre si, em meio ao breu noturno, e tudo mais refletia o delito fantástico: o mar, as nuvens, as estrelas, o sorriso dos dois e o calcário sob seus pés. Envoltos em um abraço, sentiam a cor invadi-los, vibrante e harmoniosa, enquanto espalhava-se por aquele céu nublado de dezembro.
A Lua estava baixa e volumosa. Calada, contemplava os olhares que a admiravam compassivamente. Ela tinha uma remota consciência da própria beleza, mas estava extasiada com cada abraço iluminado por uma cor própria... a cor-de-dois.

Beijocolates,
#V

segunda-feira, novembro 24

(Seus) Olhos

Os olhos me dizem mais, bem mais que qualquer boca poderia me dizer.
Os olhos me olham, envolvidos, embriagados, e a embriaguez é boa, porque me embriaga, também.
Estes olhos que amo fazem do olhar algo demasiadamente verdadeiro.
Os olhos são compenetrados, carinhosos e transbordantes.
Admiro muito esses olhos, até por me admirarem tanto.
Sinto, por esses olhos, mais do que pode ser expresso por palavras, então converto as funções de minha boca, e ela já não fala, mas beija.
O beijo é sincero, porque a boca é sincera e os olhos são sinceros.
Nunca antes fui capaz de ver tanta sinceridade em um par de olhos.
Nesses olhos, vejo meus próprios olhos, mas da forma que os olhos os veem.
E sorrio com os olhos.
Com os seus olhos.
É engraçado como podemos morrer com um olhar.
Me sinto morrendo aos poucos, mas morrendo de felicidade.
É algo curioso: sinto-me prestes a explodir.
Explodir em gioia.
Sinto explodir em um sorriso, mas não me contento com tão pouco.
Deixo vazar dos meus olhos sobre seus olhos, e me preencho com tudo.
Tudo o que posso sentir em seu olhar.

"Meu amor, juro por Deus que a luz dos olhos meus já não pode esperar; quero a luz dos olhos meus na luz dos olhos teus, sem mais la-ra-ra-ra..." - Vinícius de Moraes

Beijocolates,
#V

sábado, outubro 18

Ei, garoto

Venha, converse um pouco comigo
Em que está pensando?
O que quer fazer?

Venha, admire o horizonte por algum tempo
Percebe as maravilhas que se estendem aos olhos?

Venha, respire...
Absorva todo o ar que couber em seus pulmões
Consegue sentir?
Seu coração pulsando, e o sangue passando pelas veias, pelas artérias, por todo o corpo, irrigando-o com vida - consegue sentir?

Venha, me dê a mão
É cedo para tomar decisões, mas há um mundo fantástico a ser desbravado...

Vamos, sorria...
Sua beleza transborda no seu sorriso
E me contempla com uma doçura viva
Sem sequer perceber

Ei, garoto, converse comigo
Em que está pensando?
O que quer fazer?

Beijocolates,
#V

quinta-feira, setembro 11

Tiramisù!

São momentos raros, mas são momentos desesperadores, estes em que sentimos a própria fraqueza nos sufocar. Os músculos não se movem, e o ar custa a entrar. Ficamos imóveis, incapazes de enxugar as lágrimas que escorrem, amargas, pelo rosto. Nos sentimos tão frágeis e indefesos, que a ideia de obter qualquer solução ao problema parece ridícula.
Precisamos de ajuda. Mas que tipo de ajuda?
Meu quarto está bagunçado. Deixei a roupa do balé jogada por cima da cama, onde já estavam a caixa dos meus mocassins novos, as calças jeans que usei mais cedo, os comprovantes de matrícula do curso de Inglês e a papelada das vacinas que andei tomando. Só me dei conta agora de que as visitas viram as minhas calcinhas penduradas pelo banheiro, e sei que, dentro de dois dias, não caberá mais nada na escrivaninha. Quando a bagunça realmente me atrapalhar, vou prestar atenção nela e começar a desfazê-la. Vou tirar um dia para organizar o meu quarto, embora saiba que levarei apenas uma ou duas semanas para me deparar mais uma vez com a desordem. É curioso que só consigamos resolver nossos problemas quando alcançam um grande grau de complexidade, e, do mesmo modo, parece que precisamos chegar ao fundo do poço para conseguir nos reerguer.
Muitos se orgulham por serem "lobos solitários". Dizem, com um sorriso no rosto, que não precisam de conforto, porque podem consolar a si mesmos. Sendo eles seres humanos, animais naturalmente codependentes, não poderiam estar mais enganados. É importante que choremos tudo o que temos para chorar, ainda que fiquemos desidratados e com dor de cabeça. Podemos chorar sozinhos - e choramos. Mas jamais seremos capazes de avaliar e compreender uma situação na qual estamos tão imersos, não sem companhia.
Quando admitimos a nossa vulnerabilidade para alguém, sentimos o rosto queimar de dentro para fora; nossos olhos umedecem, nos chega um pouco de vertigem e podemos sentir os batimentos cardíacos em nossas orelhas. Parecem sintomas familiares? "A vergonha é, por natureza, reconhecimento. Reconheço que sou como o outro me vê... Assim, a vergonha é vergonha de si mesmo diante do outro: essas duas estruturas são inseparáveis. Porém, ao mesmo tempo, preciso do outro para perceber plenamente todas as estruturas do meu ser" disse Carl Schneider.
Precisamos do outro.
O outro não é qualquer outro, devemos selecioná-lo com cautela. Quando um católico procura um padre para confessar os seus pecados, está fazendo do padre o seu ouvinte, e espera que, expondo-se a ele, obtenha respostas para os próprios erros. Se você opta por um psicanalista, também espera que ele o ajude a se descobrir como indivíduo... Mas esqueça a experiência, o profissionalismo e a sabedoria: somos jovens. Somos teimosos. Somos amigos.
Quando estamos encolhidos sob nossas cobertas, sem sequer conseguir falar direito, esticamos nossos braços, alcançamos o telefone e pedimos socorro para aquele único amigo que nos viu chorar. Esperamos que ele entenda nossa voz engasgada, e nos encolhemos ainda mais sobre a cama - bem antes de suspirarmos, alongarmos nossos membros e relaxar. A voz do outro soa ao telefone, e uma certa paz se desenvolve dentro de nós. As palavras erradas e desajeitadas do amigo nos sossegam porque, de repente, nos damos conta de que não estamos sós. E não há nada melhor que descobrir que não estamos sozinhos nesse mundo gigantesco de tecnologia e preocupação.
Sobre o tiramisù, bem, não tenho certeza de como aconteceu, mas penso que tenha sido um dia difícil para um certo alguém. Imagino que tenha chegado exausto àquele pequeno restaurante e sorrido à primeira garfada daquela sobremesa estranha. "Questo tirami sù" deve ter dito, e quis dizer, em italiano, "isto me faz feliz". Acredito em sua real felicidade naquele exato momento, mas há doçura que nos agrade além do paladar.
Mais que qualquer sobremesa do mundo, a amizade é essa coisa gostosa que alivia o coração.

Beijocolates,
#V

domingo, junho 29

Você(s)

Eu não tenho um remetente específico, então resolvi falar com você. Você talvez não seja exatamente o culpado, mas deve ter culpa por alguma coisa, ou eu não estaria falando com você. Eu nem sei por onde começar, porque você, apesar de não ter feito nada, fez muitas coisas... Tem muita coisa engasgada, sabe? E acho que eu preciso colocar pra fora, porque nem sempre o que a gente põe na boca dá pra engolir.
Você devia parar de sair com ela, porque eu nem gosto dela nem gosto de você com ela, e, se eu souber que você está com ela, quando me disse que não estaria com ela, eu vou ficar realmente chateada, mais chateada do que eu já estou. Estou chateada porque você ficou chateado por ela ter ficado chateada e ter dito que você a estava usando, porque acho que eu fui usada também. E ser usada não é bem a minha praia.
Ser usada não é a praia de ninguém. Eu sei que não era a sua intenção (nunca é, afinal), mas, nessa brincadeira, você acabou magoando muita gente... Lembra da desengonçada? Fico me perguntando se ela superou o seu namoro ou se ainda chora escondida pelos parques... Certo, me desculpe. Prometi que iria lhe perdoar, e cá estou eu, falando de seus erros.
Mas você tinha mesmo que fazer aquele drama todo por mensagens indiretas?
Eu não sei o que você quer, e, na maior parte do tempo, isso é bem desagradável pra mim. Eu tento, juro que tento, mas não consigo fazer mais sem uma bola de cristal ou um tarô de qualidade. As conversas rebabadas que você mantém me deixam desesperada, sem saber ao certo o que fazer. Devo continuar, ou pedir que pare? Me perdoe por ter pedido para parar, mas tanta gente para sem declarar que parou, que eu parei de esperar a parada parar por si própria, entende? Como quando você me deixou falando sozinha depois de ter chorado saudades no meu ouvido. Isso não é justo: me fazer sentir culpada. Eu não posso ser a culpada, porque a culpa me destruiria.
Assim como ela lhe destruiu... Eu vi você chorando, e fingi que estava tudo bem, mas, quando voltei correndo para casa, comecei a chorar, também, porque eu sabia que suas lágrimas eram por mim. Se você não queria ter corrompido aquele segredo, deveria ter sido um pouco mais cauteloso. Também fiquei preocupada quando lhe vi chorar tantas vezes e tão frequentemente, mas não tive vontade de chorar, porque eu sabia que aquelas lágrimas não eram para mim. Talvez tudo fosse melhor se você deixasse que eu visse as suas lágrimas, e, se me fizesse entender a razão do choro, eu poderia enxugá-las, e você não seria mais julgado como é, nem ficaria tão chateado quando descobrisse que estava sendo julgado.
Eu adoraria abraçar você, mas tenho medo dos destinos que um abraço pode ter. Eu tenho medo de pensar demais sobre abraços, ou sobre beijos, mas nada me amedontra tanto quanto pensar sobre os seus abraços. Você não deveria ter estragado o meu momento mágico, e você estragou. Eu também estraguei, porque participei do momento errado, mas isso não justifica nada, porque você só estava triste por ela pensar que você a usa - e ela está certa -, mas não me deixou ver a sua vontade de chorar.
Seria mais fácil ter dito a verdade, não acha?
Estou preocupada com você, porque você quer casar com ela, mas ela não passa um dia sem chorar ou beber alguma coisa. Ela é uma pessoa complicada, não é culpa sua. A culpa só é sua se você admitir que a está usando. Então pare de usar. Deixe ela passar, se não gostar de você, e encontre a pessoa que gaste horas de sono pensando em você. Ame-se a si próprio, com todas as redundâncias possíveis, e sorria para a possibilidade de tê-la, ter essa garota especial, a do primeiro beijo, por perto.
Estou torcendo para a sua namorada não passar um xaveco na minha melhor amiga uma segunda vez.
Você não existe, mas seria engraçado se existisse. Porque, com tantos remendos alheios, acabaria transformando-se em um buraco negro. Ver pessoas transformarem-se em buracos negros não deve ser particularmente engraçado, principalmente se estivermos a pouca distância quando tudo for engolido. Agora, chega, preciso ir. Espero que você sonhe comigo, ou que eu não perturbe seu sono. Tendo a certeza de um pesadelo com você, desejo apenas que nossa noite seja doce, como eram aqueles abraços gelados de novembro...

"To ask you this much is just a matter of trust, not an affront: what do you want?" - Gotye

Beijocolates,
#V

sexta-feira, junho 13

Coisa

À medida que revelo a boa coisa, o bom da coisa se esvai.
Não sei se penso na coisa, para por energia na coisa, ou se finjo esquecer a coisa, para me surpreender se a coisa acontecer ou me mostrar indiferente ao fracasso da coisa.
Eu queria que a coisa fosse um sucesso, mas não estaria pronta se a coisa não o fosse.
Vivo pensando em não pensar na coisa, desde que a coisa aconteceu.
Será que você também pensa na coisa?
Uma certeza sobre a coisa: a coisa é a coisa e jamais poderá ser uma não-coisa.
Uma incerteza sobre a coisa: a coisa existe?
Revejo a coisa muitas vezes, mas cada vez é uma coisa diferente - às vezes a coisa é fantástica, às vezes a coisa é ordinária e irrelevante.
Eu só saberei se a coisa existe quando a coisa acontecer de novo, e eu não vou querer contar a ninguém, porque, à medida que revelo a boa coisa, o bom da coisa se esvai, e eu tenho medo que a coisa se esvaia junto.
A coisa primeiramente foi muito divertida, mas só será a verdadeira boa coisa se você também estiver pensando nela nesta sexta-feira.
Eu estou tentando não pensar na coisa, mas a coisa é mágica; a magia não se desapega da coisa e eu não me desapego da magia.
Não querer pensar na coisa é como não querer dormir afim de não sonhar. Só que não precisamos estar dormindo para sonhar, então a prevenção é inútil.
O tamanho da coisa é relativo à sua importância: para alguns, a coisa pode ser minúscula, mas, para mim, que vi a coisa inteira, é razoavelmente grande.
Você acha a coisa minúscula?
A relatividade da coisa só vai acabar quando eu souber o que você acha da coisa, e então você vai sorrir ou fazer uma careta, e eu vou saber o que você tem a dizer sobre a coisa.
Talvez demore para a coisa reprisar. e, enquanto a coisa não acontece, eu tento não pensar - afinal, já pensei demais na coisa: fiz um texto sobre ela.

"Coisas que a gente nem pensa, que são tão imensas, são a parte de nós dois." - Sal Da Vinci

beijocolates,

#V

quinta-feira, março 13

Praxe

Pensei que pudesse passar o resto de minha vida sem ele. Descobri, angustiada, que não posso esquecê-lo: o amei.

O amor é um tanto desgraçado: me fez feridas, me viu chorar e me chamou à atenção quando quase me distraí. Eu queria estar distraída. Mas o amor retificou sua existência dentro de mim, desmerecendo todas as minhas vontades.

Não se engane, remetendo meu amor à paixão que tem em mente: é amor-amor, o que eu sinto. Se não fosse amor, eu me teria distraído, mas não pude, você sabe, esta parte já lhe contei.

O amor é eterno e incondicional. A ele, não importa se o amante está machucado, seguirá firme, forte e voluptuoso. Também faz-se de cego para as imprudências cometidas pelo amado, perdoando-o a qualquer custo. O amor é, por isso, um tanto estúpido.

O amor é inevitável, incontrolável e irremediável: uma vez feito o amor, está feito. O amor nunca assistiu a "Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças", mas teria abominado a hipótese do filme. Ele não nos deixa esquecer de ninguém que nos tenha provocado ternura.

Eu já conversei muitas vezes com o amor, mas ainda não o entendo muito bem. Talvez, para poder entender o amor, eu precise estar pura de toda a minha vida e voltar a ser um bebê. Os bebês não sabem o que Sócrates pensava sobre o amor, e talvez por isso já amem como se deve amar e sejam, por essência, amor. Pena que não saibam falar - embora, se soubessem, talvez, já não fossem puramente amor.

Quis não me importar, mas descobri que me importo, sim, com o amado. O amado, por vezes, se mostrou tão estúpido e desgraçado quanto o amor, mas, assim como amo o amor, percebi que o amo também.

Há amados, como esse meu amado, que assemelham-se bastante àqueles lindos pesos de papel. Não fazem nada, não têm lugar definido, não são muito úteis, mas, ainda que não usemos pilhas de papéis, o mantemos por perto, ainda que perdidos dentro de alguma das caixas que só tornaremos a abrir daqui a alguns anos, e fazemos isso por amor.

Se amar fosse tão bom para quem ama, ser um amante em boca popular não seria motivo de julgamento.

Amar não é fácil: dói, e dói muito. A dor do amor, porém, também faz crescer o amor. A saudade, a nostalgia, a preocupação com o outro: amor. Amor que acresce a si e à alma.

O amor não é mau por inteiro, não me entenda mal. O amor é um sujeito complicado e conviver com ele, às vezes, pode ser bastante cansativo, é verdade. O amor dá mancadas, erra, e deixa tudo por isso mesmo.

O amor parece uma criança - e até porta-se como uma. Toda criança precisa de atenção e cuidado, toma o nosso tempo, nos deixa estressados, rala os joelhos, pede uma sobremesa, chora, fala e faz muito sem pensar em possíveis consequências e toma um grande espaço em nossa vida. Mas basta um único sorriso, e já esquecemos de cada penitência. E esquecemos porque cumprimos a primeira necessidade de uma criança: lhe demos amor.


"A partir desta data,
Aquela mágoa sem remédio
É considerada nula
E sobre ela, silêncio perpétuo."
- Paulo Leminsk


beijocolates,
#V

terça-feira, fevereiro 4

Três Pontos

Gostosa mergulhou os pés na piscina aquecida e surpreendeu-se com a memória distante que voltou a lhe perturbar: o calor de dois corpos na água gelada, o beijo intercalado pelo bater de dentes. Suspirou, pensativa, e voltou a atenção aos amigos dispostos pelo gramado.
O coração de Desengonçada vagava por uma cena similar, de natureza igualmente sigilosa. Pousou os olhos sobre Babaca e deixou-se abater por arrepios que eriçavam os pelos de sua nuca. Os risos extravagantes chamaram-na para a realidade, por mais que desejasse ainda vagar por seus segredos.
Um sorriso tímido formou-se no rosto de Gostosa, delineando a distração prazerosa que tomava seus devaneios. Encontrou um brilho conhecido nos olhos de Desengonçada, mas evitou encarar o ponto em que eles estavam fixados.
Babaca ergueu-se, sem sequer pedir licença, e afastou-se dramaticamente do pequeno grupo. Desengonçada remexeu-se, incomodada; "Deixe ir." Gostosa engoliu em seco, propositadamente indiferente, sem anular a confusão aparente de Desengonçada. Esperou pouquíssimos minutos antes de declarar procura e lamentou a companhia de Desengonçada.
Babaca era bastante esquisito - sempre foi e, provavelmente, sempre seria. De repente, tinha o saco cheio com toda aquela felicidade que não lhe pertencia. Observava o pouco movimento do breu noturno quando uma voz doce, falha e aguda o interrompeu: "Não seja um esquisitão!"
Não era o timbre correto, pois ele sequer titubeou sobre os pés. Permaneceu imóvel, encarando lamparinas distantes no céu - adorava contemplar estrelas. Só depois de muito esforço em vão, Desengonçada calou-se.
Gostosa aproximou-se vagarosamente, sem jamais balbuciar qualquer coisa. Lembrou-se de um determinado momento que seguiu uma confissão de sonhos comuns, e sentiu as mãos masculinas sobre as suas.
Um mal estar tomou o corpo de Desengonçada enquanto acompanhava a imobilidade dos dois. Por que Babaca não lhe dava uma chance, depois de tudo o que já haviam vivido juntos, depois de tudo aquilo?
"Vamos sair, está frio aqui" - o maxilar de Gostosa estava travado.
"Não quero sair, quero ficar com você."
Os pensamentos de Babaca estavam embaralhados. Ele sentiu Desengonçada ausentar-se sem pronunciar palavra e assim permanecia ainda. Não estava orgulhoso de suas ações passadas. Deixou os braços caírem ao lado do tronco ao fim do enlace de Gostosa, sem se incomodar muito com qualquer coisa. Enamorado dos vestígios de luz morta inertes dispostos ao léu pela infinitude do universo, admirava a pouca relevância de todos os problemas que os cercavam.
As maçãs faciais de Gostosa tornaram-se rubras ao recordar um desastroso beijo final - ah, se soubéssemos quão importantes eram os últimos feitos...
"Tudo bem?" Gostosa enfim rompeu o silêncio.
Desengonçada não entendia o que falavam, mas a abertura que Babaca dava à outra a escandalizava. Era a ela, e não a Gostosa, que ele devia revelar seus pesares. Moveu-se com cautela, temendo que a descobrissem, e esperou testemunhar o que viria.
Veio. Machucou mais do que Desengonçada previra. Recuou, escondendo lágrimas entre arbustos, e preparou-se para retornar ao gramado. "Ela o alcança sem esforço..."
Gostosa retribuiu o toque de lábios. O amara tão desesperadamente... e não mais. As bocas clamavam calmaria em meio à tempestade. "Não mais, não mais." A percepção daquele olhar a assaltava constantemente, a incomodava. Desmanchou o beijo; precisavam voltar.
Gargalhadas atraíram a atenção de Desengonçada ao casal que dirigia-se a ela e não pôde aguentar mais um segundo sequer. Levantou-se de imediato e esperou a umidade surgir em sua face.
O conforto não saudou Gostosa. Sentia o erro gritar dentro de si, mártir. Quão distantes estavam as estrelas de suas mãos? Por que não as podia tocar? Aquele que mais amava saiu de seu campo de visão, seguindo aquela que ele amava. Estavam todos preocupados com Desengonçada, e o bom humor de Babaca esvaíra-se - o que tinha feito, depois de tudo aquilo?
Gostosa mergulhou os pés na piscina aquecida e surpreendeu-se com a epifania sobre ela própria. Dedilhou a água e acarinhou seu ego, desprendendo-se do tempo de então. Viajava por súplicas de amor, traições reveladas e abraços reconfortantes. Imaginou como seria agradável ser abraçada e contentou-se pela inexistência de braços dispostos a tal. Em uma historia em que o amor da desengonçada pelo babaca não é correspondido, a culpa não é dele ou dos hábitos pouco atraentes dela, mas da gostosa que não deixa de mais facilmente conquistar o babaca.
Os soluços de lástima ecoavam em algum lugar. Gostosa só podia ouvir a própria respiração e sentir o afago de seus sonhos.

"Claro, ela tem tudo aquilo, mas é isso mesmo que você quer?" - Adele

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quinta-feira, janeiro 16

Teste 100

Eu jamais poderia ter imaginado que, no teste final, escreveria o que estou prestes a escrever. Apesar disso, não me surpreendo o suficiente - se estamos em constante mudança, a Victoria de hoje não deveria chocar tanto a Victoria de dois anos atrás. Então, dois anos depois de anunciar a abertura de cem testes inconsequentes, repito o tópico de forma diferente...
A CULPA DE NOZ
Um peso parece latejar em todo o nosso ser. Pesa, pesa, pesa. A visão é comprometida, torna-se turva - e surgem vozes secas a consolar lágrimas reais ou ilusórias. "A culpa não é sua." Acreditamos, projetando mágoa a outro autor do fracasso. A culpa, afinal, nem sempre é minha. Nessas palavras que viraram provérbios e ditados populares, encontramos o conforto de uma mentira. Negligenciamos a responsabilidade e esquecemos que, em vezes alternadas ou quase sempre, a culpa é, realmente, nossa.
Fracasso não se trata de errar. Trata-se, simplesmente, de não acertar.
O que é certo só é encontrado após quantidade significativa de tentativas. Experiências, testes, riscos a serem tomados. Quando não conseguimos enfrentar nossos desejos, surge uma frustração estranha por nossa própria existência. Culpa e arrependimento se confundem com frequência - porque fizemos o que não queríamos ter feito e deixamos de fazer o que queríamos.
Não basta ser cabeça aberta e ficar a mercê do outro - é preciso mostrar nossa essência àqueles que estão conosco. Aqui falha a teoria que separa razão e emoção. Como pensar rápido e encontrar uma solução a um problema completamente passional, sem deixar que a sensibilidade nos afete de qualquer maneira? Como tomar uma decisão imprudente, sem avaliar minimamente a situação que se desdobra perante nós?
Talvez a Psicologia já tenha estudado grande parte da culpa do ser humano - fatores de maioridade mental, lucidez, ou sei lá mais o quê. Lamento desapontá-lo - lamento, sinceramente, pois fiquei deslumbrada com seus hábitos -, mas não estou familiarizada com qualquer teoria proposta por Freud, Nietzsche ou um outro que fuja ao clichê. Estou, porém, bastante familiarizada com minhas próprias oscilações de humor, com meus próprios sonhos, com meu próprio labirinto emocional.
Penso que todos somos iguais (em potencial). Qualquer um de nós pode acordar mal humorado ou duvidar da existência de Deus. Qualquer um de nós pode se sentir inseguro ou rejeitado, e igualmente sentir-se bem consigo mesmo. Qualquer um de nós pode esconder lágrimas ou autoria de lindos sorrisos. Qualquer um de nós pode se sentir esquecido, traído, deslocado.
E qualquer um de nós pode ser o herói de qualquer outro de nós.
Eu descobri algo fantástico ao longo dos noventa e nove testes que me trouxeram até aqui: descobri que, como Me. Agathe anunciou certa vez, "nós sempre podemos mais do que imaginamos." Aprendi que nós mesmos impomos obstáculos a nossas trilhas e que, bem como os instalamos, podemos retirá-los. Quando deixamos cones laranja obstruírem a entrada de pessoas em nossas vidas, terminamos voltando à tristeza e à solidão sem ciência de um porquê.
É difícil falar - mas é preciso falar.
O falso sufocamento que impede concentração e coragem de nossa parte é, além de medo, orgulho. Um medo de ferir o nosso orgulho. Se pudéssemos ignorar o engasgo em nossa garganta e ritmar respirações longas e pausadas, conseguiríamos, no mínimo, uma chance de escutar. É importante afastarmo-nos brevemente, analisar o quadro no qual nos encontramos e buscar uma real solução ao embaraço que temos à frente.
Escutar o quê? Há vezes em que se trata de uma música. Há outras em que se trata de um longo casamento marcado por desconfiança, mais em que se trata de um abraço, mais em que se trata de um mal entendido, mais em que se trata de medo. Às vezes, um sorriso já basta. Às vezes, um sorriso transborda - extrapola, inunda, expõe.
Não há certezas nos riscos conjuntos. Vivemos em diálogo, sensíveis a respostas improvisadas. Como vivos estão sujeitos à morte, os sucedidos estão sensíveis a fracassos - é natural. O conhecimento popular e o senso comum que passam como herança familiar só é apreendido quando posto em prática. Precisamos sangrar, sentir a dor, entender o que machuca - e então fazer sarar.
Melodramas circenses improvisados à beira da piscina ocultam o drama real como palavrões escondem o sofrimento de quem os pronuncia em oportunidades críticas. Mas por que remoer o que já foi moído?

No dia 16 de janeiro de 2014, às 22:22,  estava me sentindo culpada e arrependida.
No dia 16 de janeiro de 2014, às 23:37, estou determinada a lutar por minha própria causa.

"Someone finds salvation in everyone and another, only pain... to be yourself is all that you can do" - Audioslave

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segunda-feira, novembro 11

Teste 097

Seu cheiro me faz mal. Porque me faz lembrar da amizade que se esgotou entre nós. Deixamos o rio correr em uma cascata à qual não nos atiraremos - não sei se tem medo de altura.
Você sentiu? Ouviu? Viu acontecer? Concordo: foi rápido demais. Como pude segurar com tanta cautela algo invisível que esvaiu-se repentinamente de meus dedos e zelo?
Deixou de existir. Percebi em seu olhar fixo e alarmado, quando afastou-se bruscamente. Tentei buscar você. Era tarde demais.
Sonhos estranhos. Desconhecidos. Trocamos olhares e palavras educadas eventualmente, mas por quê? Sempre soube que era mal educado...
O perfume impregnado em minhas roupas me torturam. Quero que saia de mim - por que não sai? Parecia decidido a ausentar-se. Sequer olhou para trás ao ir embora. Nem mesmo uma centelha de arrependimento fez brilhar seus olhos hostis. Lamento. Lamento profundamente por não mais fundamentar conforto em seu, nosso abraço - rijo, forçado. Quem é o culpado?
Não sei.
De onde vem o aroma? Por que não o encontro para usá-lo em lembrança masoquista? Não o encontro nem o perco. Permaneço estagnada no que é morno e desagradável. No incerto. E, por essas incertezas, não sei o que fazer. Não sei que rumo tomar. Não mais serei rei, rirei, chorar - irei?
Não sei, não sei...

"Te tenho amor, te tenho horror, te faço amor..." - Raul Seixas

Beijocolates,

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segunda-feira, outubro 28

Teste 096

Mais uma vez, que conste: os nomes são meramente ilustrativos. Somos eternas crianças, não conseguimos montar uma boa visão sem figuras, ao fim das contas.

ACASOS
mil acasos me levam a você...

Prometi a mim mesma que não mais me torturaria com lindas historias de romance alheio, mas, temendo ser hipócrita por isso, não pude resistir à reflexão sobre esse passado ato de amor. Comecei a enxergar o róseo com maior empatia, sorrir por beijos verdadeiros que não eram depositados em minha boca; sinto na contemplação de gestos carinhosos um sincero contentamento.
Houve, evidentemente, um desses imprevistos maravilhosos que me encantou bastante. Por ele, você lê as palavras que escrevi há tempo com um sorriso satisfeito no rosto. Por ele, fui seduzida aos sonhos que nos escapam à vista, esperançosa a realidades iminentes.

Surgiu sem motivos aparentes, com os ouvidos entupidos por bolinhas de guardanapo. A música alta não causava apreço significativo aos que se reuniam ali.
"Ei!" virou-se, desobstruindo audição. "Teu nome é Alfredo?"
A confusão escrevia-se em seu rosto: "Não, é Jáder..."
"Eu posso te abraçar?"


Entre tantos ditados e provérbios e parábolas e lendas e frases-de-vovó, há algo a dizer que as melhores coisas chegam sem aviso prévio, mas isso não quer dizer que não já estávamos esperando. Estamos sempre a postos para a chegada de nossos sonhos - às vezes, é verdade, somos surpreendidos pela realização daqueles cuja urgência não nos perturbava. Idealizamos mil modos a cumprir almeijo, embora quase sempre acabemos conduzidos pela arritmia em nosso peito.
Fingimos surpresa a nós mesmos quando a bondade invade nossas vidas. Não nos surpreendemos de fato. Pacientemente, havíamos aguardado a boa nova por eternidades, em conta do desejo por ela. Calculamos fórmulas sem fim à deriva de pensamentos que nos tolhe o sono. O destino, porém, nos prega peças ao sabotar todos os nossos planos - o faz com inteligência nobre.

"O meu nome é Magnólia" comentou, rindo da feição estranha com a qual ele recebeu a informação.
Repentinamente, os olhos de Jáder arregalaram-se, como experimentasse um raro momento de epifania: "Magnólia?" A situação agravava-se em divertimento. "Como a flor? M-A-G-N-O e o resto todo?"
"Assim se escreve o meu nome" ela riu, inocente - ou ignorante? - a respeito dos sorrisos futuramente gerados em mutualidade.


É engraçada, essa coisa toda sobre o destino - sempre o julgamos único culpado por tudo o que nos acontece. É um sentimento estoico, bem como deixar a felicidade para mais tarde - tarde esta que jamais chegará -: aceitar o que nos acontece com conformismo.
Alguma vez disse a um amigo que o que há de ser será apenas se ousarmos fazê-lo ser, pois jamais será sozinho. Se esperamos o ser ser, corremos o risco de nunca vê-lo acontecer - assim, não será o que jamais pôde ser. São ideias confusas, mas expressivas.

Esperaram a semana inteira por aquele momento. Magnólia envolveu seu pescoço com braços ansiosos e suspirou profundamente - se sentia bem. Jáder sorriu, sorriu - se sentia bem, também.
Beijaram-se - com fervor, paixão e carinho, em perfeita e incomum coerência.

Desistir não é uma opção, no fim das contas. Quando realmente queremos, lutamos; quando não, sequer pensamos sobre o assunto. Sobre isso, nas palavras de um alguém qualquer: "se você desejá-la, encontrará meios a tê-la; se não, encontrará motivos a recusá-la."
É verdade, é verdade: distante daqueles dois, dispostos a tornarem-se um só, voltei-me às baladas antigas cujas batidas nos conduzem sem nossa permissão e sorri, cúmplice de mim mesma - me era impossível não transbordar em alegria por eles.

"Noventa por cento do sucesso se baseia simplesmente na insistência." - Woody Allen

Beijocolates,
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sábado, outubro 19

Teste 095

Beije.
Beije lenta e suavemente, à medida que os raios de sol contornam nuvens e pálpebras - cerradas.

Sorria.
Sorria sincera e vagarosamente, expresse a eternidade em lábios e dentes.

Abrace.
Abrace firme e demoradamente, sentindo a embriaguez de seu perfume próprio.

Ria.
Ria confusa e distraidamente, porque nada mais importa.

Nada.
Nada além de beijos, segredos e o que parece nos embalar em ritmo imaginário ao palpitar de nossa juventude.

"Me abraça forte e me diz mais uma vez que já estamos distantes de tudo..." - Renato Russo

Beijocolates,
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sexta-feira, agosto 30

Teste 093

"Às vezes você conhece uma pessoa maravilhosa, mas apenas por um rápido instante. Talvez em férias, num trem ou até numa fila de ônibus. E essa pessoa toca sua vida por um instante mas de uma maneira especial. E, em vez de lamentar o fato de ela não poder ficar com você por mais tempo ou por você não ter a oportunidade de conhecê-la melhor, não é mais sensato ficar satisfeito por ter chegado a conhecê-la um dia?" - Marian Keyes

A DITADURA DA RAZÃO

Um calor que se estende por todo o corpo - o rosto parece estar em chamas. Hesitamos e nos pomos a ponderar: faço? não faço? e sequer ousamos dar um primeiro ou segundo passo.
Não entendo por que temos tanto medo dos outros.
É um tanto difícil enxergar que somos todos iguais. Quero dizer: eu penso, discuto, temo, imagino, sonho e tenho meus motivos para tudo isso, mas só conheço o superficial do que é alheio a meus dilemas pessoais. O rosto visto sem uso de espelho é vago - as atitudes, os modos de ser, são pouco conhecidos por nós. Funcionamos de modo particular, e entendemos nosso próprio mecanismo, mas o outro? O outro nos é desconhecido. Cada um tem seus sonhos e razões, medos e dilemas - e precisa de compreensão. Uma era de individualismo exacerbado talvez nos cegue um pouco a isso tudo - o que é uma pena, pois, enquanto seres sociais e mutantes, precisamos do contato com o outro, principalmente com aqueles que não pensam como nós. Nos apegamos muito ao comodismo, aos mesmos amigos de sempre, às pessoas que não ofendem nossos princípios - mas o que demais há nisso? É muito fácil ouvir e curtir as mesmas músicas que nosso círculo, mas crescemos tão mais ao provar do desconhecido e prejulgado!
Temos muito receio em falar com estranhos, e por estranho me refiro àquela pessoa que está sozinha, com o olhar perdido, provavelmente tão desconfortável quanto nós estaríamos em sua situação. É um qualquer, como qualquer um de nós - e não nos arriscamos por quê?
Humanos não mordem, geralmente.
Ei, racionalismo, dá um tempo! Se a gente perder tempo por medo, o momento passa e, quando a coragem vem, já é tarde demais. Deixa... acontecer.

IMPULSÃO À FELICIDADE

É muito mais divertido agir imprudentemente, sem calcular o que falar, sem esperar o nervosismo passar.
Qualquer assunto é assunto - jamais haverá "nada" a ser dito, pois mesmo o nada pode ser discutido. As pessoas são seres pensantes e incríveis. Experimente falar com aquela com quem sempre quis conversar e entenderá o que estou falando: o primeiro contato é excitante, o momento de descoberta. Todos têm um potencial verdadeiramente extraordinário.
Engaje em uma conversa que dure dois minutos ou duas horas e já estará mais rico em espírito. Sempre nos surpreendemos com o encontro de mundos particulares -  e como não? Entre tantos indivíduos que passam por nossas vidas com a riqueza de um "bom dia", haverão também aqueles que farão culminar um aceno breve em relação firme, seja ela de qual gênero for.
Se abra ao impulso, ao desejo primário de se comunicar verbalmente, e verá quão bom, libertador e construtivo poderá ser algo que começou com um simples "olá". A imprudência, em medida certa, nos encaminha ao que nos é, factualmente, agradável.
7,2 bilhões de pessoas ocupam o planeta Terra; são 7,2 bilhões de mundos a serem explorados. É provável que nunca consigamos investigar um a um, mas por que não tentar? 

Beijocolates,
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segunda-feira, agosto 19

Teste 092

Amor aos pedaços.
 
1)

2)
"Se o navio afundar, afundamos juntos - se tivermos de morrer esta noite, seremos eu e você para sempre, juntos, até que nos acabemos; eu estarei ao seu lado, mesmo que estejamos do outro lado." - Eli Lieb
 
3)
Quem somos nós para amar? - frágeis, imaturos.
Quem somos nós para não amar? - frágeis, imaturos.
Frágeis, imaturos, poetas natos.
Quebradiços, nos reconstruímos: esbanjamos vitalidade e desespero.
Pulsa, pulsa, pulsa.
Pulsa com intensidade - e cada célula é banhada em vida.
Jovens, amantes ou loucos.
Jovens, amantes e loucos.
 
4)
A iminência de ser feliz em conjunto, um abismo temporal.
O início reprimido do belo - reprimido por quê?
Quis. Quis intensamente.
Quis que quisesse tanto quanto eu.
Lutar por algo cuja visão foge de horizontes é exaustivo - lutamos?
Me contento - exausta.
Sorrindo ao imaginar se minha boca sentiria falta do gosto da sua.
 
5)
Eu ainda lembro de você nos dias chuvosos.
Por bobagem, penso quem seríamos - se eu houvesse dito.
O que foi? O que houve?
Decifrar gestos em ações - complexos.
Penetrar seus sonhos como invadiu os meus.
 
6)
"Insista, persista!" - desisto.
Não por raiva, medo ou mágoa: por cansaço.
Talvez, não agora.
Quando deva ser, se houver de ser.
Será.
 
Beijocolates,
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