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segunda-feira, janeiro 19

Cor-de-dois

Dizem que o nome da cor não é igual ao da fruta - tem que fazer referência à fruta quando não é dela que a gente tá falando. É "cor-de-laranja", se a Laranja não estiver presente. Nada mais nesse mundo - nada além dos bagos suculentos e cheios de vitamina C -, teria o direito de tomar aquela tonalidade para si ou alegar que é mais sua que de qualquer outrem.
Pois bem. Naquela noite, a Lua foi ousada o suficiente.
Ninguém esperaria uma postura como essa vinda de um astro tão terno e conhecido, pois não era rotineiro tê-lo como ladrão - talvez roubasse do Sol um pouco mais que a quantia ofertada de brilho em ocasiões especiais, mas uma cor?
Apesar das evidências, porém, não sei se posso classificar o sequestro como um crime, porque a voz da contrariedade não se fez ouvir.
O mar respirava calmamente, tomando e devolvendo ondas; fazendo a água molhar a areia fina e já úmida da praia. Ele refletia a maravilha que acontecia sobre si, em meio ao breu noturno, e tudo mais refletia o delito fantástico: o mar, as nuvens, as estrelas, o sorriso dos dois e o calcário sob seus pés. Envoltos em um abraço, sentiam a cor invadi-los, vibrante e harmoniosa, enquanto espalhava-se por aquele céu nublado de dezembro.
A Lua estava baixa e volumosa. Calada, contemplava os olhares que a admiravam compassivamente. Ela tinha uma remota consciência da própria beleza, mas estava extasiada com cada abraço iluminado por uma cor própria... a cor-de-dois.

Beijocolates,
#V

segunda-feira, agosto 5

Teste 091

Tendo chegado da Jornada Mundial da Juventude e ainda com gritos de guerra me assaltando pensamentos, poderia muito bem dissertar sobre a experiência espiritual que vivi comentando a taquicardia ao perceber uma multidão, vinda de países cuja existência me era desconhecida, unida por um motivo nobre: a fé. Mas não é para isso que estou aqui - não, não: quero escrever, ainda me recuperando com comida caseira e boas horas de sono em minha própria cama, quero falar sobre o que andam me falando.
OUVI DIZER...
#1 Que meus queridos não fazem parte do mundo real.
Sim, isso me deixou um pouco confusa. Algumas pessoas justificam atos rudes com intimidade e, quando questionadas, permanecem firmes com argumentos sobre como é melhor que sejamos destratados logo por nossos menores círculos, porque assim estaremos preparados para toda a brutalidade que enfrentaremos mais à frente. Devemos pensar um pouco sobre isso, afinal, não são poucos a dizer que carinho desprepara para a realidade, mas creio que não estão com a razão!
Não é maior a dor ao ouvir palavras bruscas de quem queremos bem do que aquela ao ouvir as mesmas palavras de um estranho qualquer? Me machuca muito mais receber críticas de quem me conhece bem do que de alguém que me flagrou em erro por alguns segundos de vida. Ora, que há de saber sobre mim um mero estressado, enquanto partilho segredos e bons momentos com meus amigos?
Em minha tão pouco humilde opinião, devemos sempre AMAR quem amamos, sem pecar em medo de redundância. Se formos amados ao máximo, desencadearemos um magnânimo ciclo perfeito: ansiaremos por amar mais os que nos têm amado, e estes amarão, e amararemos mesmo aqueles que participam brevemente de nossas vidas, e talvez eles amem também. A caridade elevada fará tão bem...
O mundo real é maligno se assim o enxergamos. A qualquer modo, haverá sempre alguém a nos acolher em abraços reparadores. Nossos queridos, familiares e amigos, são nossos portos seguros. A quem devemos recorrer em alegria e tristeza, certos em ter amparo. Não estão lá para amaciar-nos, como quem amacia um bife, e preparar-nos para a tão dura realidade, mas para serem nossa mais linda, pura e sublime realidade.

#2 Que abraços são pequenas orações.
O que me encheu de alegria! O discurso foi um pouco mais longo, mas acredito que esta frase se destaque e traduza muito do que o gesto tão simples realmente é. Há várias maneiras de abraçar, é verdade. Existem abraços que nos dissolvem e abraços que libertam lágrimas - não um enlace de braços qualquer, mas uma rápida comunhão de almas. Tornou-se algo corriqueiro, mas o especial é sensível.
Abraços dignos não deveriam acompanhar tapinhas nas costas - odeio tapinhas nas costas. Abraços dignos deveriam ser fortes e duradouros, para que cada palavra indizível seja ouvida e respondida. Ah, tantos abraços, e tanto num gesto simplório de amor!

#3 Que esquecerei pessoas importantes.
Eu não sei bem o que faz pessoas tornarem-se importantes. Tampouco perco tempo a perceber ausência de especialidade, só vejo o que está em destaque, em negrito, marcado em tinta colorida, sem motivo aparente. Pessoas especiais ocupam-nos pensamentos e nos fazem sorrir de um jeito gostoso. São companhia boa, não enjoativa, e que não requer contato constante. Os encontros entre você e quem "brilha no escuro" podem ser espaçados em meses, sem sequelar relacionamento em nível qualquer, pois, ainda assim, ela brilhará, e seu brilho parecerá lhe fazer cócegas.
A frase "Você sequer lembrará meu nome." foi proferida por uma boca cujo dono tenho em carinho. A princípio, que fique claro: nomes e fisionomias são meu campo forte (não é simplesmente maravilhoso reencontrar alguém na rua e perceber mudanças de causa temporal em corpo e energia, sem ser reconhecida?), ai de sua ousadia ao desrespeitá-lo!
Lembranças, como minha professora de Literatura há pouco falou, são nosso refúgio. Se não tivermos estas boas memórias a nos trazer felicidade em uma época em que lágrimas desgostosas nos cegam para a alegria, corremos o infinito risco de deixar a alma apodrecer. O passado nos ampara quando o presente, mesmo breve, é inóspito a nossos sonhos. Não apenas o bom passado acalenta nosso coração, mas também aquele que remete à tristeza - sabendo que já sofri e que, depois, sorri, renovo esperanças e bebo da certeza de que serei feliz outra vez. Alimentando-nos de sonhos e memórias, tendemos ao gozo eterno de cada instante.
Basta um esbarro de ombros - "desculpe!" - e a presença de cada um marcou a vida do outro. O esbarro, ínfimo contato momentâneo e ocasional, modificou caminhos, futuros e mesmo os genes de nossos filhos. Os acasos que modelam nossa existência, na verdade, não devem ser tão casuais quão pensa-se, e a mínima passagem de uma vida por outra já deixa sua marca em ambas. Tendo chegado ao ponto em que eu percebo e admito que você me marcou, acredito que seja importante e, sendo importante, é de difícil esquecimento. Sendo especial, espero de você o mais prolongado abraço e as palavras silenciosas mais ternas. Sendo especial, tenho atitudes suas registradas em mente e tinta, rosto em lápis e impressão, saudades em cenário e protagonismo.
Lhe direi uma coisa, porque sei que, enquanto ser humano, você, leitor, é especial - talvez não a mim, mas a alguém, e estou certa disto -: ainda que esqueçamos seu nome, recordaremos sua voz; ainda que esqueçamos sua voz, recordaremos suas palavras; ainda que esqueçamos suas palavras, recordaremos seu sorriso; e, ainda que esqueçamos tudo isso, recordaremos o bom sentimento que nos trazia com sua presença.
Lembranças, se não são eternas, são, certamente, duradouras. Porque transcendem o material, estão além do conhecido... Memórias se escondem em cada curva de nosso cérebro e, quando por bem, vêm à tona. Se confundem em tempos e nos surpreendem em horários inoportunos, anulando certezas e desenhando sorrisos em nossos rostos - ah, fotografias passadas...
Por agora, nos preocupemos em criar o passado que nos será célebre um dia.

#4 Que silêncios prolongados são carregados de sentimentos.
Sentimentos diversos - há diversos silêncios.
Há silêncios ternos, silêncios secretos, silêncios cúmplices, silêncios amorosos, silêncios impetuosos.
Há momentos nos quais sentimos uma necessidade tremenda de pronunciar algo, mas nada é dito - e a sensação parece atingir também a pessoa com a qual estamos; um silêncio no qual ambos desejem pronunciar verdades, mas se reprimam, quebrando a doçura da calmaria momentânea com inquietação pessoal, ainda que, não notoriamente, conjunta. Foi-me dito que haveria certeza do querer em tais situações - mas querer o que? Nos custa revelar. O que nos embriaga e nos faz bobos nos deixa, também, tímidos, mas, em sinceridade silenciosa, o que não é dito é sensível aos envolvidos.
Algumas pessoas comentaram que adorariam estar apaixonadas.
"Sinto falta de ansiar pela visão, pelo perfume de alguém" confessaram-me.
Sou partidária das paixonites e do calor que a gente sente só de pensar em um certo alguém, mas talvez argumente a favor por raramente estar apaixonada. O sentimento condicional, que depende do outro, nos deixa desconfortáveis. Passamos horas contra argumentando com nosso próprio umbigo: será que sim?, será que não? Somos dominados por uma incerteza que nos custa bastante - e seguimos em tortura, em pensamentos, julgando possibilidades e atrevimentos. Nos regulamos em tudo, nos transmutando ao agradável que parece desagradar o outro. Todavia, quando deslizamos um pouco e sentimos o rosto corar, abre-se um sorriso terno no rosto amado e aquela sensação assustadora e plena nos invade por completo, o estranho choque que percorre nossa espinha em ansiedade pelo toque, pela descarga do que é acumulado a cada retração de timidez. Se pudéssemos calar medos e nos entregar por inteiro...

#5 Que só é feliz quem tem coragem.
Uma verdade, por si só, contraditória, dita por quem não ouve os próprios conselhos, mas, ainda assim, verdade. Posso estar feliz, sem riscos, mas ainda sonhando com o que poderia alcançar sem o medo que tenho. Há sempre algo que sabemos que estamos perdendo, algo que desejamos, mas tentamos esquecer. Tentamos dizer a nós mesmos que o desejo dá e passa, mas, quando culmina em vontade, já não é facilmente ignorado.
É tão difícil abandonar receios... Woody Allen encaixa bem, em uma de suas produções, que "toda covardia vem do não amar". Podemos ficar um pouco chateados com sua colocação, mas jamais dizer que está mentindo. Quando o amor é real, faz com que negligenciemos quaisquer preocupações. O querer que consome expectativas traça meios e nos impulsiona ao abandono da incerteza.
Segundo alguns filósofos, a coragem é supervalorizada por uma historia de honra a guerreiros. Eu, por minha vez, acredito que coragem seja confiar em si próprio, e a autoconfiança é, sem dúvidas, uma porta larga à satisfação.
Mais importante que metodologia, porém, é objetivo, o que nos fará agir e quebrar barreiras, desafiar nossos próprios limites. Devemos sonhar. Sonhar bem alto e buscar realizar cada utopia particular. Se fracassarmos, saberemos quem procurar. As doces palavras consoladoras nos envolverão em uma aura de amor enlaçado, realizado, familiar. Em lembranças construídas e no acalento de um coração latente, habitará a certeza de que voltaremos a sorrir.
 

"O que eu ganho e o que eu perco, ninguém precisa saber." - Lulu Santos

Beijocolates,
#V

terça-feira, junho 19

Teste 054

AMAR OU NÃO AMAR:
EIS A QUESTÃO

Mas e os motivos pelos quais esta é indagada?
Prioridades ou medo?
Ei, você, que se magoou uma vez e jurou que jamais se apaixonaria desde então: quão lassas e falsas são essas promessas? Se tantos poetas e profetas já diziam que ninguém seria feliz nesta vida tendo amado um alguém, não me faço entender as razões ao discordar com realidades que todos tentamos esconder.
Pensamos naquele romance romântico, de fato - idelizado e perfeito, mesmo nas imperfeições.
Pois lhe digo uma coisa: não há como saber quem é certo ou quem é errado. Passamos a vida inteira tentando e errando, sofrendo e chorando pelo fracasso, mas - e sempre há um mais - por que ignorar a parte boa da coisa?
As cosquinhas no estômago que nem Freud explica, de onde surgem? Não me diga que não gosta da sensação; tenho certeza que não faria a tirolesa ou brincaria em balanços se o friozinho na barriga não lhe agradasse.
Sorrisos bobos fluindo e surgindo; risos sem motivo no meio de uma noite insone a encarar o teto, com o que justificá-las? Porque eu tenho certeza de que ele (o teto) não é TÃO interessante assim.
Tudo, de fato, fica mais bonito quando estamos com estas lentes apaixonadas; quem não amaria sentir-se feliz assim?
Então você me diz: "mas eu sei que não vai dar certo"; eu rebato: "quem é você, a Madame Zara, por acaso?"
Não é assim. Não topamos com alguém e descobrimos que aquela é a pessoa com a qual teremos filhos - NÃO! Aliás, qual seria a graça se fosse assim? O jogo da conquista é como qualquer outro. Tente se trancar por uma semana em seu quarto com um joystick e me diga os resultados - você lutou para zerar a pontuação, e agora? Vai continuar o jogo depois disso?
A conquista é feita, provada e comprovada, mas você não fica nela - há outras coisas além do nível 50, e você ficará ansioso até que o próximo jogo seja lançado, com novos desafios. Você passa por esta fase e então se pega debatendo consigo mesmo: "será"? - Bem, arrisque-se. Por menor que seja essa sua paixonite insandecida, é válida.
Segundo o casal Pease, a paixão dura, no máximo, 3 meses - tempo necessário para que o macho e a fêmea se conheçam e reproduzam (afinal, para que mais fomos feitos, não é mesmo?) -, depois disso vem a assimilação e depois a ciência não explica: imagine por quê. Só que depende de você, se vai dar certo ou não. Ver a pessoa que invade seus sonhos e não fazer nada? Você está é querendo que alguém de maior coragem aproxime-se, para que possa se torturar com o quão covarde é.
Depende unicamente de você, se vai dar certo ou não; da sua vontade.
Se o coração insiste em pulsar mais forte quando aquele alguém passa, não tente esconder: lute. Lute porque seu coração sozinho é apenas um órgão sem vida - ele precisa de você por inteiro para funcionar.
Conheceremos pessoas simpáticas nessa vida, nos apaixonaremos por muitas, encantaremos algumas e amaremos outras poucas, mas, se não tenho como garantir que não é você, leitor, que me fará sorrir sozinha em uma noite insone, não posso simplesmente descartar essa opção, entende? Não posso descartar nada.
É uma questão de prioridades? Definir que uma paixonite é pouco importante por não ser o "amor de sua vida" não me parece nem um pouco certo - afinal, paixonite só evolui a casório com um pouco de esforço.
Você se recusa a nadar e morrer na praia, mas perde um bom mergulho - e é tropeçando que aprendemos a cair.
Se formos parar para julgar o que é ou não é importante em nossas vidas vamos acabar entrando em um paradoxo desgastante: não somos nada e somos tudo - deste modo, como subjulgar algo que é tanto e ao mesmo tempo insignificante? -; ou, ainda pior, podemos perder o pouco tempo que temos - analisar a vida é deixar de vivê-la, se me permite dizer.
Abra seus olhos por um instante. Olhe aquela garota do outro lado da rua, com as mãos nos bolsos e ausente em consciência, esperando que um carro pare para que cruze a faixa de pedestres. Se te encanta tanto, não ponha e não crie razões para não apostar todas as suas fichas. Espere que ela levante o rosto, sorria, pergunte como foi o seu dia e vá em frente.
Tudo vale a pena - sem exceções.
E, no fim de tudo, o que nos forma e faz forte não é, de fato, achar o ser amado, mas procurá-lo.

"Quando o mundo tiver mostrado suas cartas, se estiver muito dificil, juntos poderemos consertar seu coração" - Rihanna

Beijocolates,
#V

sexta-feira, março 9

Teste 036

Outono.
O amor está no ar.
A maioria as pessoas me julgará esquisita por não atribuir a paixão à primavera.
As pessoas deveriam saber que "amor de primavera" é só para animais com período de gestação curto. Uma breve explicação: a atração fica em alta nove meses antes do verão, que é a estação mais propicia para a sobrevivência de um bebê - a natureza é sábia.
Milhares de casais me cercam; eu suspiro desajeitada.
A carência em mim nao cessa com um beijo como a tantos acontece.
Os desejos estão em abraços. Em sorrisos. Em cumplicidade. No amor, afinL.
Nao quero que me digam que minha alma gêmea está por vir, ou que os últimos serão os primeiros, ou o que quer que seja. Gosto de sofrer um pouquinho, sabe?
Um sofrimento controlado; como escutar músicas de dor de cotovelo quando se tem um relacionamento perfeito ou mesmo como quando se assiste a um filme de drama.
As lagrimas escorrem pela morte do personagem, mas, no fundo de seu inconsciente, sua alma comemora: "ao menos não fui eu."
É bom ser um pouco masoquista. Assim a alegria vem ainda melhor mais tarde.

"Sãoas águas de março fechando o verão, promessa de vida de meu coração" - Tom Jobim

Beijocolates,
#V

sábado, janeiro 14

Teste 021

A noite cai, eu sinto frio.
"Frio" - essa coisa que eu, enquanto nordestina, não sei bem o que é.
"Frio" - esse termo que eu uso para nomear a ausência do calor de seus braços.
Eu sinto falta do gosto de sua boca, e confesso que, às vezes, quando me deito em minha cama e fecho os olhos, os momentos que passamos juntos vêm todos à tona e assolam minha mente. Dominam minha cabeça, tomam meu espaço e invadem meus sonhos.
Dizer que esqueci do que houve entre nós sou eu mesma tentando me convencer disso. Mas quem sou eu para ocultar as borboletas que voam livremente por meu estômago cada vez que você sorri, cada vez que chama meu nome, cada vez que me abraça; ou para ocultar as bochechas que queimam sempre que me fala alguma verdade amável e sigilosa que eu pensei que fosse um segredo só meu?
Tenho saudades também do tempo em que éramos inconsequentes e ríamos sem parar sequer para respirar; do jeito como só você consegue estar eternamente com os cabelos completamente desgrenhados; da aflição que eu sentia sempre que me abraçava por trás para me assustar; das piadinhas sem graça que fazia com a situação.
As vezes em que me lançou aquele sorriso torto, ou mesmo quando simplesmente segurou nossas mãos: seria tão errado assim ainda gostar de você? Porque, por mais que eu tente fazer de você alguém respeitável e certo, ainda assim...

"Estranho é gostar tanto do seu All Star azul" - Cássia Éller

beijocolates,
#V