sexta-feira, fevereiro 24

Cada eu, carnaval

Cada (dia/conversa/evento/pessoa)

Cada me mexeu diferente

Cada precisou ser

Pra que eu fosse também

A impressão é que com cada eu vou descobrindo

Todas as eus que eu deixava de ser


O processo de voltar às origens

A busca pelos pedaços caídos no caminho

Busca inconsciente, mas constante

Até que acho (encontro ou penso?)

Descubro que o inconsciente está ativo


Eles e elas (ela, em especial)

Me acordando (literalmente ou figurativamente?)

Me espreguiçando

Me esfregando os olhos

Me deitando de novo

Afundando no travesseiro

Querendo passar o dia no colchão

No chão, no céu (ali mesmo)


Mas levanto e me renovo

Antiga

Lavada, completa


Foi carnaval

Mais do que a festa

O pré-pandemia dando as caras

O presságio da alegria de um ano inteiro

A coragem (coragem? Desejo, ânsia) de brincar

Os amores de quatro dias

O encanto

E glitter 

Glitter

Glitter

(até glitter comestível, juro)

Glitter no corpo inteiro

(brilhamos todos)

Mesmo depois do banho

(mesmo depois de dias)

E olhe que eu tomo banho direitinho

(mas eu gosto de brilhar)


Que ano que vem venha de novo, maior e melhor

sábado, fevereiro 18

quero te mimar profundamente


esse foi um tempo de muitas vivências
muitos encontros
na cidade

a princípio não sabia se conseguiria existir ali
y existi alis
plenamente

escrevo isso escutando o conde só brega, conde só pedrada
agora, os pássaros...
tempo passando
cachorro latindo
carros incessantes
a cidade mais parada
movimentação se sente em ondas, como o vento que corre, me bagunça
me atravessa?
mais ou menos...
sou mais ou menos poroso para a brisa que me percorre

tem sempre algum ruído
parei a música para sentir o silêncio
e aos poucos me dei conta de quão silencioso pode ser o ruído e quão ruidoso pode ser o silêncio
ou vice-versa

não estou confiante de que minhas palavras façam sentido ou interessem 
a quem quer que seja

mas a mim interessa muitíssimo que eu as escreva

"escrever com os olhos"

quero sorrir
te olhando nos olhos

te olhar é gostoso
tu olha e sustenta

me sinto hipnotizade pela tua existência

"escrever cartas de amor"

eu amo você e
amar você 
me enche de amor
para amar o mundo

amar é gostoso
escorre............

quis sentir o fogo nas bochechas
que sobe cada vez que você olha para mim
e sustenta olhar profundo, aberto

termino esse texto sentindo 
as bochechas ardendo e
o coração a pular no peito

>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>vique

sábado, setembro 17

Quantas vezes

Uma notícia difícil

Uma refrescância ruim

Como se tivesse hortelã circulando na minha corrente sanguínea

Irrigando meu rosto inteiro

Passando pelo meu peito, apertando o coração

Revirando meu estômago

Ardendo por dentro


Progresso desfeito, ao perceber que já não era pra arder assim, mas arde 


Assim

Eu corto a fonte do hortelã que em outro tempo me adoçou a boca

Agora sem frescor

segunda-feira, julho 11

Terminou, que ódio

Terminou

Acabou

Dessa vez, de verdade

Terminou, deixando apenas tudo

Agora reaprender a ser

O irônico é que dia desses eu tava falando de renovações... 

"Faz parte", "choices", "é o que é"

Que ódio ter a consciência de que melhor isso do que sofrer um pouco a cada final de semana

Que ódio preferir sofrer esse tanto, mas ainda ter esperança

Que ódio acabar com a esperança, mesmo sabendo que isso é melhor no longo prazo

Que ódio falar de "longo prazo" quando há algumas horas meu longo prazo era outro (na minha cabeça)

Que ódio nem conseguir falar disso direito

Antes tarde do que mais tarde

Eu falei ódio, mas é tristeza mesmo

Que ódio

sexta-feira, janeiro 28

Mudança

Júlia Alencar:

Minha gente


De repente bateu uma coisa tão estranha


Até agora a pouco eu tava tão bem, tão plena


Eu viajo amanhã e tô muito bem com a viagem e tudo


Mas de repente bateu uma tristeza de despedida


Como se eu tivesse me despedindo de mim


Tô chorando aqui "do nada"


Pq eu tava me olhando no espelho e percebendo que essa pessoa vai mudar tanto


Eu sei q revoluções são boas


E que de fato não precisa de uma mudança de cidade pra mudar uma pessoa, efetivamente eu poderia me despedir de mim todo dia


Mas bateu diferente


Alice:

Com certeza ami


Tb é uma despedida de vc mesma


:,)


Mas ao tempo tempo


Acho q a gente só se transforma muito quando há esse ímpeto


Jade Oliveira:

Aquela conversa das julias né amig


eh uma despedida eu acho tb


algumas julias vão ficar p trás


Mas tu vai descobrir tantas nova tb


💛

terça-feira, agosto 31

o que expressa o desejo de penetração?

acho que pra chegar no miolo da questão a gente tem que se desprender de algumas suposições

como de que penetração é penistração

que o pênis está no centro do babado

ou que simplesmente está lá

mesmo que às margens


vamos começar desnaturalizando a coisa toda

pensando que não é carne mas dildo

quem disse isso?

antes do falo, já existia o dildo

e o dildo pode ser

praticamente 

qualquer coisa


uma ferramenta de prazer

poder? dar prazer


estritamente artificial, não biológico

que parte da criatividade

para saciar 

a si

a outre

quem seja


a ideia de sexo ainda vigente 

baseia-se na utilidade da cena sexual

num funcionalismo estrito

sexo por reprodução

sexo com penetração

pênis na vagina

ejaculação

em poucos minutos

só na intenção de fecundar corpo

virar de lado e dormir

ou ir embora

estando cumprido o objetivo


os efeitos disso são tantos


é o impacto no sexo como um todo

mas também nos relacionamentos

é o sexo para reprodução

o vínculo para a família

e então a monogamia


sim

porque precisamos constituir uma família, não é?

é o que nos manda a moral cristã

trabalhar pela bênção que é vida

compromisso trabalhista até que a morte nos separe

a morte, mais nada

nem falta de vontade


- a quantas partes chegamos

na promessa de permanecemos no mesmo lugar? -


o corpo que gesta serve ao corpo que penetra

e quem quiser derivar desse propósito

que se lasque

que se dane

queime

no fogo do inferno


ou faça poesia das cinzas de si

floresça amor

e viva disso

do amor


é a essência familiar sem propósito reprodutivo

alianças produtivas

que constroem afetos

companheirismo

lindo


história de desejo que transcende o corpo

a monogamia agora num esquema outro

de estar junto

compartilhar

e amar

amar

amar!!


amar livremente 

sem qualquer distinção

sem faltar com respeito

cada qual que cuide de sua vida

mas não atente à família e aos seus valores


love wins!


- mas e a sacanagem? -


sexo por sexo

não vazio, cheio de afeto

transbordando em fluidos de corpo a corpo


não por amor

não pela família

mas pela vontade de comer

tremular

fraquejar

arder


as mãos percorrem pele

se deliciam na descoberta de braços, pernas, cada canto só então explorado

molha, transborda, derrama, encaixa


os olhos reviram, a voz escapa

sorriso escorre desesperado

de fome

ume de outre


encontro frenético

delirante

de sentir corpo junto, conecto

num instante passageiro

não eterno

de amor


carne com carne

em sua totalidade

em sua loucura

sem qualquer vaidade que conserve compromisso

com qualquer fragmento de realidade


cena entorpecida onde

desejo

expressa 

desejo

somente

quarta-feira, junho 2

temas juninos: orgulho mogai

junho chegou! e cada vez que chega, começa toda uma movimentação sobre o orgulho LGBTQIAP+ em debates mais rasos ou mais profundos, com filtros temáticos para o instagram e fervorosas campanhas de marcas sedentas por pink money (dinheiro extorquido da comunidade LGBTQIAP+ na compra de coisinhas coloridas sem qualquer compromisso com a causa).

(ícone do deboche, pabllo vittar em clipe de "seu crime")

esse é sempre tempo para estudar um pouco mais sobre dissidência de gênero e sexualidade. pensei se não deveria compartilhar um pouco dessas descobertas com alguém - qualquer pessoa que fosse, que estivesse interessada em saber sobre os castelos que tenho construído dentro de minha própria cabeça.

o meu processo de reconhecimento enquanto pessoa que sou começa no confronto com a heteronormatividade que até aquele momento eu não sabia que precisava seguir. códigos de vestimenta, etiqueta, performance de gênero e sexualidade, tudo bem escrito em letras garrafais, invisíveis, mas dolorosamente esculpidas na sentença do primeiro nascimento. somos entregues à luz, as partes iluminadas são avaliadas e é dado o veredicto: menina ou menino, parabéns!

sou uma pessoa que acreditou no termo "opção" para identidades de gênero e sexualidade porque sentia intimamente que qualquer pessoa poderia manifestar-se como bem quisesse, se relacionando com quem bem entendesse, e desfrutaria com prazer em tudo isso. boca é boca, beijo é beijo, e a delícia de se derramar assim devagarinho num chamego gostoso, poxa! que importa gênero ou sexualidade nisso tudo? 

ora! não é bem assim que acontece. no fim das contas eu era mais uma pessoa "diferente", desinformada e despolitizada.

foi longo o processo de descoberta e compreensão de mim mesma enquanto pansexual, uma pessoa que sente atração por pessoas de uma forma geral, não importando gênero e/ou sexualidade com que se identifiquem. a monodissidência (um desvio da monossexualidade - atração por um único gênero, como homossexualidade ou heterossexualidade) se anuncia ainda mais forte que propriamente a ideia de uma bandeira específica nela compreendida, e acabo numa gastação sem fim sobre pansexualidade, bissexualidade, polissexualidade e omnissexualidade/onissexualidade. 

é sobre tudo isso que gostaria de escrever e (quem sabe) compartilhar com vocês, numa pesquisa de mim mesma que invariavelmente aponta para uma pesquisa da comunidade!

chego cá inspirada pela nova juventude dissidente que promove debates sobre gênero e sexualidade botando o próprio corpo pra jogo nas redes sociais. acompanhar essas discussões me colocou em contato com alguns termos até então desconhecidos, como...
* MOGAI *
(ícone assexual bob esponja)

esse termo que me pareceu tão estranho a princípio é sigla alternativa para as letras que não conseguimos ler como palavra, e significa "orientações e alinhamentos de gênero marginalizades e intersex" (Marginalized Orientations Gender Alignments and Intersex). uma derivação possível é IMOGA, que coloca intersex logo à frente.

desde aí, já começa o meu encantamento. tomar posse de um termo assim é afirmar a posição política de uma identidade marginalizada e falar a partir dela, pensando a partir dela. e vai além disso: permite levantar bandeiras outras para além das já conhecidas (embora nem sempre reconhecidas) LGBT (lésbicas, gays, bissexuais e trans).

essa é a possibilidade de levantar bandeiras em toda a sua pluralidade, indo fundo na especificidade de cada uma delas, que consideram identidade, alinhamento, orientação e a forma como tudo isso se articula com gênero, sexualidade e romance. há um empenho em encontrar representatividade para si em cores e reflexões, fazendo pesquisas profundas sobre os próprios sentimentos, a forma de se relacionar consigo e com o mundo!

os rótulos e os micro-rótulos dentro da comunidade MOGAI são ainda motivo de muito bate-boca. algumas pessoas acham que especificidades podem comprometer a visibilidade e o entendimento da causa para quem vê de fora (ou mesmo quem vê de dentro). mas uma parcela importante de pessoas está lutando para dar visibilidade e promover o entendimento dessas bandeiras para quem possa se identificar com elas, o que é um trabalho principalmente voltado para a própria comunidade ou mais ainda para si. questionamentos frequentes sobre a validade dessas identidades são rebatidas com um estímulo à investigação de si e mesmo à formulação de novos termos que contemplem ainda melhor, de forma mais precisa, aquilo que transborda do que se sente.

me sinto provocada, fico fascinada com essa movimentação entre pessoas tão jovens. talvez principalmente por serem tão jovens ♥

é material pra mais castelos que vêm aí! como isso tudo te atravessa?

vique