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terça-feira, fevereiro 4

Três Pontos

Gostosa mergulhou os pés na piscina aquecida e surpreendeu-se com a memória distante que voltou a lhe perturbar: o calor de dois corpos na água gelada, o beijo intercalado pelo bater de dentes. Suspirou, pensativa, e voltou a atenção aos amigos dispostos pelo gramado.
O coração de Desengonçada vagava por uma cena similar, de natureza igualmente sigilosa. Pousou os olhos sobre Babaca e deixou-se abater por arrepios que eriçavam os pelos de sua nuca. Os risos extravagantes chamaram-na para a realidade, por mais que desejasse ainda vagar por seus segredos.
Um sorriso tímido formou-se no rosto de Gostosa, delineando a distração prazerosa que tomava seus devaneios. Encontrou um brilho conhecido nos olhos de Desengonçada, mas evitou encarar o ponto em que eles estavam fixados.
Babaca ergueu-se, sem sequer pedir licença, e afastou-se dramaticamente do pequeno grupo. Desengonçada remexeu-se, incomodada; "Deixe ir." Gostosa engoliu em seco, propositadamente indiferente, sem anular a confusão aparente de Desengonçada. Esperou pouquíssimos minutos antes de declarar procura e lamentou a companhia de Desengonçada.
Babaca era bastante esquisito - sempre foi e, provavelmente, sempre seria. De repente, tinha o saco cheio com toda aquela felicidade que não lhe pertencia. Observava o pouco movimento do breu noturno quando uma voz doce, falha e aguda o interrompeu: "Não seja um esquisitão!"
Não era o timbre correto, pois ele sequer titubeou sobre os pés. Permaneceu imóvel, encarando lamparinas distantes no céu - adorava contemplar estrelas. Só depois de muito esforço em vão, Desengonçada calou-se.
Gostosa aproximou-se vagarosamente, sem jamais balbuciar qualquer coisa. Lembrou-se de um determinado momento que seguiu uma confissão de sonhos comuns, e sentiu as mãos masculinas sobre as suas.
Um mal estar tomou o corpo de Desengonçada enquanto acompanhava a imobilidade dos dois. Por que Babaca não lhe dava uma chance, depois de tudo o que já haviam vivido juntos, depois de tudo aquilo?
"Vamos sair, está frio aqui" - o maxilar de Gostosa estava travado.
"Não quero sair, quero ficar com você."
Os pensamentos de Babaca estavam embaralhados. Ele sentiu Desengonçada ausentar-se sem pronunciar palavra e assim permanecia ainda. Não estava orgulhoso de suas ações passadas. Deixou os braços caírem ao lado do tronco ao fim do enlace de Gostosa, sem se incomodar muito com qualquer coisa. Enamorado dos vestígios de luz morta inertes dispostos ao léu pela infinitude do universo, admirava a pouca relevância de todos os problemas que os cercavam.
As maçãs faciais de Gostosa tornaram-se rubras ao recordar um desastroso beijo final - ah, se soubéssemos quão importantes eram os últimos feitos...
"Tudo bem?" Gostosa enfim rompeu o silêncio.
Desengonçada não entendia o que falavam, mas a abertura que Babaca dava à outra a escandalizava. Era a ela, e não a Gostosa, que ele devia revelar seus pesares. Moveu-se com cautela, temendo que a descobrissem, e esperou testemunhar o que viria.
Veio. Machucou mais do que Desengonçada previra. Recuou, escondendo lágrimas entre arbustos, e preparou-se para retornar ao gramado. "Ela o alcança sem esforço..."
Gostosa retribuiu o toque de lábios. O amara tão desesperadamente... e não mais. As bocas clamavam calmaria em meio à tempestade. "Não mais, não mais." A percepção daquele olhar a assaltava constantemente, a incomodava. Desmanchou o beijo; precisavam voltar.
Gargalhadas atraíram a atenção de Desengonçada ao casal que dirigia-se a ela e não pôde aguentar mais um segundo sequer. Levantou-se de imediato e esperou a umidade surgir em sua face.
O conforto não saudou Gostosa. Sentia o erro gritar dentro de si, mártir. Quão distantes estavam as estrelas de suas mãos? Por que não as podia tocar? Aquele que mais amava saiu de seu campo de visão, seguindo aquela que ele amava. Estavam todos preocupados com Desengonçada, e o bom humor de Babaca esvaíra-se - o que tinha feito, depois de tudo aquilo?
Gostosa mergulhou os pés na piscina aquecida e surpreendeu-se com a epifania sobre ela própria. Dedilhou a água e acarinhou seu ego, desprendendo-se do tempo de então. Viajava por súplicas de amor, traições reveladas e abraços reconfortantes. Imaginou como seria agradável ser abraçada e contentou-se pela inexistência de braços dispostos a tal. Em uma historia em que o amor da desengonçada pelo babaca não é correspondido, a culpa não é dele ou dos hábitos pouco atraentes dela, mas da gostosa que não deixa de mais facilmente conquistar o babaca.
Os soluços de lástima ecoavam em algum lugar. Gostosa só podia ouvir a própria respiração e sentir o afago de seus sonhos.

"Claro, ela tem tudo aquilo, mas é isso mesmo que você quer?" - Adele

Beijocolates,
#V

segunda-feira, novembro 11

Teste 097

Seu cheiro me faz mal. Porque me faz lembrar da amizade que se esgotou entre nós. Deixamos o rio correr em uma cascata à qual não nos atiraremos - não sei se tem medo de altura.
Você sentiu? Ouviu? Viu acontecer? Concordo: foi rápido demais. Como pude segurar com tanta cautela algo invisível que esvaiu-se repentinamente de meus dedos e zelo?
Deixou de existir. Percebi em seu olhar fixo e alarmado, quando afastou-se bruscamente. Tentei buscar você. Era tarde demais.
Sonhos estranhos. Desconhecidos. Trocamos olhares e palavras educadas eventualmente, mas por quê? Sempre soube que era mal educado...
O perfume impregnado em minhas roupas me torturam. Quero que saia de mim - por que não sai? Parecia decidido a ausentar-se. Sequer olhou para trás ao ir embora. Nem mesmo uma centelha de arrependimento fez brilhar seus olhos hostis. Lamento. Lamento profundamente por não mais fundamentar conforto em seu, nosso abraço - rijo, forçado. Quem é o culpado?
Não sei.
De onde vem o aroma? Por que não o encontro para usá-lo em lembrança masoquista? Não o encontro nem o perco. Permaneço estagnada no que é morno e desagradável. No incerto. E, por essas incertezas, não sei o que fazer. Não sei que rumo tomar. Não mais serei rei, rirei, chorar - irei?
Não sei, não sei...

"Te tenho amor, te tenho horror, te faço amor..." - Raul Seixas

Beijocolates,

#V

segunda-feira, julho 15

Teste 089

A pele arrepiou-se por completo ao dedilhar suave em sua nuca. Pareciam estar envoltos por uma grande bolha, distraídos do mundo exterior - ali, na troca de olhares fumegantes, residia o puro amor, em um universo à parte. Suas unhas percorreram o comprimento de se braço, e os olhos adormecidos abriram em um sorriso terno - ela deixou-se deliciar com a curva dos lábios dele. Em silêncio, pensava se ele saberia quão bem lhe faz, mas jamais poderia afirma-lo em momento tão preciso. As mãos tocavam-se em lentidão e firmeza, dispersas, mas congruentes às palavras não ditas. Conversavam - ou não? As dissertações fluíam de boca a boca, ambas cerradas, caladas e secas. Imagina se ele se importaria em passar tanto tempo a seu lado e experimenta deleite inegável. Mas quão firmes estamos sobre sentimentos alheios?
O pulso é sensível aos tímpanos, a felicidade irredutível pregando-lhe um riso à garganta. Fita-o, mais uma vez, e ergue as sobrancelhas ponderando sua insegurança. Abraça-lhe o corpo, pedindo, secreta e silenciosamente, que fique um pouco mais. Em gesto desagradável de pressa, ele esquiva-se, sem demonstrar qualquer lamento profundo. Não querendo ser abusiva, engole em seco, volta-se a outros e inicia uma nova conversa, negando ressentimentos. Guardam novamente seus romances incertos e procuram aparentar, em intuito de proteção ao outro, indiferença.
Mais tarde, ao reencontrarem-se, mostrarão dentes em gesto exultante, ansiosos por códigos próprios cujas traduções não cabem à língua em pronúncia, mas em dança e calmaria desesperadas.
Ainda não serão capazes de admitir quão necessários são um ao outro.

Beijocolates,

#V


Devemos confessar que nada nos faz mais ansiosos por algo que o contexto misterioso no qual está inserido, não é mesmo?

domingo, outubro 14

Teste 067

Essa historia é de longa data, antiga, de uma época na qual confiávamos em estranhos bem intencionados e as críticas machistas à moral feminina se dissipava, mas ainda era sensível.

QUEBRE A EXCEÇÃO
(Pedro e Alice - nomes meramente ilustrativos)

O dia estava morno e agradável; a brisa, suave, arrastava consigo o queimor dos raios solares, brilhantes e cegos. Tudo exalava um aroma adocicado, como quando se retiram biscoitos do forno. Cães passeavam, junto a seus donos, satisfeitos com a caminhada, enquanto atletas praticavam cooper na pista paralela. O parque estava repleto de famílias sorridentes, estendendo toalhas sobre a grama verde, bem cuidada, para um bom piquinique.
"Vamos, Clara, você consegue!" Estimulou Alice, rindo da adolescente que se desdobrava para rebater a bola. Estavam jogando frescobol, gargalhando das habilidades precárias e comuns às duas, quando um homem aproximou-se, em uma moto, tímido.
"Com licença, você gostaria de dar uma volta comigo?" Perguntou, inocente, esperando por uma resposta - e que fosse de seu agrado. Alice virou-se para a outra, duvidosa, e voltou o olhar para o desconhecido à frente.
"Qual seu nome?" Indagou, curiosa, ao homem de vestes quadriculadas e óculos de armação grossa. Teria, no máximo, 36 anos, não muito mais que ela, e portava um sorriso encantador.
Ele estendeu a mão direita, a fim de cumprimentá-la, e fez uma reverência atípica, engraçada, ao responder: "Pedro é o nome pelo qual atendo." O ar irônico não lhe abandonava os olhos negros, nem um instante sequer.
"Alice é o nome dela" clamou Clara, fazendo a companheira corar pelo objetivismo, e encolheu os ombros quando percebeu a repreensão muda da morena alta, embora de menor estatura que a primeira. Pedro fitava-a, empertigado com o mistério que aparentemente cercava o rosto juvenil dela.
Alice, enfim, sentou no assento da motocicleta e agasalhou as mãos frágeis, macias, nos bolsos da jaqueta de seu recém-apresentado, que, por uma fração de segundo, esqueceu-se de como girar a chave na ignição.
O motor rugiu e o vento começou a bagunçar os cabelos caramelo de Alice, graciosos, como a tal. Rodaram pela grande cidade, sem trocar palavras em meio ao som dos carros passando ao lado, zunindo à resistência física do ar. Quando voltaram ao parque, Clara lia, sossegada, com as costas apoiada em um tronco de árvore. Ela ergueu os olhos na direção dos dois e sorriu, feliz, as madeixas escuras e encaracoladas derramando-se por suas costas.
"Nós podíamos tomar um café" ele sugeriu à mais velha. Alice analisou-o com o sorriso costumeiro e assentiu, ditando-lhe onde poderiam encontrar-se às cinco da tarde. Despediram-se e ela abraçou Clara, satisfeita.
Encontraram-se seis horas mais tarde, em uma cafeteria próxima à casa onde vivia Alice.
"Sua irmã me pareceu bastante simpática" comentava Pedro, bebericando a xícara fumegante de café torrado. Notando a inquietação de sua acompanhante, tomou uma expressão preocupada para si. "O que há, Alice?" Ela soltou o ar de forma pesada e inclinou-se um pouco mais à mesa, hesitante.
"Ouça, Pedro, não sei por que lhe contarei isso, mas peço que não me julgue, está bem?" Ele consentiu, esperando que continuasse. "Clara é minha filha, não minha irmã mais nova. Fui mãe antes da hora e me divorciei, mas..." O homem parecia abatido com a notícia, quase chocado. Endireitou-se na cadeira e remodelou o rosto, com ânimo.
"É uma ótima filha" ele corrigiu, e o sorriso em seus lábios fez sorrir também Alice, em paz memorável.

***

Se foi fácil? Não foi nada fácil. Naquela época, era impura a mulher divorciada, e as críticas da família de Pedro, além da pressão de todos mais, quase os fez desistir - quase. Lutaram como lutam idealistas: contra o mundo, mas conseguiram. Por carinho indubtável, Clara chama de pai o pai de seu irmão mais novo, Lucas, e de tal forma Pedro adentrou a família que não mais se imagina como seria sem ele. O casamento de Alice e Pedro dura até hoje, estão nas bodas de pérola e seguirão às de vinho, se a vida os deixar. O amor brota em novidade a cada dia, e a paixão que parecia frágil e condicional, hoje, a mim, é referencial de persistência.
Não desista nos primeiros obstáculos, vale a pena.

Beijocolates,
#V

segunda-feira, setembro 10

Teste 065

TIMIDEZ DESFERIDA
(Beatriz e Gustavo - nomes meramente ilustrativos)

Era a primeira vez que aquilo acontecia.
O grande grupo de universitários enfim dispunha de todos os integrantes solteiros; tinham que comemorar. A prima de Victor, um dos estudants de engenharia, finalmente superara o fim dramático de seu último namoro, e foi convidada à festa sem qualquer hesitação. As luzes agitavam-se, misturadas aos corpos dançantes espalhados no grande salão; a música era ensurdecedora. Quando Beatriz chegou à danceteria, estava decidida a, no máximo, trocar alguns beijos frios - "Ou nem mesmo isso", pensou ela, distraída. Encontrou Victor no bar e foi conduzida até o grupo de amigos, trocando sorrisos desajeitados que mencionavam o prazer que tinham em conhecerem-se.
Beatriz já havia dispensado uma dúzia de pretendentes quando um homem alto se aproximou, alegre, com uma pequena garrafa de cerveja em cada mão. Ele a chamou e ela o encarou, atordoada. Podia jurar que nunca o vira antes, mas ele lhe tratava como íntimo. Pediu para que segurasse ambas as garrafas por algum momento e alargou um sorriso bonito.
"Gustavo" anunciou, cortês. Beatriz observou-o atentamente, sentindo o suor gelado do vidro em suas mãos. "Não fomos devidamente apresentados, mas faço parte daquilo ali" meneou a cabeça em direção ao grupo tumultuado no qual Victor se encontrava. Ela revirou os olhos, entoando um discurso sobre não estar interessada, mas não foi capaz de dar continuidade; ele tapou-lhe a boca. Se o mundo fosse como nos desenhos animados, Beatriz estaria vermelha e com uma veia estourando na testa, mas estava apenas com uma expressão desagradável: não o suportava!
As horas passaram e Beatriz corou ao se dar conta de que se divertia. Victor lhe chamou em um código genérico e familiar, ela lançou um último olhar para o novo amigo e lá se foi: era hora de voltar para casa. Enquanto ela dormia tranquilamente em sua cama alcochoada, desconhecia a realidade de quem conhecera mais cedo. Exausto, empriagado, mas empertigado. Adormeceu no sofá, mesmo, com as roupas com as quais chegara, e os dois esperaram, inconscientemente, que a manhã chegasse.
Um bipe despertou Beatriz de seus sonhos confusos e ela tateou, desajeitadamente, a cômoda, à procura do celular. O visor indicava que o número era desconhecido. Franziu o cenho e atendeu, preguiçosa. "Quem é?" resmungou, trôpega.
"Beatriz, é Gustavo, lembra-se de mim?" Ela acordou por completo ao ouvir a voz rouca do outro lado da linha; sabia que não lhe tinha dado qualquer meio para que voltassem a se falar, mas... "Será que você poderia me encontrar na sorveteria? Te encontro lá em uma hora, exatamente" e desligou. Beatriz fitou o telefone, desconcertada, sem saber bem o que fazer em seguida. Simultaneamente, Gustavo passeava pela casa apressado, arrumando-se; estava uma pilha de nervos.
***
Beatriz e Gustavo namoraram por sete anos e jamais se cansaram. Os amigos de Gustavo até hoje riem por Beatriz tê-lo apaixonado na primeira oportunidade que tiveram de assumirem-se todos descompromissados. Beatriz descobriu que Gustavo era um homem bastante tímido e que algo como puxar uma conversa com uma estranha não lhe seria possível nem mesmo depois de porre pesado; o destino sempre acaba dando o seu jeito de fazer as coisas acontecerem. Casaram-se há quatro anos e estão juntos há onze, mas ela ainda insiste em recebê-lo decentemente todas as noites, devidamente perfumada e doce. Os anticoncepcionais já foram abolidos da vida do casal e estão nos preparativos finais para a chegada de um filho.
Estão radiantes com a companhia um do outro.

Beijocolates,
#V

segunda-feira, setembro 3

Teste 064

Este episódio romântico relatarei de modo inteiro; não há muito do começo nem do fim, mas muito da melhor e da pior partes. Divirtam-se!

CONCEDA-ME UMA DANÇA
(Higor e Virgínia - nomes meramente ilustrativos)
Havia quase um mês desde que acabara, mas ela não conseguia evitar a nostalgia que a acometia sempre que ele adentrava seu campo de visão. Higor. O garoto que lhe prometera amar para sempre, que fizera planos e rira escolhendo os nomes para os futuros filhos. Virgínia correu apressada para o banheiro, sentindo uma pressão esmagando seu crânio: estava prestes a chorar.
Era uma manhã de quinta-feira e Virgínia mal conseguia respirar de tanta ansiedade, atravessando as ruas perigosamente distraída. Se aproximava cada vez mais do local combinado, e não o enxergava em lugar algum. Higor levantou-se, sorrindo, Virgínia desviou o olhar, encabulada. Cumprimentaram-se nervosamente, sem saber como deviam reagir na presença um do outro, e poram-se a andar, sentindo a maresia acabar-lhes os cabelos.
Virgínia apertou os olhos com força, negando-se a derramar mais uma lágrima, e recordou-se de si mesma sozinha, esquecida debaixo da chuva, soluçando. Não podia suportar a dor, mas não podia deixar que emergisse. Foi acometida mais uma vez por historias lassas que jamais teria de volta e tapou a boca para abafar um grito de pavor genuíno.
"Você está linda" ele disse, afastando os fios emaranhados do rosto dela. A garota sorriu, pouco convencida, e sentiu os braços envolverem-na com carinho raro. E sentiu-se completa e protegida, naquele abraço. "Nunca fui tão apaixonado por alguém" Higor declarou, os olhos procurando o amendoado que a si lhe parecia o tom claro dos olhos maternos. A face de Virgínia iluminou-se, e ela beijou-lhe suavemente os lábios, sentindo a brisa salgada envolver os dois.
As recordaçōes apaixonadas lhe pareciam golpear o estômago, cada vez mais forte. A enxaqueca aumentava gradativamente, assim como os minutos passavam, e lá estava ela, trancada em um dos sanitários individuais, mordendo os dedos em vã tentativa de acalmar-se.
"Sua filha me faz muito feliz" Virgínia corou, encantada, e seu pai admirava o casal apaixonado à frente, com um sorriso discreto e pouco petulante, ao vê-los selarem as bocas por frações de segundo. Higor fitou a namorada por um bom tempo, satisfeito e sinceramente feliz. Ele sabia que ela também sentia-se assim. Entrelaçou os dedos aos dela, acariciando-lhe a mão com o polegar, e levou o conjunto de encontro à própria bochecha, flertando de um modo bobo e fascinante.
A umidade não cessava e seus olhos pareciam cada vez mais perto de transbordar. Virgínia respirou lenta e pausadamente, mas não pode evitar um engasgo choroso. E não pôde mais aguentar.
O contato entre os dois era urgente e desesperado: um precisava do outro mais que tudo no mundo. Os beijos eram carregados de palavras, sentimentos e tudo o mais que jamais poderia ser explicado, mas já não havia tempo, ele teria de ir embora. "Só mais dez minutos, Gina..." e beijou, fracamente, todo o seu rosto, tentando-a. Ela tentou conter-se, exasperada, mas sentia-se mole demais para fazer qualquer coisa. Abriu os olhos de súbito, encarando-o, assustada, e empurrou-o levemente, deixando-o aturdido. "Céus, Higor, acho que amo você" e uniu as bocas mais uma vez.
Ela apenas deixou que as lágrimas escorressem, quentes, por seu rosto, sem mais detê-las. Não queria parecer fraca, mas sabia que não precisava ser forte: ninguém a observava. Os papéis arranhavam-lhe a pele, mas Virgínia continuava secando-a, secando-a... Até que os dutos lacrimais secassem por inteiro.
Um risinho masculino fez-se escutar pelo quarto de Virgínia e ela revirou os olhos, divertida. "Desculpe, amor, prometo não incomodar" Higor prometeu, e Virgínia sabia que não honraria a promessa. Voltou a atenção ao reflexo de seu rosto, tentando maquiar-se dignamente, e sentiu que um olhar pesava sobre si. Um beijo foi depositado em seu pescoço, enquanto as mãos envolviam-lhe a cintura por trás. Higor a fez ficar de frente para si, mas o movimento brusco fez o pó compacto cair no chão. Ela encarou o namorado de forma repreendedora, com os braços cruzados, e o fez ver a maquiagem destruída; Higor apenas sorriu e puxou-a para mais perto, ignorando os protestos que cessaram com o primeiro toque suave.
Virgínia levou algum tempo para estabilizar-se. Destravou a cabine, receosa, e lavou o rosto com a água fria disponível. Contemplou a face levemente inchada e avermelhada, e ergueu o rosto, destemida a encarar todo o turno que tinha pela frente. Uma última cena lhe passou à mente, mas ela pôde sorrir, adentrando a sala de aula. Desculpou-se pelo atraso, sentou-se à banca e abriu o caderno para tomar suas anotações.
O som era agradável aos seus ouvidos, o corpo era conduzido pela música. Higor aproximou-se, hesitante, e murmurou: "Virgínia, é um pouco constrangedor, mas... Eu não sei dançar isso, será que você..." Ela virou-se, divertindo-se com a falta de jeito do rapaz e o interrompeu, no meio de uma frase: "Mas é claro que sim."

Beijocolates
#V

quinta-feira, agosto 16

Teste 063

FRIAMENTE FELIZ
(Sara e Daniel - nomes meramente ilustrativos)

Sara chegou radiante de mais uma manhã lotada e atarefada, mas estava se sentindo culpada. O sorriso bobo em seu rosto denunciava o que lhe estava acontecendo, mas não fazia jus a quem realmente merecia os seus pensamentos esperançosos e lúdicos.
Ela desabotoou a camisa, jogou a farda no cesto e enfiou-se debaixo do chuveiro, sentindo as gotas rolarem pelas costas úmidas. O brilho nos olhos, hesitante e terno, a guiava por uma rotina costumeira, enquanto a tarde se esvaía. Sabia que a hora de falar com Daniel se aproximava a cada passada de pente pelos cabelos, mas não estava nem um pouco empolgada. Estavam namorando há três meses e era infeliz a distância curta entre as duas cidades que ela não queria percorrer. Eles se encontraram duas vezes e, já na segunda, ela sentia esvair toda aquela paixão que pareceu contagiá-los havia sete meses.
Ela obrigou-se a chorar um pouco, mas parou assim que se deu conta de que as lágrimas não tinham causa a ruptura iminente, e sim saudades. Saudades de Artur e do modo como o seu abraço a fazia se sentir segura. Culpou-se, desesperada. Jamais colocaria fim em uma historia se não pessoalmente.
Um bipe se fez ser ouvido pelo apartamento: eram sete horas da noite. Sara aproximou-se da tela do computador, sentindo o coração descompassar, mas uma onda de frustração a deixou acabada: era só seu namorado.
A conversa costumeira tomou outro rumo - um rumo triste, angustiante e idiota -, e não era Sara quem o estava conduzindo. Tentou controlar-se, verificando se lera corretamente as palavras misturadas e turvas pela euforia que acometia-lhe todo o ser, indevidamente.
Daniel acabara.
E ela estava radiante com aquilo.

Beijocolates,
#V

Teste 062

UM MUNDO PARTICULAR
(Amanda e Gabriel - nomes meramente ilustrativos)

A música era cada vez mais distante à medida que eles caminhavam pelos corredores abertos, cercados de jardins extremamente familiares. Amanda se sentia exposta ao frio e ao breu de mais uma noite de novembro; os shorts curtos e a camisa extra-grande não pareciam mais uma boa escolha.
Ela podia sentir todo o corpo pulsando, o coração bombardeando-lhe o seio esquerdo internamente e de modo tão intenso que podia prever o órgão transpassando-a. Evitava ao máximo encarar os óculos de Gabriel, mas sabia que ele a estava fitando. Estavam estranhamente tímidos e calados, podiam sentir as bochechas queimarem e arroxearem a cada passo dado. A respiração pesada e próxima de Gabriel perturbava Amanda de modo a enrijecê-la em hesitação.
"Eu já lhe falei o quanto lhe adoro hoje?" A voz rouca e masculina soou tão macia quanto os braços que então envolviam, quentes, a cintura dela. Amanda sorriu, ergueu uma das mãos e afastou os dois, chamando-o apenas com o olhar.
Ele a seguiu. Sentaram-se em um banco de cimento desgastado e conversaram por bastante tempo: e ela ainda sentia cada veia borbulhar em ânsia. Falaram sobre o clichê necessário, e ele indagou, risonho, o porquê da arritmia cardíaca que ele podia sentir em seus ombros.
Amanda sorriu e eles ergueram-se, dispostos a uma viagem rápida de algumas dezenas de metros. Afastaram-se do parque, em uma velocidade baixa e indecisa. Gabriel apenas parou para abraçá-la e beijar-lhe o rosto, mas, como que por natureza de seus organismos, as bocas uniram-se em um selo de confidência, e sentiu, por fim, a sensação engraçada e imprecisa em seu ventre. O frio, o desejo e a paixão que a assolavam, todos juntos em um misto de curiosidade repentina.
Era o beijo perfeito. Delicado, nobre, calmo e apaixonado; estavam a sós em seu próprio mundo, dedicados um ao outro e devotos a cada segundo de cumplicidade.

Beijocolates
#V

domingo, agosto 12

Teste 061

A muitos já contei estas historias de amor. Muitos ficaram encantados, alguns me mandaram escrever um livro, mas cá estou eu, tentando narrar, o mais romanticamente possível, esses inícios de relacionamentos apaixonados dos quais fui testemunha, ativa, passiva ou remota, e os eventuais fins dos mesmos, quando estes tiveram término. Não há ordem pessoal ou cronológica, vou escrever à medida que me venha à memória. Então comecemos a maratona.

ABRAÇO DE LONGA DATA
(Daniel e Sara - nomes meramente ilustrativos)
Sara assobiava fracamente, sentindo o estômago revirar a cada metro de ladeira que o Fiesta creme de sua mãe avançava.
Respirou longamente, buscando algum alívio para o nervosismo, e ouviu a gargalhada estridente de seu irmão mais velho vindo do banco do motorista; estava zombando dela. O sobrinho parecia inquieto no colo de sua mãe, e Sara ainda estava lívida quando João finalmente estacionou o carro a alguns metros da igreja. Ele a olhou e riu um pouco mais, fazendo dilatar a fúria que crescia em meio ao corpo embalado em tecido verde.
"Você está linda, Sara!" Elogiou-lhe a tia, logo na entrada.
Sara sorriu vitoriosa, pois sabia quão radiante deveria estar. Os cabelos devidamente escovados em um penteado que desabaria logo após o fim da cerimonia, presos por uma presilha não tão elegante que recorreu à cabeleireira, mal desviavam a atenção do longo vestido que usava, esverdeado, suave e extremamente desconfortável: ela sentia-se uma princesa, de fato.
Era segredo e ninguém jamais ficaria sabendo, mas a tensão que acompanhava a garota não vinha do casamento em si, mas de quem estaria nele. Com um calafrio, recordou as palavras de sua avó ao informar quão ansioso estava o cunhado da noiva, aquele garoto ao qual havia sido apresentada dois anos antes, e para vê-la.
Tudo aconteceu rápido demais ou devagar demais, mas, de alguma forma, lá estava Sara, cruzando a nave decorada em direção aos noivos sorridentes, carregando as alianças que selariam um vida cônjuge de felicidade e cumplicidade.
É provável que a recepção seja a parte mais esperada pela maioria dos convidados, o desespero nos olhos brilhantes e famintos dos então bem vestidos em ternos e trajes brilhantes era quase palpável. Sara remexia-se, rindo demais com o pavor que apossara-se dela: se deu conta de que os cabelos já estavam desastrosos. Seus olhos amendoados procuravam furtivamente pelos de Daniel, mas desviava do olhar do garoto sempre que pareciam perigosamente próximos. Como uma boa pré-adolescente, ela remexeu-se na pista apenas o suficiente para tentar chamar a atenção que não conseguiu roubar para si: todos estavam pasmos com ele.
"Já vamos" ela então ouviu a frase que mais temia escutar vinda da mãe.
Derrotada, esperou, em vão, um momento propicio no qual Daniel estivesse próximo à avó, para despedir-se, mas ele mal a notou. Ela tentou ao máximo ficar e só desistiu quando a buzina familiar soou do lado de fora.
Fracasso. Pesava sobre suas costas e a fazia arrastar os pés. Chegou à porta, vagarosa, e sentiu o coração acelerar em alerta subitamente, ao ouvir uma voz.
"Sara!" Chamou a voz, enquanto seu dono corria até o penteado desmanchado da garota. "Sara" ele chamou mais uma vez, acabado, e ela sorriu. Abraçou Daniel por tempo excessivo, ignorou o relógio e a culpa por atrasar a família e deixou-se envolver pelo conforto dos braços que procurou por tempo demais.

Beijocolates,
#V