quarta-feira, abril 12

O grito

Passou uma ambulância
Passou uma ambulância com a sirene
Avisando a todos que houve um acidente
Passou a sirene e seu grito
Dizendo a todos "se importem"
Saiam do caminho e olhem pelas janelas
Pois hoje podemos perder alguém
A sirene e a lembrança de que
- Oi, somos todos gente
Uma comunidade, uma cidade
Precisa estampar no céu o rosto do doente
Ou será que basta essa sirene?


xu

domingo, outubro 9

dor oculta

eu quero, eu quero, eu quero!
balanço a cabeça para os lados : não tenho nada a oferecer
e ele suplica: eu preciso, eu preciso, eu preciso!
cedo
mas não tenho nada para dar
tento
mas não consigo
E DÓI
estou completamente esgotada
olho-o com o canto do olho, envergonhada, e sinto-me mal
tento mais
junto dentro de mim todo o amor que me resta, o pouco amor mazelado que uso para manter-me viva
e entrego
entrego tudo
DÓI, MESMO
por um ou dois minutos, penso que consigo
mas não consigo: já o magoei
é o fracasso, é o fracasso!
estou devastada
me acanho, me afasto e me encolho
tento chorar sozinha
DÓI PORQUE AMO
e ele vê que chorei
e invade meu choro
e choro pela invasão
e choro pela culpa
e choro por cada invasão e por cada culpa que já senti na vida
e choro por ele estar ali
DÓI PORQUE QUERO
acordo bem
acordo ao seu lado
e seu carinho me preenche
e estou feliz outra vez
e te quero perto de mim
e você já não me quer por perto
e você já não precisa de mim por perto
DÓI PORQUE NÃO SEI AMAR
eu quero, eu quero, eu quero!
mas você não tem nada a oferecer
e eu suplico: eu preciso, eu preciso, eu preciso!
tarda
não cede
e permaneço onde estou, com as pernas trêmulas sobre os pés fincados
#V
o tormento me persegue
não sei
não sei.

terça-feira, setembro 27

A verdade


Não foi no jazz, não foi numa viagem, foi no carnaval, no colégio, numa festa, numa saída pro Recife Antigo, através de amigos em comum, foram várias pessoas e várias situações que me ensinaram várias coisas diferentes. Cada uma com uma história e uma personalidade diferente, que reagem de formas diferentes e pensam diferente.


A verdade é que a minha verdade é diferente da sua

fonte desconhecida

Vivo num mundo de exatas, cheio de verdades absolutas e, assim, rodeada de pessoas (principalmente professores) que acham que essa precisão nas conclusões se aplica a tudo, mas relações sociais são inexatas e imprevisíveis, e isso não é nenhuma novidade.

Não tenho base científica sólida pra fundamentar minhas opiniões, mas sei que, para mim, a mesma situação que ocorra em momentos emocionais diferentes terá um impacto diferente, então, se para uma mesma pessoa (eu) é possível perceber a mesma situação de duas ou mais formas, o que dizer dos outros?

Escrevo isso por causa de tantos textões que hoje vejo na internet, um se achando mais certo que o outro, frequentemente com o uso de "a verdade é que...", seguido de alguma frase generalista baseada totalmente em opinião própria e eu cansei de ver algum(a) desconhecido(a) falando de uma única pessoa que conheceu e a utilizando pra representar um grupo inteiro.

Opinemos, sim, sempre, por favor! Mas lembremo-nos de fazê-lo deixando claro que é nossa opinião, que se restringe a algumas pessoas apenas, não falemos de qualquer minoria como se conhecêssemos cada membro, porque sempre vai ter alguém que não se identifica com o que foi escrito e enfraquecerá sua credibilidade.

A verdade é subjetiva, então vamos parar de tentar enfiar a nossa na goela alheia.

Xu

quarta-feira, julho 27

ve-la


é quando a luz cessa, quando a noite a faz sentir sozinha, que me procura
na escuridão.
as mãos que me buscam tocam paredes e móveis, cegas, até encontrarem meu corpo.
seus dedos me tocam, me sentem, me esquentam... me deixam momentaneamente, e o ruído produzido por um risco é gostoso aos ouvidos.
o calor me toca e me envolve, deliciando-me - está dentro e fora de mim.
seus lindos olhos são visíveis a todos mais uma vez - seus lindos olhos.
mas estamos apenas as duas ali. sou privilegiada por isso.
aqueço-a, me sinto querida, mas ela já não está ali. o toque se foi.
a chama que arde em mim não mais é das carícias, mas do que ela fez comigo enquanto me acariciava.
meu próprio fogo me consome, literalmente, me destruindo aos poucos
dói. a dor excruciante me toma por inteiro.
minha paixão me derrete, me machuca e me diminui - a troco de quê estou morrendo em mais uma noite escura?
algo muda no ambiente, mas a dor não me deixa entender o que é.
ela move-se vagarosamente pelo cômodo, cada vez mais perto de mim. estou a poucos centímetros de seu rosto agora, mas não posso tocá-la.
ela abre um sorriso delicado e delicioso, e meu fogo expande-se, iluminando suas bochechas.
esqueço a dor em sua companhia, e me derreto ainda mais rapidamente.
vou morrer! vou morrer de amor!
sua boca toma outro formato lentamente, preparando-se para um beijo.
minha chama é agora inquieta, diante dessa imagem. a quero mais perto, mais perto!
mas não é um beijo. é um sopro.
ainda atordoada, já morna e sem vida, me descubro inútil no cômodo iluminado.
suas mãos, agora ágeis e precisas, removem-me de meu altar recém-conquistado, me quebrando no ato.
estou menor e machucada quando sou posta de volta na gaveta. já fria, desolada e esquecida.
mas só penso nela. e mal posso esperar para ser lembrada outra vez.

#V

quarta-feira, julho 6

Acordo

acordo.
"acorda"
a casa é estranha
e vazia, exceto pela pessoa
que dorme.
"acorda"
não tem o que fazer
não se fala
pra que ela possa dormir
mas ela não pode dormir
"acorda"
"dorme"
"acorda"
acorda.

acordo.
outra cama
outro quarto
outra casa
mesma pessoa
que dorme.
"acorda"
mais silêncio
e a angústia pra não me mexer
não queria atrapalhar o sono dela
mas ela não podia dormir
eu estou aqui
"acorda"
"vai dormir"
"acorda"
acorda

desacordo
mas nem tinha
acordo

nem
nada

acordo
mais uma casa
minha casa
sem pessoa
sem ninguém
"acorda"
dessa vez, pra mim
a cabeça quer dormir, mas o corpo discorda

"acorda"

"acorda"

acordo
pra não mais querer cair
só que a gente cansa, né
e quando menos espera já tá "acorda"
de novo

xu

segunda-feira, julho 4

duas mãos


para cada mão, há uma mão
e duas mãos ficam sozinhas

as duas mãos são minhas
mas minhas as mãos não são

a mão acaricia a minha mão
minha mão acaricia a mão

as mãos tocam
as mãos são tocadas

o toque, sinto-o por inteiro

são minhas mãos
são minhas próprias mãos

o toque das mãos é inexistente
as mãos não se tocam
são mãos carentes

seria a mão que toca suficiente?
e a mão que é tocada, como se sente?

as mãos se tocam.
"são minhas mãos"
mas nenhuma delas me pertence
#V