segunda-feira, setembro 8

Recificação

 O meu corpo faz um processo que nasceu comigo

A recificação


Meio biológica, mas sobretudo psicológica, a recificação não pode ser ensinada - ou é ou não é

Sempre atômico

Diagnostico crônico

A condição recífica


Ela funciona assim:


Quando respiro, o ar que me atravessa sai Recife

O suor que eu transpiro é Recife

Minhas ideias, o que eu falo, como me movo

É tudo Recife


Assim como é meu corpo e o espaço que eu ocupo

Físico ou metafórico

Só não chega a ser folclórico

Ainda não ganhei esse status


Eu ando pelo mundo

Espalho minha terra

Eu deixo meu Recife aqui e ali

Carrego comigo no sangue, nos olhos e no cabelo

Até o que cai quando eu penteio


Eu o carrego

E ele, me move

Carga


Eu posso já não estar mais em Recife

Mas eu sou

E tudo o que por mim passa também é

Recife

Através da recificação


E prévias me têm em crise


segunda-feira, fevereiro 24

Gigante

 Um frevo, um brega, um samba, Nação

Uma BA-GA-CEI-RA

                        Uma cerveja antes do almoço é muito bom pra ficar pensando melhor


La ursa, papangu, caboclo de lança

Boneco gigante

Isso não tem em canto nenhum outro do mundo

                        É só aqui que tem, é só aqui que há


Cantar músicas centenárias em plenos pulmões na rua com milhões de desconhecidos

Com uma orquestra estourando do seu lado

Trocar de bloco no cruzamento, porque cansei de ficar parada (por um total de 2 minutos)

                        No quatro cantos cheguei, e todo mundo chegou


5 dias de folia nas ladeiras de Olinda

Todo mundo junto

                        Olinda, quero cantar a ti esta canção


Queria, viu

quinta-feira, setembro 19

Invisível

Vou te pedir paciência e algum nível de visualização, porque essa foi uma história verídica e prometo que não foi um sonho. (edit: achei uma imagem do que seria a escada, então nem precisa de tanta imaginação assim)


(essa imagem foi do Google, não foi foto do dia do evento)

Cenário: estamos na primeira semana de aula, e a faculdade coloca todo mundo num ônibus pra um "centro" a algumas horas da cidade. Todo mundo da mesma turma está vestindo a mesma camisa, e com bandanas coloridas. "Somos um time" é a clara mensagem - e também "aprenda quem é da sua turma" porque de fato é só a primeira semana de aula.

No "centro" tem várias atividades, algumas mais cognitivas do que outras, e todas são executadas em equipes de 6-7 pessoas. Chegamos na terceira atividade do dia, e temos que subir uma escada gigante de corda, que tem um total de 5 degraus, apartados mais ou menos 1,5 metros entre um degrau e o próximo. No caso, temos que escalar, e sua equipe é responsável por te ajudar a não se estabacar no chão (polias, cordas, etc).

Eu vou no primeiro trio de pessoas a subir. Pra deixar bem claro, minha altura é menor que 1,5m. Eu achei que ter alguma experiência com bouldering, via ferrata, acrobacia e crossfit me ajudariam a subir com alguma facilidade - eu estava errada, foi difícil pacas. Consegui subir, ajudei as 2 pessoas que estavam comigo a subir também. Fiquei com as coxas roxas e os braços cansados, mas subi.

Vou usar Marshall como personagem aqui, mas a lição que eu tirei não é especificamente sobre ele.

Mais perto do final da atividade da escada, Marshall foi escalar com outras 2 pessoas. Marshall é veterano do exército americano e deve ter mais de 1,8m. Marshall sobe com MUITA facilidade. Enquanto eu precisei me esticar entre um degrau e o próximo pra conseguir me puxar pra cima, Marshall conseguia se propulsionar pra cima só levantando a perna.

Mas Juju, o que tem essa história? - você pode perguntar

O que tem é que, nessa situação, ninguém me cobraria de ter a mesma performance que Marshall. Eu também não me cobraria de ter a mesma performance que Marshall. Ele já escalou várias coisas antes nos treinamentos dele do exército, ele é forte, alto, é natural que ele tivesse maior facilidade do que eu na escalada, mais do que natural, é visível que ele teria uma performance melhor com menos esforço.

Se a tarefa fosse pegar algo num armário alto e eu quisesse executar, eu pegaria uma cadeira e subiria nela sem nenhuma vergonha, pra alcançar o armário. Enquanto isso, Marshall conseguiria alcançar o armário sem precisar pensar muito.

Daí vamos pra uma situação invisível:

Se eu tenho um trauma e Fulano não tem o tal trauma, ele vai conseguir executar algumas funções da vida com muito mais facilidade, agachado, de olhos fechados, enquanto eu me esforço horrores pra conseguir fazer a mesma coisa. Eu olho pra Fulano e penso "se Fulano consegue é porque é possível, né". Ignorando completamente que fulano NÃO TEM O TRAUMA. Sendo que eu não necessariamente tenho consciência do trauma, e eu não sei se Fulano de fato não tem o trauma. O que eu sei é apenas que Fulano consegue e eu não consigo.

Se eu soubesse que Fulano tem alguma condição que torna alguma situação mais fácil pra ele do que pra mim, será que eu pegaria a metafórica cadeira que me ajudaria a lidar com a tal situação?

Eu estou agora num curso com pessoas de vários lugares, várias realidades socioeconômicas, que estavam fazendo várias coisas diferentes antes de chegar aqui. Algumas pessoas estão fazendo um mestrado em engenharia em paralelo, outras fizeram 1 ano em Harvard antes de chegar aqui, tem quem acabou de concluir um doutorado no MIT e emendou nesse curso, tem quem veio de um sabático, e tem aqueles que, como eu, vieram direto do mercado de trabalho.

Eu não consigo dar conta das leituras todas que preciso fazer. Eu tenho meus privilégios (como um relacionamento tranquilo, alguém que divide as tarefas comigo em casa, um estágio garantido na empresa que trabalho, um conhecimento de estatística que me ajuda com uma das matérias mais tecnicamente difíceis), outras pessoas têm os delas (dinheiro, família perto, familiaridade com o estilo das disciplinas, ou qualquer outro aspecto que nem passa pela minha cabeça) e isso é tudo INVISÍVEL.

Apenas isso que tenho a dizer - foi minha grande realização da semana na terapia

terça-feira, agosto 6

Quem olha sou eu

Como a visão na câmera antes da foto

Vai sair assim, só fotografar

Ih, mexeu

Vai de novo?


A foto já foi, e foi assim mesmo

Revela se quiser (iiiiih, terapia nelas)


Mas sobre o futuro:

O futuro nunca está


Tá meio ali mas não tá

Tá meio ali

Mas não tá

Não tá...

...até que é tudo o que há


O que era agora já foi

O que vinha também já foi

Porque tudo vai 

Nada está, mas tudo fica

E vai no tempo

E guardo no peito

E saúdo na memória

E saudade nos olhos

E, quem sabe, volta

Voltarei


Na volta, diferente

Diferente eu (nova e mais velha)

Diferente espaço (velho e só velho)

Diferente tudo (quem olha sou eu)

Mas tudo igual (quem olha sou eu)

Menos eu, porque quem olha sou eu

Quem ficou não congelou?

Estátua!


Só dá pra acompanhar uma vida por vez, calma lá


Eu já falando do futuro no passado

E o presente, quem tá aqui?

Quem conduz o agora se eu piloto o imaginário?

Quem está aqui se quem olha sou eu?

Click!

Se bobear, perdeu

quarta-feira, janeiro 17

lembrei que gosto de escrever

 eu lembrei que gosto de escrever 

e me deu vontade de chorar

porque faz tempo que eu nao escrevo


não sei onde espalhar palavras para que elas cheguem a qualquer lugar

que tipo de ferramenta é essa que nos conecta por texto

longo?

a quem interessa?


encostei a cabeça no travesseiro e comecei a chorar

não exatamente assim 

mas parecido


é que lembrei da quantidade de fotos que tirei ao longo dos anos 

e nenhuma destas revelei 


pouquíssimas deixei acessível a quem interessava


muitos encontros 

momentos em família


memórias da gente junto

vovó sorrindo, contemplando o tanto de gente


eu lembro que eu gostava muito de conversar com a minha mãe 


comecei a chorar

porque não respondi à sua última mensagem 

e faz tempo que nao telefono

mesmo sentindo muita saudade 


eu to muito cansado do final do ano 

da virada pra cá, tô bem quietinho

entocado, na minha toca

processando, sentindo tudo

bem devagarinho

entendendo meu ritmo

aprendendo meu cuidado


ser sozinho é muita coisa


vez por outra

hoje mesmo

tá valendo mais arriscar um processo alérgico

do que dormir sem a companhia dos meus gatos


vique

segunda-feira, outubro 23

Até a saudade é tranquila

A tranquilidade perde poesia porque vem sem dor

Tal qual no samba,

A melancolia no verso evoca a beleza

A tristeza não é senhora coisa nenhuma

Não existe beleza maior

Do que a paz de um amor tranquilo

Com sabor de torta mordida (tomei liberdades, Cassia)

Entrelaçada em redes que eu não quero me soltar

Ou atraída por um ímã disfarçado de bochechas

Cuidado com as bochechas rosas!


Meu amor, pega cada pedaço de mim

Ou pega um dedinho só

Mesmo eu sendo do mundo

O mundo é teu

Zela por esse carinho

Invade minha família


-Xu




sexta-feira, fevereiro 24

Cada eu, carnaval

Cada (dia/conversa/evento/pessoa)

Cada me mexeu diferente

Cada precisou ser

Pra que eu fosse também

A impressão é que com cada eu vou descobrindo

Todas as eus que eu deixava de ser


O processo de voltar às origens

A busca pelos pedaços caídos no caminho

Busca inconsciente, mas constante

Até que acho (encontro ou penso?)

Descubro que o inconsciente está ativo


Eles e elas (ela, em especial)

Me acordando (literalmente ou figurativamente?)

Me espreguiçando

Me esfregando os olhos

Me deitando de novo

Afundando no travesseiro

Querendo passar o dia no colchão

No chão, no céu (ali mesmo)


Mas levanto e me renovo

Antiga

Lavada, completa


Foi carnaval

Mais do que a festa

O pré-pandemia dando as caras

O presságio da alegria de um ano inteiro

A coragem (coragem? Desejo, ânsia) de brincar

Os amores de quatro dias

O encanto

E glitter 

Glitter

Glitter

(até glitter comestível, juro)

Glitter no corpo inteiro

(brilhamos todos)

Mesmo depois do banho

(mesmo depois de dias)

E olhe que eu tomo banho direitinho

(mas eu gosto de brilhar)


Que ano que vem venha de novo, maior e melhor

sábado, fevereiro 18

quero te mimar profundamente


esse foi um tempo de muitas vivências
muitos encontros
na cidade

a princípio não sabia se conseguiria existir ali
y existi alis
plenamente

escrevo isso escutando o conde só brega, conde só pedrada
agora, os pássaros...
tempo passando
cachorro latindo
carros incessantes
a cidade mais parada
movimentação se sente em ondas, como o vento que corre, me bagunça
me atravessa?
mais ou menos...
sou mais ou menos poroso para a brisa que me percorre

tem sempre algum ruído
parei a música para sentir o silêncio
e aos poucos me dei conta de quão silencioso pode ser o ruído e quão ruidoso pode ser o silêncio
ou vice-versa

não estou confiante de que minhas palavras façam sentido ou interessem 
a quem quer que seja

mas a mim interessa muitíssimo que eu as escreva

"escrever com os olhos"

quero sorrir
te olhando nos olhos

te olhar é gostoso
tu olha e sustenta

me sinto hipnotizade pela tua existência

"escrever cartas de amor"

eu amo você e
amar você 
me enche de amor
para amar o mundo

amar é gostoso
escorre............

quis sentir o fogo nas bochechas
que sobe cada vez que você olha para mim
e sustenta olhar profundo, aberto

termino esse texto sentindo 
as bochechas ardendo e
o coração a pular no peito

>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>vique

sábado, setembro 17

Quantas vezes

Uma notícia difícil

Uma refrescância ruim

Como se tivesse hortelã circulando na minha corrente sanguínea

Irrigando meu rosto inteiro

Passando pelo meu peito, apertando o coração

Revirando meu estômago

Ardendo por dentro


Progresso desfeito, ao perceber que já não era pra arder assim, mas arde 


Assim

Eu corto a fonte do hortelã que em outro tempo me adoçou a boca

Agora sem frescor

segunda-feira, julho 11

Terminou, que ódio

Terminou

Acabou

Dessa vez, de verdade

Terminou, deixando apenas tudo

Agora reaprender a ser

O irônico é que dia desses eu tava falando de renovações... 

"Faz parte", "choices", "é o que é"

Que ódio ter a consciência de que melhor isso do que sofrer um pouco a cada final de semana

Que ódio preferir sofrer esse tanto, mas ainda ter esperança

Que ódio acabar com a esperança, mesmo sabendo que isso é melhor no longo prazo

Que ódio falar de "longo prazo" quando há algumas horas meu longo prazo era outro (na minha cabeça)

Que ódio nem conseguir falar disso direito

Antes tarde do que mais tarde

Eu falei ódio, mas é tristeza mesmo

Que ódio

sexta-feira, janeiro 28

Mudança

Júlia Alencar:

Minha gente


De repente bateu uma coisa tão estranha


Até agora a pouco eu tava tão bem, tão plena


Eu viajo amanhã e tô muito bem com a viagem e tudo


Mas de repente bateu uma tristeza de despedida


Como se eu tivesse me despedindo de mim


Tô chorando aqui "do nada"


Pq eu tava me olhando no espelho e percebendo que essa pessoa vai mudar tanto


Eu sei q revoluções são boas


E que de fato não precisa de uma mudança de cidade pra mudar uma pessoa, efetivamente eu poderia me despedir de mim todo dia


Mas bateu diferente


Alice:

Com certeza ami


Tb é uma despedida de vc mesma


:,)


Mas ao tempo tempo


Acho q a gente só se transforma muito quando há esse ímpeto


Jade Oliveira:

Aquela conversa das julias né amig


eh uma despedida eu acho tb


algumas julias vão ficar p trás


Mas tu vai descobrir tantas nova tb


💛

terça-feira, agosto 31

o que expressa o desejo de penetração?

acho que pra chegar no miolo da questão a gente tem que se desprender de algumas suposições

como de que penetração é penistração

que o pênis está no centro do babado

ou que simplesmente está lá

mesmo que às margens


vamos começar desnaturalizando a coisa toda

pensando que não é carne mas dildo

quem disse isso?

antes do falo, já existia o dildo

e o dildo pode ser

praticamente 

qualquer coisa


uma ferramenta de prazer

poder? dar prazer


estritamente artificial, não biológico

que parte da criatividade

para saciar 

a si

a outre

quem seja


a ideia de sexo ainda vigente 

baseia-se na utilidade da cena sexual

num funcionalismo estrito

sexo por reprodução

sexo com penetração

pênis na vagina

ejaculação

em poucos minutos

só na intenção de fecundar corpo

virar de lado e dormir

ou ir embora

estando cumprido o objetivo


os efeitos disso são tantos


é o impacto no sexo como um todo

mas também nos relacionamentos

é o sexo para reprodução

o vínculo para a família

e então a monogamia


sim

porque precisamos constituir uma família, não é?

é o que nos manda a moral cristã

trabalhar pela bênção que é vida

compromisso trabalhista até que a morte nos separe

a morte, mais nada

nem falta de vontade


- a quantas partes chegamos

na promessa de permanecemos no mesmo lugar? -


o corpo que gesta serve ao corpo que penetra

e quem quiser derivar desse propósito

que se lasque

que se dane

queime

no fogo do inferno


ou faça poesia das cinzas de si

floresça amor

e viva disso

do amor


é a essência familiar sem propósito reprodutivo

alianças produtivas

que constroem afetos

companheirismo

lindo


história de desejo que transcende o corpo

a monogamia agora num esquema outro

de estar junto

compartilhar

e amar

amar

amar!!


amar livremente 

sem qualquer distinção

sem faltar com respeito

cada qual que cuide de sua vida

mas não atente à família e aos seus valores


love wins!


- mas e a sacanagem? -


sexo por sexo

não vazio, cheio de afeto

transbordando em fluidos de corpo a corpo


não por amor

não pela família

mas pela vontade de comer

tremular

fraquejar

arder


as mãos percorrem pele

se deliciam na descoberta de braços, pernas, cada canto só então explorado

molha, transborda, derrama, encaixa


os olhos reviram, a voz escapa

sorriso escorre desesperado

de fome

ume de outre


encontro frenético

delirante

de sentir corpo junto, conecto

num instante passageiro

não eterno

de amor


carne com carne

em sua totalidade

em sua loucura

sem qualquer vaidade que conserve compromisso

com qualquer fragmento de realidade


cena entorpecida onde

desejo

expressa 

desejo

somente

quarta-feira, junho 2

temas juninos: orgulho mogai

junho chegou! e cada vez que chega, começa toda uma movimentação sobre o orgulho LGBTQIAP+ em debates mais rasos ou mais profundos, com filtros temáticos para o instagram e fervorosas campanhas de marcas sedentas por pink money (dinheiro extorquido da comunidade LGBTQIAP+ na compra de coisinhas coloridas sem qualquer compromisso com a causa).

(ícone do deboche, pabllo vittar em clipe de "seu crime")

esse é sempre tempo para estudar um pouco mais sobre dissidência de gênero e sexualidade. pensei se não deveria compartilhar um pouco dessas descobertas com alguém - qualquer pessoa que fosse, que estivesse interessada em saber sobre os castelos que tenho construído dentro de minha própria cabeça.

o meu processo de reconhecimento enquanto pessoa que sou começa no confronto com a heteronormatividade que até aquele momento eu não sabia que precisava seguir. códigos de vestimenta, etiqueta, performance de gênero e sexualidade, tudo bem escrito em letras garrafais, invisíveis, mas dolorosamente esculpidas na sentença do primeiro nascimento. somos entregues à luz, as partes iluminadas são avaliadas e é dado o veredicto: menina ou menino, parabéns!

sou uma pessoa que acreditou no termo "opção" para identidades de gênero e sexualidade porque sentia intimamente que qualquer pessoa poderia manifestar-se como bem quisesse, se relacionando com quem bem entendesse, e desfrutaria com prazer em tudo isso. boca é boca, beijo é beijo, e a delícia de se derramar assim devagarinho num chamego gostoso, poxa! que importa gênero ou sexualidade nisso tudo? 

ora! não é bem assim que acontece. no fim das contas eu era mais uma pessoa "diferente", desinformada e despolitizada.

foi longo o processo de descoberta e compreensão de mim mesma enquanto pansexual, uma pessoa que sente atração por pessoas de uma forma geral, não importando gênero e/ou sexualidade com que se identifiquem. a monodissidência (um desvio da monossexualidade - atração por um único gênero, como homossexualidade ou heterossexualidade) se anuncia ainda mais forte que propriamente a ideia de uma bandeira específica nela compreendida, e acabo numa gastação sem fim sobre pansexualidade, bissexualidade, polissexualidade e omnissexualidade/onissexualidade. 

é sobre tudo isso que gostaria de escrever e (quem sabe) compartilhar com vocês, numa pesquisa de mim mesma que invariavelmente aponta para uma pesquisa da comunidade!

chego cá inspirada pela nova juventude dissidente que promove debates sobre gênero e sexualidade botando o próprio corpo pra jogo nas redes sociais. acompanhar essas discussões me colocou em contato com alguns termos até então desconhecidos, como...
* MOGAI *
(ícone assexual bob esponja)

esse termo que me pareceu tão estranho a princípio é sigla alternativa para as letras que não conseguimos ler como palavra, e significa "orientações e alinhamentos de gênero marginalizades e intersex" (Marginalized Orientations Gender Alignments and Intersex). uma derivação possível é IMOGA, que coloca intersex logo à frente.

desde aí, já começa o meu encantamento. tomar posse de um termo assim é afirmar a posição política de uma identidade marginalizada e falar a partir dela, pensando a partir dela. e vai além disso: permite levantar bandeiras outras para além das já conhecidas (embora nem sempre reconhecidas) LGBT (lésbicas, gays, bissexuais e trans).

essa é a possibilidade de levantar bandeiras em toda a sua pluralidade, indo fundo na especificidade de cada uma delas, que consideram identidade, alinhamento, orientação e a forma como tudo isso se articula com gênero, sexualidade e romance. há um empenho em encontrar representatividade para si em cores e reflexões, fazendo pesquisas profundas sobre os próprios sentimentos, a forma de se relacionar consigo e com o mundo!

os rótulos e os micro-rótulos dentro da comunidade MOGAI são ainda motivo de muito bate-boca. algumas pessoas acham que especificidades podem comprometer a visibilidade e o entendimento da causa para quem vê de fora (ou mesmo quem vê de dentro). mas uma parcela importante de pessoas está lutando para dar visibilidade e promover o entendimento dessas bandeiras para quem possa se identificar com elas, o que é um trabalho principalmente voltado para a própria comunidade ou mais ainda para si. questionamentos frequentes sobre a validade dessas identidades são rebatidas com um estímulo à investigação de si e mesmo à formulação de novos termos que contemplem ainda melhor, de forma mais precisa, aquilo que transborda do que se sente.

me sinto provocada, fico fascinada com essa movimentação entre pessoas tão jovens. talvez principalmente por serem tão jovens ♥

é material pra mais castelos que vêm aí! como isso tudo te atravessa?

vique

segunda-feira, março 8

ficou por isso mesmo

bicicleta, movimento

eu pedalando naquela principal cujo nome já me esqueço

é quente, chove, sorriso de encontro, cerveja e um beijo que não foi


pedalzinho, cansaço

"tô moída, mas vamos!"

eu e meu amigo nos arrumando juntos

umas 30 pessoas na praça do derby, gente que nunca nem tinha pedalado na vida!

ocupando rua...


mais bicicletada em sexta de carnaval, brega no marco zero, eu na boca dele

amanheceu com galo visto da janela na aurora


fomos pedalando até o eufrásio

brinquei, pulei, dancei por dias

enfrentei noite sozinha, viva, trôpega, sorridente


música energiza, danço até virar pó

me misturo nas cinzas de quarta-feira


dali, papéis, grau colante, amizades

encontro em mercado público pra comemorar

boa vista é cerveja, arrumadinho com queijo, farofa, manteiga de garrafa


fui embora por outros compromissos

pouco depois não mais pude abraçar momento, pessoas, energia de encontro


vida carnaval

sobrevivo em meio às cinzas

penso, sinto, florescço

logo aquieto: saudade tanta, mundo que foi


foi. mas volta?


vique

eu deveria ter lido, mas não li

preferi dizer que não queria ler

"é que começa num pique, depois, saudades... coisa assim triste, dolorosa..."

e ficou por isso mesmo

quinta-feira, março 4

a humilhação pode operar milagres

essa é uma primeira postagem depois de muito tempo das últimas postagens porque me deu vontade e já tinha dado vontade antes mas eu deixei passar e acabou passando

fiquei com medo que passasse de novo então vim postar qualquer coisa

não sei

não sei o que escrever


mas sinto saudade de fazer isso - não escrever somente, não escrever em qualquer lugar, mas escrever aqui: é disso que eu sinto saudade

afinal o que é uma postagem num blog?

um pensamento próprio, confuso, elaborado, opinião que transborda dos insuficientes 280 caracteres

esse é o espaço para minha loucura se manifestar livremente, ou numa tentativa de organizá-la em pensamentos, argumentos sólidos na pretensão de convencer quem lê de que estou mesmo louca, mas não tanto assim

"é que essa loucura faz sentido", essa loucura se faz sentindo

mas esse não é um texto argumentativo ou poético ou bonito

eu poderia falar sobre a pilha de livros começados que organizei na estante do meu quarto, as coisas estão mudando, sei que estão...

hoje vivi um grande rompante terapêutico, coisa potente, energizante, que só se encontra cavando bem fundo o fundo do poço

meses caóticos, improdutividade seletiva, desespero, pena, lágrimas e uma mensagem que foi eu batendo o olho, pressão caindo: pronto. fudeu. e não era isso que eu queria, correndo na beira da piscina?

escorreguei tem tempo, só não dei conta que estava caindo

me olhou incrédula, de cima pra baixo: "caiu?"

pior que eu nem tinha reparado que tava ali estatelada - tinha tanto tempo, o corpo chega doía da imobilidade

vergonha de quem é estabanada, cabeça erguida de quem tá acostumada com a passação: "caí, mermo. queria nem pedir ajuda, mas to sentindo que me fudi"

a humilhação pode operar milagres, disso não tenho (mais) dúvidas

a cara arde, timidez não é nada comparada aos tapas da realidade

ofereci todas as faces da minha bunda à cadeira, minhas costas se pudessem choravam, mas não podem então gritam

zunzunzum do corpo que aquieto já com banho

dia foi puxado, emocionante, lindo também

li, escrevi, li, escrevi, tirei uns trinta minutinhos pra passar mal desejando romance colegial que eu nunca vivi, passeei com a cachorra lolla pelo bairro e voltei aqui

e li o que tinha escrito, escrevi com o que tinha lido, baguncei foi tudo!

mas é sobre isso, né?

#vique

p.s.: pois então??? que coisa interessante... eu queria muito terminar com um beijocolate de ensino médio, mas não vai dar!! que coisa estranha que a pessoa que deu origem ao #v é foragida de minha vida, inventei persona outra de lá pra cá, coisa gostosa recomeçar... kikiiiiu bora lá

segunda-feira, abril 13

Interrupções

Na sala com o violão
Sem cerimônias
Em outros dias já houve cerimônias, mas não mais
Começo

Tímida, quero que todos ouçam
Que ninguém se incomode
Talvez não tão tímida assim, o corpo se empolga
E batendo nas cordas tento acompanhar com o pé
A cabeça vai junto
E o outro pé
Pareço um macaquinho comemorando a música
Uma macaquinha
Tanto faz

Mainha senta no sofá e assiste vídeos no celular
Som alto, hein
"Respira, deixa pra lá", pra mim mesma
Faz um comentário
Interrompo a letra da música pra responder, e volto

Jonny passa, late
Isso é o de menos
Se você ouvir minhas tentativas de gravar uma musica, 90% delas tem um latido no meio
E carros passando
Eu nem reparo mais
Acho poético
Nem paro

Um assobio de uma melodia
Claro que não é a mesma musica que toco
Ou Matheus ou painho indo na cozinha
Pausou o jogo ou o filme, penso
Me faz levantar a cabeça pra ver quem foi
E volto

Interrupções
Nunca bem vindas, mas às vezes
Apreciadas
É a vida que acontece mesmo quando sua atenção quer parar

Como disse minha professora de yoga
- De que adianta se incomodar com os sons que não se pode controlar?
Só que ela falou em francês
Não lembro da frase, só da ideia
Não era inverno

Talvez eu goste de controlar o som do violão, et ça me suffit

sexta-feira, abril 10

Incertezas

[Fluxo de consciência]

A realidade do mundo agora é a pandemia do COVID-19. Quem diria que iríamos viver esse momento tão marcante na história da humanidade (será?),  esse turning point nas nossas vidas, essa REVOLUÇÃO no modo de pensar e agir mundial.

Bom, acho que ninguém diria, naturalmente (exceto Bill Gates naquela palestra naquele dia há uns anos atrás. Ele disse)

Mas, egoisticamente, a maior questão do momento para mim não é saber o quanto o mundo vai mudar, e como vai ficar a economia, e quantos dos hábitos da quarentena perdurarão no modus operandi da sociedade. Até que vale especular sobre isso, é um passatempo a se considerar, só que se perde nisso: especulação.
Não há precedentes semelhantes o suficiente para fazer uma análise comparativa, então no final das contas vai ser tão válido quanto eu especular se aquela pessoa que eu vi no Tinder uma vez poderia estar na festa que minha amiga me chamou, e se ela lembraria de mim, e se a gente se viria, e se esbarraria, e se a conversa fluiria e se a gente se beijaria no final das contas, e pautar minha decisão de ir ou não pra a festa exclusivamente nisso. Não tem garantias, né.
Então qual o sentido de fazer várias coisas agora baseado na ínfima chance das nossas especulações (falando como leiga mesmo) estarem certas?

Enfim, voltando.
A maior questão do momento pra mim não é saber o quanto o mundo vai mudar, mas sim o que é que eu vou fazer nesse tempo "livre". Se eu não faço nada eu simplesmente surto (kkk sejamos sinceras que minha cabeça acostumada a viver 10h/dia - em média - voltada ao trabalho não consegue passar dias inteiros só vendo Netflix por muito tempo). Se eu tenho coisa demais a fazer, eu surto igualmente, porque vem o medo de não dar conta da quantidade de coisas. Sendo eu a delegadora de atividades, tem sido quase uma lição de gestão em termos de prioridades e alocação de tarefas, porque, no final das contas, se eu delego tarefas demais ao meu time (eu mesma sozinha, nesse caso) e o time não consegue produzir nada por estar tendo um breakdown, é melhor delegar menos tarefas que eu saiba que eu posso dar conta e ir dando mais tarefas à medida que as primeiras forem sendo concluídas, certo? Faz sentido.

Ok, então é isso. Vou ver se funciona

segunda-feira, setembro 16

Cartinha - Copa do Mundo

Aldeia, 2012 ou 2013

Eu acho importante ressaltar que eu chorei nesse momento [de escrever a carta] porque eu estava lembrando do EAC, e eu me sinto especial demais pelo amor que eu sei que meus pais têm por mim e pelo amor que eu sinto por eles. Principalmente depois do EAC, eu acredito que venho tendo uma ótima evolução com ambos os meus pais e irmão. Sei que algo mudou e, durante o Copa do Mundo, esse sentimento tão forte que me atingiu no EAC após receber o álbum, naquele momento de tamanha fragilidade, voltou com tudo através da música da família.

Não que eu seja religiosa ou acredite nesse Deus [personificado, rancoroso e vingativo, regrado e restritivo, que discrimina a quem vai distribuir amor e paz] que aqui e em todos os outros lugares sempre é mencionado e descrito, mas o amor e emoção transmitidos nas palestras ("partidas") é tão forte e passa mensagens tão importantes (menos a da sexualidade, WTF) que eu me sinto errada se aquilo não surtir algum tipo de efeito. Todo o carinho e afeto posto pela equipe que trabalha para o encontro dar certo é de grande importância. É como se você sentisse que alguém se importa em fornecer o melhor possível.

[A única forma que eu consigo ouvir os discursos e participar dos momentos desses encontros religiosos é redefinindo o que significa Deus. Assumindo uma interpretação alternativa para as discussões que tivemos]

[se] Deus = amor, carinho, beleza, felicidade, alegria, cuidado, paz, natureza, naturalidade, afeto. [então] Meus amigos são Deus, minha família é Deus. De uma forma ou de outra, não posso viver sem esse Deus. Mas esse meu ["] Deus ["] não tem regras, mandamentos ou qualquer coisa a ser questionada. Ele é meu e meu somente.

[Hoje em dia me dói pensar em amor e tudo isso como "Deus". A palavra se deturpou em tanto ódio e repressão ao qual foi associada. Se o governo usa o nome "Deus" pra justificar atrocidades, crimes contra a população, injustiças etc. Se pessoas usam "Deus" pra matar, descriminar, violentar, excluir. Se o mundo usa "Deus" pra forçar uma determinada conduta, baseada em falsas morais e manipulação, quem sou eu pra chamar AMOR de "Deus"?? Meus amigos e família estão acima disso]

quarta-feira, setembro 12

O estojo caindo é a nova gota d'água

      Lembro muito bem de um dia que eu estava no 3º ano do Ensino Médio, estressadíssima com todo o assunto que eu precisava estudar, com as provas do colégio que ainda tinha pra fazer, os exercícios da apostila verde que eu tinha que terminar antes de receber a apostila vermelha que viria em seguida.
      Deu o intervalo ao fim da aula de redação e eu resolvi ficar na sala pra estudar, ao invés de sair e desopilar um pouco (eu tinha essa tendência de esquecer que eu não era uma máquina - e hoje em dia já sei que até máquinas, se forçarmos sua capacidade, têm maior chance de quebrar (olha só, eu faço engenharia)).
      Lá estava eu, sentada na banca com as duas mãos puxando o cabelo pra longe do rosto pra poder ler a questão (nessa época por algum motivo eu me recusava a prender o cabelo, por tudo que fosse mais sagrado).

E aí

      meu estojo

         caiu
     no
      CHÃO

O mundo acabou

      Era uma clara metáfora que o universo plantou na minha manhã para ilustrar o quanto tudo estava dando errado, como eu não conseguia ter controle sobre a minha vida e nem pra manter o bendito estojo em cima da mesa eu tinha capacidade. Comecei a chorar enquanto recolhia tudo e punha de volta dentro do estojo, já antecipando o quão inútil isso era, visto que eu eventualmente o derrubaria de novo e precisaria recolher de novo.


Drama.

      Hoje em dia eu olho pra essa situação e acho um misto de cômico com desesperador. Feito aquele meme do golpista rindo mas preocupada.
     O estojo não é o problema, mas lá estava eu descontando todas as minhas frustrações em cada lápis que eu tirava do chão. O estojo nunca foi o problema, né. Já tantas outras vezes ele caiu e eu apanhei do chão sem nem pensar, no meio de uma conversa, ou até em casa, sei lá.
      Estojos caem.
             Esse não era o meu ponto...
   O meu ponto era que eu percebi em mim (e em outras pessoas com quem tenho contato o suficiente) essa tendência de buscar um bode expiatório pras coisas. O fato de mainha não estar em casa ontem quando veio o costureiro e eu que tive que ficar lá com ele enquanto ele fazia o serviço, mesmo tendo outras coisas pra fazer, não é culpa do costureiro nem de mainha. Eu só me incomodei com a situação porque estava com as tais outras coisas pra fazer. Tá entendendo? (disse eu, para mim mesma).
    O meu ponto é que a responsabilidade do que acontece conosco é nossa. Bem como qualquer estresse decorrente disso. Como já disse Hiago (2016) após uma colega reclamar de sobrecarga, "[...] e fui eu que fui no siga e te matriculei nessas cadeiras tudinho, foi?". Bem colocado, Hiago. Não foi você quem fez a matrícula da outra pessoa. E também não é culpa dos professores que ela se matriculou nas disciplinas deles.

Me perdi na linha escrevendo esse texto, mas a ideia final era: Júlia, minha querida eu, não se irrite com quem não tem nada a ver com a história só porque eles apareceram na hora errada. Ter raiva do estojo não muda nada.

domingo, setembro 2

Te vejo na Turquia

Os "- Nunca mais." que deixam de existir, em um último apelo, na eterna resistência a fechar os ciclos da vida.

Se a gente não diz adeus, todo tchau é um até mais