Eu tenho uma coisa de às vezes achar sentido figurativo em coisas reais.
Acho que me acostumei de ver filmes, ler livros, onde algo acontece "na vida real" e é um grande artifício narrativo para uma metáfora. Como no filme "Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria", onde tem um buraco no teto da casa que representa o desmoronamento da vida da protagonista e, quando ela resolve o grosso de deus problemas, o buraco miraculosamente é resolvido.
Daí às vezes eu me vejo achando que acontecimentos da minha própria vida são metáforas para coisas maiores, ou temas mais subjetivos, que precisavam de uma forma física, visível, tangível para se manifestarem. Como quando eu acidentalmente deletei o vídeo da nossa primeira visita ao apartamento que, mais tarde, compramos. Daí criei toda uma narrativa de que a deleção do vídeo, que mostrava o apartamento quando não era nosso, era um indicativo de que eu deveria apagar também da minha memória a ideia do apartamento como sendo vivido por outra pessoa. Como se o vídeo não existir mais fosse a tangibilização do fato abstrato da passagem de posse.
Deixa eu contar da mais recente, também relacionada ao tema de moradia. Essa precisa de um pouquinho de contexto: em Boston, eu e Brenda começamos a ter e cuidar de plantas. No primeiro aniversário dela lá, eu dei de presente uma jibóia, depois fomos ganhando outras plantas de amigos ou da faculdade, até que nossa janela ficou cheia de verdinhas, às quais nos afeiçoamos. Desde que nos mudamos de volta para o Brasil, eu e Brenda tivemos uma série de imprevistos relacionados a nossa moradia, fazendo com que o conceito de "lar" se tornasse um conceito futuro, um objeto de desejo. Estamos, desde a semana que chegamos ao país, num flat - menor e mais caro do que gostaríamos, que, entre outras coisas, nos limita em cozinhar.
Alguns meses depois de chegarmos, recebemos um amigo no flat, Luis. Tomamos uma cerveja, batemos papo, e Luis resolve sair para comprar comidinhas no mercado. Ele volta com peixe, batatas, maionese, cebola, macarrão e uma macaxeira, pro meu desespero, porque mal temos panelas, certamente não temos muito espaço, e eu nem sei onde fica a tábua de corte. Ele começa a cozinhar, aproveitando o espaço que tem, e, para a nossa surpresa, sai uma comida deliciosa daquela micro cozinha. Só não foi a macaxeira, que ficou sem um destino claro.
No meio tempo das incertezas de se seríamos despejadas ou não do flat, se a compra do apartamento daria certo, se precisaríamos nos mudar duas a tres vezes antes do final do ano, a macaxeira brotou - nossa primeira plantinha desde Boston.
E aí começa a metáfora, porque a macaxeira brotou quando ainda achávamos que teríamos que sair do flat, e antes da compra do apartamento ser finalizada. Essa plantinha sinalizou a vida que existe mesmo no que não se esperava, do resto de ingredientes que Luis porventura não usou.
Fico pensando naquelas postagens de flor nascendo no meio do concreto e quero me censurar pela breguice... Vamos continuar.
Depois da macaxeira brotar, compramos duas novas plantas para o flat, que nos acompanharão ao apartamento novo quando pudermos nos mudar, após o fim da reforma (que está sendo gerida por nosso amigo, Luis).