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quarta-feira, outubro 28

Não sou gorda

   Ultimamente, tendo muito mais contato do que o de costume com o ponto de vista de pessoas que em alguma altura da vida já foram tidas como 'gordas' pela sociedade devido a um blog que passei a ler, venho percebendo a relação dessa minoria com todas as outras (coisa que eu não percebia antes pela falsa noção de que pessoas acima do peso estão assim por opção). *e mesmo que fosse opção, não deveria ser condenada*
(fonte: http://escrevalolaescreva.blogspot.com.br/2014/03/vitimas-da-gordofobia.html)

   Percebo então as gordofobias diárias que antes me eram invisíveis, assim como passei a perceber os machismos, racismos, as homofobias e a cultura do estupro depois que parei para prestar atenção em falas, músicas, filmes, olhares e em tantas outras sutilezas que agem como alfinetadas na moral de quem as sofre.
   Engraçado como as pessoas se acham no lugar de opinar sobre o que faz bem ou mal para você, independente de você poder/querer ou não mudar essa realidade. Quando me diziam que ser gay era arriscado e eu poderia ser vítima de violência, não me fez menos gay. Infelizmente, por vezes já me fez ressentir o fato antes de me aceitar completamente, mas eu não deveria ter passado por um processo para poder me aceitar, isso deveria ter vindo naturalmente, sem negação ou constrangimento, e vejo claramente como isso se aplica a todas as outras minorias, excluídas e marginalizadas.
   Então me vejo numa posição de analisar o que eu mesma já fiz que pode algum dia ter marcado negativamente outras pessoas (sinceramente, não foram poucas as vezes que soltei alguma merda verbal sem pensar), e caio nas trocentas falas de "tô tão gorda" que já proferi, e aí está a questão toda.
   Para alguém trans, ouvir alguém cis dizer ser trans é revoltante; sendo lésbica, ouvir alguém hétero falar que é gay incomoda e, igualmente, imagino que, como gorda, ouvir alguém magro dizer que está com sobrepeso deve ser o mesmo saco. Essas pessoas que não se encaixam na minoria, mas usam do rótulo como se não significasse nada (não vou entrar agora no mérito de discutir os lados positivos e negativos dos rótulos), ofendem por diminuírem o sofrimento e as provações associadas ao grupo.
   Posso estar insatisfeita com meu corpo vez ou outra, como todo mundo tem o direito de estar (assim como todo mundo tem o direito de não estar, independente do que falem), mas acho que devo dizer também que não sou gorda. Nunca passei por situações constrangedoras no ônibus envolvendo a catraca ou recebi olhares feios quando sentei ao lado de alguém, ninguém nunca me aconselhou a ir para um spa ou disse que se eu perdesse um pouquinho de peso talvez eu arranjasse uma namorada. Ninguém esqueceu que eu posso sim escolher com quem eu fico ou deixo de ficar numa festa se alguém indesejado tentar algo comigo e, o mais importante, ninguém esqueceu que eu posso gostar de mim mesma do jeito que estou, sem tirar nem por.
  Vivemos num período que vejo como maravilhoso, no qual as pessoas estão abraçando suas individualidades e permitindo as individualidades alheias, mesmo que isso não ainda ocorra em escala global. O "legal" agora é ser você, se aceitar e promover a aceitação do próximo. É se colocar nos sapatos do vizinho e entender que ele tem o direito de viver sem amarras. Promovamos esse movimento, sejamos amor.
   

  xu

domingo, outubro 19

Prioridades

Eu estava agora a pouco brincando com o meu cachorro e ele insistentemente querendo o brinquedo novo que ele ganhou de dia das crianças, então eu dei o brinquedo a ele e fui comer. No momento em que o cachorro viu o sanduíche, ele largou o brinquedo e ficou me olhando com a maior cara de pidão. Tentei distraí-lo com o brinquedo, mas ele não tava nem aí, ele queria a comida, como sempre. E aí eu percebi que ele sempre larga qualquer coisa por comida... A prioridade dele, mesmo que inconsciente, é comer. Eu posso ter passado o dia inteiro dando comida de gente (que é o que ele quer) a ele e se eu aparecer com mais uma gostosura, ele come do mesmo jeito, porque é o que ele mais quer na vida: comida gostosa. Inclusive, se eu colocasse a cama dele, todos os brinquedos e tudo o que é tido como "dele" nessa casa de um lado, inclusive eu e a minha família, e derrubasse comida do outro, ele nem pensaria duas vezes sobre que lado iria, uma vez que, novamente, É O QUE ELE MAIS QUER.
E aí finalmente chego ao meu ponto: raros os humanos que largaram/largariam tudo o que têm em prol de sua prioridade absoluta.
Vejamos um exemplo.
Fulano é uma menina (não quero limitar gêneros aqui) que sabe com toda a certeza do mundo que, se ela tivesse pele verde e cabelo azul, seria plenamente feliz. O que ela mais quer na vida é ter pele verde e cabelo azul, do fundo do seu coração. Então, com o avanço da medicina/tecnologia/arte/enfim, surge uma forma de ela fazer uma operação pra ser verde e ter cabelo permanentemente azul e Fulano fica extasiada!
Fulano para e pensa "se eu fizer essa operação, todos vão me olhar estranho, meu namorado/minha namorada/meu gato não vai mais se sentir à vontade perto de mim, minha família pode ter vergonha, a operação pode não dar certo e eu teria que tentar de novo ou, na pior das hipóteses, eu posso até morrer". Pontos válidos, querida Fulano. Ou será que não?
As pessoas te olhando estranho é problema delas ou seu? Quem está incomodado com a sua aparência são os outros ou você? Porque eu acho que são os outros. A sociedade não deveria impor essas barreiras comportamentais e padrões estéticos sobre ninguém e você não deveria aceitá-los sendo impostos sobre a sua vida.
Seu/sua namoradx realmente gosta suficientemente de você pra te aceitar independente de decisões externas ao relacionamento de vocês? Se sim, essa pessoa não vai te deixar por você estar seguindo seu sonho e sendo feliz à sua maneira. Se ele te deixar, algum dia você encontrará alguém melhor.
Sua família te aceitará eventualmente se ela realmente te amar, afinal de contas, sua personalidade e suas memórias em conjunto não mudaram nada. A vergonha que eles talvez viessem a sentir de você, novamente, se reflete nos padrões impostos pela sociedade.
Se seu sonho é realmente esse, você não tentaria repetidas vezes fazer com que ele se concretizasse? Você não continuaria tentando e tentando alcançar seu objetivo principal da vida?
E, finalmente, até onde você iria pelos seus sonhos? Porque muitas pessoas usam o termo "farei isso ou morrerei tentando" e, na hora do 'vamo ver', dão pra trás. Será que Fulano prefere uma vida sem ir atrás do que ela mais quer, sabendo que existe uma forma de chegar lá, a morrer tentando?
Só acho isso.

Esse post não é sobre nenhum sonho específico meu, é sobre pessoas, em geral, com sonhos que não saem do papel.

"Don't give up, 'cause somewhere there's a place where we belong"
J

segunda-feira, setembro 29

Aquela necessidade


Caridade, voluntariados, envolvimentos com política e ativismos, alguns criando bandas, conquistando medalhas, viajando em projetos de desenvolvimento humano e até ficando em casa em projetos de desenvolvimento humano. Tem amigos vendendo suas criações, começando a ter uma perspectiva de vida adulta e é tudo bastante admirável, mas o que exatamente nos levou a essa mentalidade?
Quando estamos crescendo, fazemos varias coisas sem nos preocupar muito com o futuro. Por que nos preocuparíamos? A morte é uma coisa muito distante pra uma criança (pelo menos na realidade na qual fui criada). Em suas cabeças, crianças são imortais (e deveriam ser). Mas vamos crescendo e percebendo que não é bem assim... A vida é extremamente frágil e os planos sempre podem mudar, tudo é produto das condições. Visto isso, percebemos também que a qualquer momento podemos morrer, e a morte não é exatamente atrativa quando se percebe que não realizou nenhuma grande coisa na vida até então. Disso, surge a necessidade de fazer a diferença, de cativar pessoas e ser eternizado em memórias, discursos, citações, feitos e etc., qualquer coisa, realmente, que tenha um impacto nas pessoas ou até, pros mais influentes, no mundo.
Essa historia toda de fazer a diferença pode, se aplicada na direção certa, impulsionar o mundo pra frente. Ela faz as pessoas terem novas ideias, fazerem caridade, solucionarem problemas e/ou buscarem fazer o certo. Eu acho que posso dizer que estou começando, agora que acabou o colégio, a perceber isso nas pessoas que me cercam.
Se a natureza não impõe essa necessidade sobre algumas pessoas, sempre podemos contar com os discursos inspiradores de figuras como Gandhi, com seu "seja a mudança que você quer ver no mundo" ou Steve Jobs, com aquele discurso no qual disse "lembrar que eu vou morrer é a ferramenta mais importante que eu já encontrei pra me ajudar a fazer as grandes escolhas da vida" e várias outras pessoas que tenho certeza que devem ter saltado às mentes de quem me lê. Além, claro, daquela vez que você tava conversando com aquele seu amigo bem prafrentex e ele falou uma coisa do gênero também. Afinal, não precisa ser uma personalidade famosa pra ter uma mente brilhante.
Na verdade, não é preciso fazer nada de excepcional, muitas outras pessoas já devem ter feito aquilo que você tem em mente, mas o que importa é que o faça com um toque pessoal, algo que te identifique, que assine seu nome e naquele ato registre um traço da sua personalidade. O importante é não se omitir. Vemos tantas pessoas que evitam abrir a boca ou mexer um dedo com medo de críticas e reprovações, mas celebrando aqueles que o fazem, mas, no fim, a participação ativa em causas válidas contribui não só para o crescimento individual como pra o de toda a sociedade direta e indiretamente afetada pelo efeito borboleta de cada ideia posta em prática.
Acho que todos temos uma certa admiração e, no fundo, queremos ser Zumbi liderando ex-escravos aos quilombos, queremos ser Gandhi em greve de fome contra os ingleses, queremos ser Chico Buarque escrevendo músicas com mensagens inteligentes, queremos ser nós mesmos fazendo algo que nos faça ter certeza de que não foi tempo perdido. Somos tão jovens.

"tu deviens responsable pour toujours de ce que tu as apprivoisé"
- Antoine de Saint-Exupèry
(tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas)

J

segunda-feira, setembro 22

Descartando

Uma vez, a mãe de uma amiga minha me disse que tudo o que a gente realmente quer para as nossas vidas eventualmente acontece. Obviamente, eu questionei, mas, depois de perceber alguns exemplos na minha própria vida, percebi que, com um minimo de esforço sincero na direção certa, as coisas acontecem e acho isso simplesmente o máximo. Não sei se tem alguma evidencia espectral-filosófica ou científica de que isso acontece, tenho quase certeza de que nada confirma, mas é uma forma bastante positiva de se olhar a vida e se questionar o que você REALMENTE quer para si, sabe? O que você sabe que PRECISA fazer acontecer pra ser feliz e satisfeito consigo mesmo?

Meu cérebro de madrugada vai de um lado pro outro e eu tava agora a pouco pensando sobre aquela historia de Descartes de que Deus existe porque é perfeito, e, se ele é perfeito, ele tem a perfeição da existência. Mas aí é que tá: existir implica em viver? Alguém que já morreu pode ser dito "existente"? Algo que nunca viveu pode ser dito "morto"? Acabei de pesquisar aqui e achei que "vida significa existência. É o estado de atividade incessante comum aos seres organizados. É o período que decorre entre o nascimento e a morte". Certo, então. Se Deus é eterno, nunca nasceu e nunca morrerá, portanto não tem vida. Se a morte é a ausência de vida, então Deus estaria morto... Mas se vida significa existência, algo morto imediatamente deixaria de existir? Um pedaço de pedra, então, seria ilusório, inexistente no plano real, por não possuir vida? Deus, então, seria como o pedaço de pedra em questão? Ilusório e existente apenas no intelecto? Faz sentido, exceto pelo fato de que cada célula dos nossos corpos é formada por partículas infinitamente menores que, isoladas, poderiam ser consideradas mortas e, portanto, ilusórias. Como seres 'reais' como os humanos poderiam ser compostos de infinitas partes ilusórias e inexistentes? Então seríamos somente ideias, uns nas cabeças dos outros? Mas quem garante que sequer existem outros? O que nos garante que toda a vida e mundo e realidade que pensamos conhecer não é só o fruto da imaginação do primeiro ser pensante de todos os tempos? Quem garante que TUDO não é só uma farpa da poderosa imaginação do "criador" e "Deus" não é apenas a forma como a mente pensante quer que todos os seres que ela imaginou se refiram a ela?
Claro que a teoria de Descartes não é a unica existente e, como ser humano, ele pode facilmente ter criado uma teoria falha e cheia de brechas. Não vou ficar aqui analisando cada pensador e cada teoria, até por desconhecer a grande maioria delas, mas principalmente por causa do sono.
Vou sair só depois desse pensamento: Se a grande mente pensante tivesse um personagem em foco, você, por que ela não faria da sua vida a mais perfeita possível? E outro: se você não for o personagem principal da mente pensante, o que te faz pensar que ela te daria consciência pra pensar qualquer uma dessas coisas? Mas, de novo, a perfeição sequer existe? É uma ideia tão abstrata e distante que nem milênios de humanidade conseguiram definir propriamente em nada que não fosse o chamado "Deus". Sendo que, pelo que eu percebi em experiencias e contatos com diferentes pessoas, o deus de cada pessoa tem traços diferentes e propósitos diferentes. Quem garante que o que chamamos de "deus" não é pura e simplesmente nossa própria consciência, nossos ego e super-ego combinados? Será possível que as religiões nada mais sejam do que pessoas que são regidas pelos mesmos princípios se reunindo pra louvar o quanto suas mentes pensam parecido?

Quero deixar claro que eu tenho ideias mais bem formadas sobre as coisas do que isso. Esses foram só questionamentos pra contestar o pensamento do qual discordo, não deixam de ser questões válidas a se considerar...


#J

segunda-feira, setembro 15

Será que alguém cobriu os biscoitos?

Às vezes eu me pego pensando em como tudo seria tão mais simples se eu seguisse os planos, os planos óbvios que são receita pra o sucesso, do tipo estudar rotineiramente e manter o assunto em dia, não passar a tarde toda na internet, dormir cedo pra não ficar com sono na aula, etc. Mas nunca é tão simples quanto parece, sempre aparecem "coisas" e motivos pra sair do planejamento inicial.
Então... Um dia desses duas amigas minhas vieram aqui em casa passar um tempo, bater um papo e, pra mim, tirar a cabeça de algumas coisas. Fomos no mercado comprar ingredientes e passamos a tarde na cozinha ouvindo musica alta, cortando chocolate, batendo massa e fazendo cookies (tenho certeza de que existem fotos no celular de alguma de nós). Conversamos sobre dramas recentes e festas futuras, queimamos duas fornadas de biscoitos e fizemos o bolo do aniversário do meu pai (e é assim que nos mantemos em forma).
O ponto do post não é guloseimas assadas, isso foi só explicando como os cookies chegaram na minha mesa, porque, desde que todos foram dormir e todas as luzes da casa estão apagadas (menos a do meu quarto), a única coisa que passa pela minha cabeça é "será que alguém cobriu os biscoitos?". De verdade, imagina que lástima seria termos passado a tarde toda fazendo todos esses cookies pra as formigas devorarem-os? Eu não posso ser a única que fica noiada com algumas coisas antes de dormir, certo? Coisas que eu teria como resolver, mas bate aquela preguiça ou medo da casa em breu ou até a decepção de me dispor a levantar e ir até a cozinha só pra descobrir que, de fato, os biscoitos haviam sido cobertos...
Talvez eu não faça isso somente antes de dormir, até porque amanhã recomeçam minhas aulas e já bateu aquele sentimento de não ter realizado nem metade das coisas em uma das minhas listinhas do que fazer durante as férias. Não li aqueles mil livros nem assisti aquelas vinte séries ou aqueles vários filmes cabeça que me fariam questionar a vida, o universo e tudo mais. Passei a primeira metade das férias quase sem pisar em casa, todos os dias na casa de Vic (fazendo cookies) ou ocupada e conhecendo gente nova, o que foi ótimo, mas fora dos planejamentos. A segunda metade eu passei em casa, num extremo oposto, procrastinando, descobrindo novos canais no youtube e mal fazendo qualquer outra coisa, sem "interessâncias" nem nada além de conflitos internos de quem fica ocioso demais. Não há motivos pra eu simplesmente ficar em casa sem fazer nada (esses motivos nunca existem, não é mesmo?). Por mais que eu tente justificar dizendo que eu estava cansada dos meses de aula, mas não estava, eu estava só naquela preguiça de fazer algo, medo de fazer e acontecer algo de ruim ou até a decepção de me dispor a fazer algo, me dar ao trabalho de me esforçar só pra descobrir que o esforço foi em vão, que não fez nenhuma diferença...
É o peso de medo sobre medo que nos puxa pra baixo e nos faz não fazer o que sabemos que devemos. No dia seguinte, eu fui na cozinha quando acordei e os biscoitos estavam cobertos, mas isso não me impediu de me preocupar, e a preocupação não me impulsionou a fazer algo a respeito, mas a falta de impulso não impediu o problema de ser resolvido por outra pessoa. Talvez fosse uma lição melhor se as formigas os tivessem devorado.

"Do you like the person you've become under the weight of living?"

#J

segunda-feira, setembro 8

Novidades

Então, né... Finalmente resolvemos estabelecer alguma responsabilidade em relação ao blog e chegamos ao acordo de que cada uma postará conteúdo novo em um dia específico.
Podem esperar postagens sabor baunilha todas as segundas-feiras, e sabor chocolate todas as quintas!

Uhul!
(gritos eufóricos ao fundo)

Estamos ambas começando uma nova fase: Vic entrando na faculdade e eu indo pra um segundo, e ainda mais difícil, período, então por que não encher ainda mais nossas agendas com uma responsabilidade extra? Mas, falando sério agora, eu sou muito mais produtiva quando eu boto na cabeça que não vou ter tempo de fazer tudo o que preciso a não ser que eu siga um determinado cronograma, então espero que isso funcione como um incentivo de alguma forma...
Não sei se essa postagem já conta como um novo começo de era de gente fina, elegante e sincera, já que é uma segunda-feira e aqui estou eu postando alguma coisa... mas consideremos que sim...


Let the games begin

#J

segunda-feira, outubro 28

Teste 096

Mais uma vez, que conste: os nomes são meramente ilustrativos. Somos eternas crianças, não conseguimos montar uma boa visão sem figuras, ao fim das contas.

ACASOS
mil acasos me levam a você...

Prometi a mim mesma que não mais me torturaria com lindas historias de romance alheio, mas, temendo ser hipócrita por isso, não pude resistir à reflexão sobre esse passado ato de amor. Comecei a enxergar o róseo com maior empatia, sorrir por beijos verdadeiros que não eram depositados em minha boca; sinto na contemplação de gestos carinhosos um sincero contentamento.
Houve, evidentemente, um desses imprevistos maravilhosos que me encantou bastante. Por ele, você lê as palavras que escrevi há tempo com um sorriso satisfeito no rosto. Por ele, fui seduzida aos sonhos que nos escapam à vista, esperançosa a realidades iminentes.

Surgiu sem motivos aparentes, com os ouvidos entupidos por bolinhas de guardanapo. A música alta não causava apreço significativo aos que se reuniam ali.
"Ei!" virou-se, desobstruindo audição. "Teu nome é Alfredo?"
A confusão escrevia-se em seu rosto: "Não, é Jáder..."
"Eu posso te abraçar?"


Entre tantos ditados e provérbios e parábolas e lendas e frases-de-vovó, há algo a dizer que as melhores coisas chegam sem aviso prévio, mas isso não quer dizer que não já estávamos esperando. Estamos sempre a postos para a chegada de nossos sonhos - às vezes, é verdade, somos surpreendidos pela realização daqueles cuja urgência não nos perturbava. Idealizamos mil modos a cumprir almeijo, embora quase sempre acabemos conduzidos pela arritmia em nosso peito.
Fingimos surpresa a nós mesmos quando a bondade invade nossas vidas. Não nos surpreendemos de fato. Pacientemente, havíamos aguardado a boa nova por eternidades, em conta do desejo por ela. Calculamos fórmulas sem fim à deriva de pensamentos que nos tolhe o sono. O destino, porém, nos prega peças ao sabotar todos os nossos planos - o faz com inteligência nobre.

"O meu nome é Magnólia" comentou, rindo da feição estranha com a qual ele recebeu a informação.
Repentinamente, os olhos de Jáder arregalaram-se, como experimentasse um raro momento de epifania: "Magnólia?" A situação agravava-se em divertimento. "Como a flor? M-A-G-N-O e o resto todo?"
"Assim se escreve o meu nome" ela riu, inocente - ou ignorante? - a respeito dos sorrisos futuramente gerados em mutualidade.


É engraçada, essa coisa toda sobre o destino - sempre o julgamos único culpado por tudo o que nos acontece. É um sentimento estoico, bem como deixar a felicidade para mais tarde - tarde esta que jamais chegará -: aceitar o que nos acontece com conformismo.
Alguma vez disse a um amigo que o que há de ser será apenas se ousarmos fazê-lo ser, pois jamais será sozinho. Se esperamos o ser ser, corremos o risco de nunca vê-lo acontecer - assim, não será o que jamais pôde ser. São ideias confusas, mas expressivas.

Esperaram a semana inteira por aquele momento. Magnólia envolveu seu pescoço com braços ansiosos e suspirou profundamente - se sentia bem. Jáder sorriu, sorriu - se sentia bem, também.
Beijaram-se - com fervor, paixão e carinho, em perfeita e incomum coerência.

Desistir não é uma opção, no fim das contas. Quando realmente queremos, lutamos; quando não, sequer pensamos sobre o assunto. Sobre isso, nas palavras de um alguém qualquer: "se você desejá-la, encontrará meios a tê-la; se não, encontrará motivos a recusá-la."
É verdade, é verdade: distante daqueles dois, dispostos a tornarem-se um só, voltei-me às baladas antigas cujas batidas nos conduzem sem nossa permissão e sorri, cúmplice de mim mesma - me era impossível não transbordar em alegria por eles.

"Noventa por cento do sucesso se baseia simplesmente na insistência." - Woody Allen

Beijocolates,
#V

sábado, outubro 19

Teste 095

Beije.
Beije lenta e suavemente, à medida que os raios de sol contornam nuvens e pálpebras - cerradas.

Sorria.
Sorria sincera e vagarosamente, expresse a eternidade em lábios e dentes.

Abrace.
Abrace firme e demoradamente, sentindo a embriaguez de seu perfume próprio.

Ria.
Ria confusa e distraidamente, porque nada mais importa.

Nada.
Nada além de beijos, segredos e o que parece nos embalar em ritmo imaginário ao palpitar de nossa juventude.

"Me abraça forte e me diz mais uma vez que já estamos distantes de tudo..." - Renato Russo

Beijocolates,
#V

segunda-feira, agosto 5

Teste 091

Tendo chegado da Jornada Mundial da Juventude e ainda com gritos de guerra me assaltando pensamentos, poderia muito bem dissertar sobre a experiência espiritual que vivi comentando a taquicardia ao perceber uma multidão, vinda de países cuja existência me era desconhecida, unida por um motivo nobre: a fé. Mas não é para isso que estou aqui - não, não: quero escrever, ainda me recuperando com comida caseira e boas horas de sono em minha própria cama, quero falar sobre o que andam me falando.
OUVI DIZER...
#1 Que meus queridos não fazem parte do mundo real.
Sim, isso me deixou um pouco confusa. Algumas pessoas justificam atos rudes com intimidade e, quando questionadas, permanecem firmes com argumentos sobre como é melhor que sejamos destratados logo por nossos menores círculos, porque assim estaremos preparados para toda a brutalidade que enfrentaremos mais à frente. Devemos pensar um pouco sobre isso, afinal, não são poucos a dizer que carinho desprepara para a realidade, mas creio que não estão com a razão!
Não é maior a dor ao ouvir palavras bruscas de quem queremos bem do que aquela ao ouvir as mesmas palavras de um estranho qualquer? Me machuca muito mais receber críticas de quem me conhece bem do que de alguém que me flagrou em erro por alguns segundos de vida. Ora, que há de saber sobre mim um mero estressado, enquanto partilho segredos e bons momentos com meus amigos?
Em minha tão pouco humilde opinião, devemos sempre AMAR quem amamos, sem pecar em medo de redundância. Se formos amados ao máximo, desencadearemos um magnânimo ciclo perfeito: ansiaremos por amar mais os que nos têm amado, e estes amarão, e amararemos mesmo aqueles que participam brevemente de nossas vidas, e talvez eles amem também. A caridade elevada fará tão bem...
O mundo real é maligno se assim o enxergamos. A qualquer modo, haverá sempre alguém a nos acolher em abraços reparadores. Nossos queridos, familiares e amigos, são nossos portos seguros. A quem devemos recorrer em alegria e tristeza, certos em ter amparo. Não estão lá para amaciar-nos, como quem amacia um bife, e preparar-nos para a tão dura realidade, mas para serem nossa mais linda, pura e sublime realidade.

#2 Que abraços são pequenas orações.
O que me encheu de alegria! O discurso foi um pouco mais longo, mas acredito que esta frase se destaque e traduza muito do que o gesto tão simples realmente é. Há várias maneiras de abraçar, é verdade. Existem abraços que nos dissolvem e abraços que libertam lágrimas - não um enlace de braços qualquer, mas uma rápida comunhão de almas. Tornou-se algo corriqueiro, mas o especial é sensível.
Abraços dignos não deveriam acompanhar tapinhas nas costas - odeio tapinhas nas costas. Abraços dignos deveriam ser fortes e duradouros, para que cada palavra indizível seja ouvida e respondida. Ah, tantos abraços, e tanto num gesto simplório de amor!

#3 Que esquecerei pessoas importantes.
Eu não sei bem o que faz pessoas tornarem-se importantes. Tampouco perco tempo a perceber ausência de especialidade, só vejo o que está em destaque, em negrito, marcado em tinta colorida, sem motivo aparente. Pessoas especiais ocupam-nos pensamentos e nos fazem sorrir de um jeito gostoso. São companhia boa, não enjoativa, e que não requer contato constante. Os encontros entre você e quem "brilha no escuro" podem ser espaçados em meses, sem sequelar relacionamento em nível qualquer, pois, ainda assim, ela brilhará, e seu brilho parecerá lhe fazer cócegas.
A frase "Você sequer lembrará meu nome." foi proferida por uma boca cujo dono tenho em carinho. A princípio, que fique claro: nomes e fisionomias são meu campo forte (não é simplesmente maravilhoso reencontrar alguém na rua e perceber mudanças de causa temporal em corpo e energia, sem ser reconhecida?), ai de sua ousadia ao desrespeitá-lo!
Lembranças, como minha professora de Literatura há pouco falou, são nosso refúgio. Se não tivermos estas boas memórias a nos trazer felicidade em uma época em que lágrimas desgostosas nos cegam para a alegria, corremos o infinito risco de deixar a alma apodrecer. O passado nos ampara quando o presente, mesmo breve, é inóspito a nossos sonhos. Não apenas o bom passado acalenta nosso coração, mas também aquele que remete à tristeza - sabendo que já sofri e que, depois, sorri, renovo esperanças e bebo da certeza de que serei feliz outra vez. Alimentando-nos de sonhos e memórias, tendemos ao gozo eterno de cada instante.
Basta um esbarro de ombros - "desculpe!" - e a presença de cada um marcou a vida do outro. O esbarro, ínfimo contato momentâneo e ocasional, modificou caminhos, futuros e mesmo os genes de nossos filhos. Os acasos que modelam nossa existência, na verdade, não devem ser tão casuais quão pensa-se, e a mínima passagem de uma vida por outra já deixa sua marca em ambas. Tendo chegado ao ponto em que eu percebo e admito que você me marcou, acredito que seja importante e, sendo importante, é de difícil esquecimento. Sendo especial, espero de você o mais prolongado abraço e as palavras silenciosas mais ternas. Sendo especial, tenho atitudes suas registradas em mente e tinta, rosto em lápis e impressão, saudades em cenário e protagonismo.
Lhe direi uma coisa, porque sei que, enquanto ser humano, você, leitor, é especial - talvez não a mim, mas a alguém, e estou certa disto -: ainda que esqueçamos seu nome, recordaremos sua voz; ainda que esqueçamos sua voz, recordaremos suas palavras; ainda que esqueçamos suas palavras, recordaremos seu sorriso; e, ainda que esqueçamos tudo isso, recordaremos o bom sentimento que nos trazia com sua presença.
Lembranças, se não são eternas, são, certamente, duradouras. Porque transcendem o material, estão além do conhecido... Memórias se escondem em cada curva de nosso cérebro e, quando por bem, vêm à tona. Se confundem em tempos e nos surpreendem em horários inoportunos, anulando certezas e desenhando sorrisos em nossos rostos - ah, fotografias passadas...
Por agora, nos preocupemos em criar o passado que nos será célebre um dia.

#4 Que silêncios prolongados são carregados de sentimentos.
Sentimentos diversos - há diversos silêncios.
Há silêncios ternos, silêncios secretos, silêncios cúmplices, silêncios amorosos, silêncios impetuosos.
Há momentos nos quais sentimos uma necessidade tremenda de pronunciar algo, mas nada é dito - e a sensação parece atingir também a pessoa com a qual estamos; um silêncio no qual ambos desejem pronunciar verdades, mas se reprimam, quebrando a doçura da calmaria momentânea com inquietação pessoal, ainda que, não notoriamente, conjunta. Foi-me dito que haveria certeza do querer em tais situações - mas querer o que? Nos custa revelar. O que nos embriaga e nos faz bobos nos deixa, também, tímidos, mas, em sinceridade silenciosa, o que não é dito é sensível aos envolvidos.
Algumas pessoas comentaram que adorariam estar apaixonadas.
"Sinto falta de ansiar pela visão, pelo perfume de alguém" confessaram-me.
Sou partidária das paixonites e do calor que a gente sente só de pensar em um certo alguém, mas talvez argumente a favor por raramente estar apaixonada. O sentimento condicional, que depende do outro, nos deixa desconfortáveis. Passamos horas contra argumentando com nosso próprio umbigo: será que sim?, será que não? Somos dominados por uma incerteza que nos custa bastante - e seguimos em tortura, em pensamentos, julgando possibilidades e atrevimentos. Nos regulamos em tudo, nos transmutando ao agradável que parece desagradar o outro. Todavia, quando deslizamos um pouco e sentimos o rosto corar, abre-se um sorriso terno no rosto amado e aquela sensação assustadora e plena nos invade por completo, o estranho choque que percorre nossa espinha em ansiedade pelo toque, pela descarga do que é acumulado a cada retração de timidez. Se pudéssemos calar medos e nos entregar por inteiro...

#5 Que só é feliz quem tem coragem.
Uma verdade, por si só, contraditória, dita por quem não ouve os próprios conselhos, mas, ainda assim, verdade. Posso estar feliz, sem riscos, mas ainda sonhando com o que poderia alcançar sem o medo que tenho. Há sempre algo que sabemos que estamos perdendo, algo que desejamos, mas tentamos esquecer. Tentamos dizer a nós mesmos que o desejo dá e passa, mas, quando culmina em vontade, já não é facilmente ignorado.
É tão difícil abandonar receios... Woody Allen encaixa bem, em uma de suas produções, que "toda covardia vem do não amar". Podemos ficar um pouco chateados com sua colocação, mas jamais dizer que está mentindo. Quando o amor é real, faz com que negligenciemos quaisquer preocupações. O querer que consome expectativas traça meios e nos impulsiona ao abandono da incerteza.
Segundo alguns filósofos, a coragem é supervalorizada por uma historia de honra a guerreiros. Eu, por minha vez, acredito que coragem seja confiar em si próprio, e a autoconfiança é, sem dúvidas, uma porta larga à satisfação.
Mais importante que metodologia, porém, é objetivo, o que nos fará agir e quebrar barreiras, desafiar nossos próprios limites. Devemos sonhar. Sonhar bem alto e buscar realizar cada utopia particular. Se fracassarmos, saberemos quem procurar. As doces palavras consoladoras nos envolverão em uma aura de amor enlaçado, realizado, familiar. Em lembranças construídas e no acalento de um coração latente, habitará a certeza de que voltaremos a sorrir.
 

"O que eu ganho e o que eu perco, ninguém precisa saber." - Lulu Santos

Beijocolates,
#V